Isso não é um obituário
A Literatura, a vida*.

Foi em uma tarde de verão, em Teresina, por aqui elas são sempre presentes e continentais, que esbarrei com um livro do Noll pela primeira vez. Já tinha visto seu nome pelo meio literário, pelo meio dos livros, pelo meio de listas, de citações e etc., mas até então nunca tinha detido meu olhar pra sua literatura, sua obra vastíssima causava-me certo espanto, as capas de seus livros não deixavam rastros. Mas, então nessa tarde peculiar, sentei na cadeira de sempre da livraria, pedi o mesmo café e abri seu livro: “Rastros do Verão”. O espanto foi como se deparar com um Kafka, um Camus, um Cortázar. “Ao falar senti que poderia ter ficado calado”, frase espantosa, feito tiro à queima roupa, aquela potência da literatura que te agarra pelo corpo todo, que faz o pensamento vacilar e as imagens explodirem. Um mundo todo se abre na sua frente, no meio de frases rápidas, cenas prosaicas, saltos, devires da língua — alguma coisa de diferente se esboça. Como diz um de seus editores, sobre “Rastros do Verão”: um romance do olhar.

João Gilberto Noll

João Gilberto Noll, nascido em Porto Alegre nos anos de 1940, me parece ter sido esse peculiar tipo de escritor, um escritor dos/com os olhares. Grafava com visões, imagens, sombras, desvios, cegueiras, planos e perspectivas. Entrecortava a palavra, ou ainda, abria fissuras nos modos de dizer, compondo com esses olhares que não se sabe de onde vem, para onde vão e onde estão, se é que estão em algum lugar. Escreveu — tornou visível — mais de uma dezena de livros, recebeu vários Jabutis, teve várias de suas obras adaptadas para o cinema. Comparado ao escritor e poeta D.H. Lawrence, a crítica literária gostava de o situar em uma certa filiação pós-moderna e introspectiva.

E eis que Noll enxarcou — dessa vez de lágrimas, não de suor como os corpos frenéticos de seus personagens ziguezagueantes — a literatura brasileira. Nossas letras ficaram com menos cenas e afagos, menos dançarinas, menos hotéis, dada sua morte, aos 70 anos, na última quarta feira, 29/03.

Apesar da tristeza que faz-se presente como um adjetivo a mais no meio daquela frase, um substativo que invade a composição de uma cena, ou ainda, aquele personagem que insiste em fugir entre os dedos daqueles que escrevem, não devemos nos demorar no pensamento melancólico da morte. A obra de Noll é um encontro alegre, diria com o grande filósofo Spinoza, como uma tentativa sempre inventiva, e no limite, de uma produção criativa. A linguagem sempre apertada entre sombras, luzes, olhares — a linguagem como um corpo que se contorce freneticamente. E, como disse tão bem Gilles Deleuze, a literatura é uma saúde — a própria vida em sua mais pura e intensa imanência.

texto originalmente publicado no Jornal O Dia, edição do sábado, 01/04/16, caderno metrópole, na coluna m3.
*subtítulo roubado, descaradamente, de um texto de Gilles Deleuze, presente no livro "Crítica e Clínica".