O sertão vira rosa

E foi na casa de Guimarães que eu entendi, ou acho que entendi. Entendi o mais simples e difícil dos fatos, a leveza de uma língua que pulula feito gente, a suavidade desconcertante da palavra mal-dita. Sim, a palavra não existe ela flutua feito nuvem que chega entre as coisas, nuvem de chuva que ilumina o sertão, esse sertão dentro da gente que não dá pra dizer. E se dizer que seja de um outro dizer, de um dizer que desvia da língua feito boi que titubeia pelos laços do vaqueiro*.

Guimarães, feito rosa, feito palavra, desabrocha em mundo, veredas para outros lugares. Do lado de fora, lado de dentro do sertão, lado ladeado da língua que cria feito artesão.

[ cordisburgo ] por Igor D.

Palavra-rosa, Guimarães inventa vida, mundo, coisa — no sertão, no baile, na palavra — livro feito álamo, feito élan, feito poesia. Poesia feito prosa, feito palavra que dança, feito corpo que baila.

Feito, fazer, nunca terminado, nunca concluído como as coisas pelo meio, pela estrada que leva a lugar qualquer. Lugar bailante, perdido como o tempo perdido de Proust, como a morte pelo anverso de Machado, como a Dublin de Joyce. Lugar suspenso, mas sempre a descer e vibrar na terra entre as coisas.

Guimarães é desabrochar, feito rosa, que não termina, que não funda. É sempre começo e meio, meio e começo, como o sertão que atravessa a gente. Sertão sempre a nascer e ressoar — palavras, gestos, vidas.

O sertão não vira mar, vira rosa.

Texto originalmente publicado no Jornal O Dia, 27/04/16, caderno art&cultura.
*Não gosto de vaqueiros, muito menos da máquina destruidora de mundos chamada "agro-negócio". Defendo o direito a terra, a vida, aos mundos dos povos indígenas; mas adoro o sertão, esse sertão de dentro que vira mundo, palavra e rosa.