A conclusão do impeachment é também um desperdício da crise

Meu maior lamento é ainda não mirarmos no jogo, somente no jogador

Eu há um tempo me tornei entusiasta das crises. Longe de ser aquela pessoa que faz questão de apontar o que tem de positivo até num avião caindo. As crises me entusiasmam porque não há nada mais eficiente para colocar um sistema em discussão do que sua própria falência. A crise dos modelos que defendemos obriga o questionamento das nossas convicções, é o rompimento de uma linearidade em que tudo aparenta estar bem até que o caos nos force a lidar com o que escondemos no armário. No caso da crise que rodeia o impeachment, passei a ver essa superexposição do nosso sistema político como uma oportunidade rara, uma chance quase inédita de usar essa indignação comum para nos desfazermos de um modelo de democracia que há um longo tempo já sinalizava seu desgaste e ineficiência. Como quase sempre, meu otimismo me desapontou.


Baile de máscaras

Um ano e meio de congelamento do governo, quase nove meses de processo legislativo e a gestação do impeachment vai se encerrando na imprensa e na boca do povo com um certo ar de Juízo Final. As pessoas se dividem entre um sentimento de catarse e outro de injustiça. Colocando toda a retórica do golpe à parte, eu vou dizer que o que me deixa triste mesmo é ir me aproximando de reconhecer o quanto tudo isso foi em vão.

A Lava Jato — mesmo não tendo sido a primeira a fazê-lo — expôs por dois anos tramoias que contaminam todos os cantos da política de governo, da administração das empresas públicas aos financiamentos de campanha. O impeachment no congresso, com direito a ocasionais espetáculos de circo, esfregou na cara de todos a jequice dos parlamentares e o funcionamento de duas casas que se sustentam na troca de favores. Isso foi todo santo dia nos últimos meses.

Fatigante, chegou a ser chato, e ainda em vão: nada disso serviu para abalar a credibilidade que as pessoas ainda dão no nosso modelo representativo. Metade do país se deu por satisfeita com a saída de Dilma, solução que nem cumpriu o prometido e deixou a porta aberta para uma ceifada de direitos. Mas é o que deve ser feito quando o líder é o vilão. A outra metade teve que comprar um discurso personalista que encolheu o significado de democracia no apelo de voltar ao “menos pior”. Mas é o que deve ser feito quando o líder é o herói.

Nossos líderes giram numa roleta em que podem parar ora como bode expiatórios ora como salvadores da pátria. O importante é que essas funções estejam sempre preenchidas. O baile de máscaras da representatividade segue deixando a política digna de um tablóide. Seu discurso trata de figuras públicas; nomes e sobrenomes são maiores que projetos e teorias. Quando se fala de política fala-se deles, não de nós.

E é assim que compramos brigas que não são nossas. O sistema está escancarado, nu, todos os seus defeitos são vistos exaustivamente todos os dias na timeline, no jornal. Valendo-se disso, quantos você ouviu argumentando saídas sistêmicas? Eu mesmo ouvi alguns, mas poucos. Em nossa maioria, ainda preferimos sair na unha discutindo o legado da presidente ou justificando a sujeira do político A com a imundície do B. Continuamos crentes de que engravatados profissionais, líderes de classe e subcelebridades presenteados com milhões de grandes companhias, muito bem empregados por marqueteiros, são mais capacitados para tomar decisões por nós do que nós mesmos.

Debate popular coloca o foco na reputação dos líderes, enquanto representantes, que detêm as decisões reais, utilizam demandas do povo seguindo conveniência. (Da esquerda para a direita: Jefferson Bernardes/AFP, Alessandro Buzas/Futura Press/Folhapress, Dida Sampaio/Estadão)

Democracia encenada

Vale ainda mencionar a ilusão de participação: Quem vestiu verde e amarelo na rua tem impressão de que foi seu grito que derrubou Dilma, não o arranjo político-empresarial organizado para moderar a Lava Jato e desmontar uma seleção suspeita de serviços públicos. Quem tirou foto com um cartaz Fora Temer tem impressão que é sua selfie que pode salvar Dilma, não o outro arranjo político, aquele que tentou reverter a situação oferecendo favores e cargos no governo.

E assim, desperdiçando a crise, vai seguir a representatividade que não representa, num bem articulado e sólido modelo fisiologista que atende a quem estiver disposto a pagar e usa a voz do povo por conveniência. Tudo isso coberto num pano onde sabe lá quem um dia escreveu em letra de garrancho: democracia; e desse jeito ficou.