Minhas Anarquias. 1.
Gosto das coisas tortas, erradas, esquisitas, de muitos pontos de exclamações, de gritos surdos, de vírgulas fora do lugar — elas teriam um lugar só delas?
Gosto do vazio, do nada, do sem. Quando tira tudo, quando não diz nada. Especialmente daqueles vazios que as palavras tateiam em vão. Sou um caçador de nadas, um admirador convicto das coisas sem coisa alguma, do incontornável vazio entre um beijo e outro, entre um corpo e outro, como nuvens que passam e levam tudo.
Gosto de corpos sudorentos, trôpegos, arfantes, desses que mal conseguem levantar da cama, desses que não renunciam ao infernal desejo que circula pela superfície friccionada das peles. Corpos sem ar, sem nome, sem palavra. Corpo que vibram, uivam, tremem. Corpos que se embaraçam nos lençois feito aranha em rede mal tecida.

Sou um corpo morto, e, resisto à morte com palavras, sopros, gemidos à vida. Como haveria de resistir à morte, se não capturando a vida? Resistir à morte é como viver intensamente, eternamente, amavelmente. Amo a vida, amo a morte, mas nada a fazer.
Gosto do tédio das horas longas, do relógio que corre como se algum final o esperasse. Ainda mais do tempo que passa como gesto inapreensível, um piscar de olhos e tudo se esvai. Sou um bruxo, anulo o tempo penetrando-o feito bactérias em células desavisadas.
Como um xamã, entre a morte e a vida, cambaleio por mundos outros, por tempos outros, trafico armas com Rimbaud, fumo ópio com Fernando Pessoa e escuto jazz com Cortázar. E o nada, me faz Dionísio, enche-me de uma beleza fulgurante que escapa por todos os lados.
[ para a menina da risada grande e dos gestos pequenos ]
