Coisas de aeroportos e malas

Aeroportos são lugares curiosos para dizer o mínimo, as vezes é importante dizer o mínimo, em um aeroporto então cheio de vozes, palavras, alertas, telas, gente correndo, opa esqueci o check-in, opa esqueci a carteira de identidade, pera um pouquinho moça já já acho meu bilhete, pera aí seu moço do raio x não tem nada demais na minha mala deixa eu ir logo se não perco o voo. Quem nunca perdeu um voo que atira a primeira pedra, ou o primeiro bilhete, perder um voo é como uma espécie de ritual de iniciação na lógica aeroportuária, um ritual doloroso como todos eles. É como entrar na adolescência com todas aquelas questões meio Werther meio Harry Porter, só que aqui a melancolia é de outra ordem é quase como o que fazer nesse aeroporto barulhento? cheio de gente estranha e vozes que gritam por todos os alto- falantes. Um aeroporto, penso, talvez pareça um pouco com uma crise psicótica muitas vozes de vários lugares que fazem pouco ou nenhum sentido, voo 341 para Flórida última chamada, o que tenho a ver com a porra desse voo para Flórida, quero apenas voltar o relógio alguns míseros minutos e que a atendente do balcão da companhia da aérea seja minimamente condescendente, não, na verdade quero apenas que ela quebre algumas regras e meia dúzia de protocolos bizarros que não me fazem sentido, assim como essas obsedantes vozes que habitam todo o aeroporto e vibram meu corpo.

Ser mínimo em um aeroporto, há de tudo menos algo de mínimo, tudo é exagerado e no limite do racional. Gente de todo jeito, tipos, modos, mas o que chama mais atenção são de longe as malas. Nesse lugar que nem um lugar direito é, a mala parece ser o que identifica cada um dos passageiros que passam e repassam, que correm pelas escadas, esteiras e saguões imensos que tropeçam uns nos outros e que se irritam com o raio-x e com a mudanças de portões de embarque. Uma certeza: funcionários de aeroportos tem um prazer perverso em mudar portões de embarque, deve ser o tédio que infesta suas cabines com a mesmice de números de voos, com os protocolos escritos em línguas apócrifas ou o café que já esfriou e a moça do cafezinho já foi pra casa.

Mas as malas, elas assim tem uma vida inteiramente outra nos aeroportos, passeiam por esteiras, vagueiam por carrinhos, são jogadas no compartimento de bagagens e estão completamente alheias aos humores que habitam os aeroportos. Elas sim, gostam de viajar, não precisam correr, são levadas, não precisam negociar um atraso com atendentes que não dormem por várias noites, vão e voltam em seus mundos de rodinhas e fitinhas e adesivos de identificação, além de carregarem de vidas inteiras em seus interiores. O que será que fazem as malas, no escurinho do compartimento de bagagens quando todos já estão apertando seus cintos, ordenados a desligar seus telefones e vendo pela milésima vez as instruções de segurança enquanto aeromoças caçam malas fugitivas?

As malas, elas sim, viajam bem, não precisam evitar a conversa do companheirx ao lado ou ser obrigado a ouvir histórias incompreensíveis de gente mais incompreensível ainda. Malas, se dão bem, viajam no escurinho e se tudo vier abaixo, pouco importa, elas ainda se divertem flanando por mares e florestas nunca antes visitadas. Sim, as malas, são as únicas que de fato viajam, os outros no máximo deslocam seus corpos impregnados dos seus lugares de um ponto a outro, se mexem mas ficam parados. É preciso, talvez, apreender a viajar com as malas, sempre experenciando novos momentos, tempos, lugares, novas espessuras e tirar etiquetas, adesivos e identificações no fim de tudo; e, nenhuma palavra, nenhum sentido ou destino.