Minhas Anarquias. 3.
Acordo querendo acordar de novo, o mesmo dia, a mesma hora, a mesma luz a queimar meus olhos semicerrados e tocar o corpo trêmulo. Desejo coisas demais, dessas coisas desimportantes feito topar consigo mesmo na esquina e perder-se na fila da padaria. E na volta já não sei quem foi e muito menos quem voltou.
Acordo querendo desacordar, ir à mil lugares, distâncias infinitas, parado feito pássaro noturno ensimesmado. Estanque feito dança que não dança, palavra que não diz, rio que não corre. Mal-ditos que atropelam a língua. Não sei quem diz, não sei quem vê. Quero apenas acordar de novo e andar atônito em minha cela sem ar.

Acordar de novo com o bailar da bailarina vagando entre meu tempo estendido. Baile que repousa chave da minha sepultura em peito ofegante. Para que eu absorva com fome de corpo todo pequenas mortes e renasça aquém e além de mim. Pulsa, ressoa, intrépida bailarina que atravessa com velocidade intensiva, fulguração embebida em sol de meio-dia.
Despertar calculado, estriado, enumerado; tranquei o fantasma no guarda-roupa e acordar é tão pouco, gota de orvalho em floresta esquecida. Preciso acordar de novo, e de novo, e de novo. Baila bailarina, me perco, me encontro nos golpes de ar que tocam o ocaso, o acordar, esse tempo outro e a pele contaminada de ferrugem e minúsculos demônios de um olho só.
[ para a menina-bailarina da palavra-poesia ]
