Ela, Goza

E ela gozou, e todos os fantasmas escorreram pela cama encharcada, pelos lençóis, numa mistura incompressível de cheiros, sabores e texturas. Pelo cantinho direito da cama desconjuntada, o que daria um bom trabalho para a camareira, era possível entrever alguns poucos resistentes, como em uma batalha que soçobra meia dúzia de corpos rastejantes, enlameados, envolvidos de suor, bravamente tentavam voltar à batalha cotidiana de captura da exasperação que dominava o ambiente — com suas armas colocariam palavras e sentidos, classificariam aquelas intensidades esquisitas que povoam por entre os lençóis, encerrariam aquele movimento disparatado de corpos em balé imóvel. Alguma palavra, sempre na espreita, avançaria rumo à boca trêmula, nem um mísero gaguejar poderia sair incólume. Mas as armas, dessa vez, não esposava por completo aquele ambiente meio suspenso, meio perdido, o espaço escapava por entre os dedos, por meio das palavras, nenhum dito conseguia realizar sua infame e precisa tarefa de captura. Nenhum adjetivo possível, substantivos perdiam-se pelas pernas, advérbios escapam como fumaça de uma chaminé perdida.

[ Que peut le corps? ] por Igor D.

Corpo suspenso, vívido, lívido, os órgãos se desorganizavam, como que por dentro, sentia o estômago revirar, a garganta secar, o olhar parava em um ponto qualquer — todo o espaço se abria os corpos se derramavam e como os nômades, escapavam de si mesmos, nenhum rosto possível, nenhuma gramática inteligível. Gritos, espasmos e gemidos, tudo escapava, tudo criava um outro lugar — fora de qualquer lugar.

Líquidos em batalha com os ponteiros do relógio, restava uma inesgotável guerrilha, o tempo se perdia, o corpo já não se sabia onde estava, de quem era aquele corpo? Porta a fora, que corpo sairá por ali e voltará à ordem das coisas que se dizem? Entre aqueles lençóis, deserto do visível, estepe do visível, alguma história possível?

[ Que peut le corps? ] por Igor D.

Mas o tempo retorna, sim, diferente, e o corpo se reconhece, também outro(s). Lençóis arrumados, gestos aprumados, tudo volta à normalidade. Mas essa normalidade, nunca mais será a mesma, impossibilidade de repetição, o relógio até que tentava, a palavra chegava quase à língua, mas voltava correndo, gritos como carrascos a degolarem todo aquele dizer impossível. Tudo restava apenas naquela bruma entre os corpos, como repetir o tempo, contra o próprio tempo?

Ela gozou, o tempo se perdeu, nenhuma madeleine pra preencher a cama com outros sabores –gozo, inferno que transpassa os corpos; gozo, morte que preenche de vida a normalidade cinza dos dias que se contam.