O Perigoso: a arte de Leonilson aplicada em série de cartazes para conscientização sobre HIV e AIDS.

Igor Fontes
Jul 10, 2017 · 10 min read
José Leonilson.

“Tomada por alguns artistas como causa pessoal, como forma de politização da linguagem plástica, o tema da Aids se configura como uma questão de princípios para salvar o corpo erótico dos delírios do conservadorismo e do preconceito”(MESQUITA, 1998).

Assim como vários de sua época, José Leonilson, depois de descobrir ser portador do vírus, impregnou seu trabalho com a presença do HIV, às vezes, literalmente falando (“O perigoso”, 1992). É dito que uma geração de artistas contemporâneos tornou-se profundamente marcada pelo espectro da AIDS. A epidemia que trouxe um timer para a produção dos artistas que, embora tenha limitado o processo de criação em questões temporais, o expandiu infinitamente enquanto espaço de representação pessoal crescente e amplificada no cenário da arte contemporânea brasileira. Se não presente formalmente nas obras, a AIDS nunca passava despercebida. Não só trouxe questionamentos, criando uma nova militância que precisava de forças enquanto que lidava com questões amorosas, de sexualidade e de gênero, mas colocou em cena questões a serem descobertas pelos artistas como palco principal para seus trabalhos. A figura do artista se torna o objeto enquanto que os trabalhos considerados como extensões do corpo propriamente dito, aquele que se torna o repositório de todos os embates reais em vida sofridos pela doença, figura-se na obra de maneira a cicatrizar enquanto que criação, em telas, tecidos, tintas, lonas e em qualquer que seja o material, linguagem ou plataforma escolhida.

A proposta dos cartazes surgiu de um anseio ao compartilhamento de informações sobre o vírus do HIV, criando uma movimentação sobre o tema. Visto como as campanhas brasileiras de conscientização ao vírus se dispõem, esta pesquisa não tem a intenção de criar uma proposta substitutiva, mas sim de tentar complementá-las. Atualmente, a maioria das campanhas vigentes disponíveis pelo site oficial do Governo Brasileiro sobre o tema não são voltadas especificamente para AIDS, mas sim para além dela, as Hepatites virais. Dessa maneira, as informações previstas nestes panfletos e cartazes sempre estarão limitadas de acordo a que abarque as IST (infecções sexualmente transmissíveis) em sua maioria. Apesar da incisa campanha governamental sobre o uso da camisinha, foi percebido no meio social estudado, Universidade Estadual Paulista, UNESP, campus de Bauru, São Paulo, certo desinteresse sobre o tema do HIV e de certa maneira uma taciturnidade em relação ao uso de preservativos. Podemos acreditar que as novas gerações encontraram uma situação aparentemente sob controle, o que tem gerado uma ilusão de que o problema estaria solucionado. A epidemia que nos anos 80 trouxe para os brasileiros, em maioria a população homossexual, uma morte silenciosa, um pavor em existir e em manter relações de afeto com seus parceiros, amigos e familiares, hoje se tornou um tema que descansa em repouso sobre os ombros dos que não viveram a chegada da doença ao Brasil. Segundo a UNAIDS, cerca de 15.000 pessoas morrem por ano no país em complicações causadas pela Aids. Além disso, a organização acredita que estejamos passando por uma epidemia entre os jovens visto que, das 5.700 novas infecções por HIV em 2015, 35% ocorreram entre pessoas de 15 a 24 anos. Ainda segundo a instituição, essas epidemias podem ser combatidas através do Desenvolvimento Sustentável, melhorando as oportunidades para jovens através de maior acesso a educação de qualidade, serviços de saúde e oportunidades de emprego, e através da igualdade de gênero e empoderamento de meninas e mulheres.

Observando então a partir disto, os cartazes deveriam ter um público alvo jovem, entre os 15 e 30 anos, seguindo com uma asserção artístico-informativa, diferente das campanhas desenvolvidas pelo governo que se sustentam principalmente no meio do marketing. Este lado artístico extrair-se-ia então das obras de José Leonilson, visto que o artista foi vítima do vírus da imunodeficiência humana e tem sua obra dita como uma das mais autobiográficas da arte contemporânea brasileira. A série de cartazes denominada “O Perigoso”, baseada na série de desenhos de 1992, feita por Leonilson já em períodos de internação hospitalar em decorrência da doença, motiva-se a trazer novamente em discussão a presença da Aids na vida dos jovens. Desmistificando a doença de maneira oposta, hoje, tratada como algo além, não palpável, mas que nos rodeia e exige informação.

J. L. 35

A AIDS está presente nas obras de Leonilson como uma alegoria inevitável. O legado propõe múltiplas interpretações a partir de imagens-código e símbolos metafóricos que compõem os trabalhos. Leo, como se fez conhecido, desde sempre manteve suas obras como um diário pessoal. Cercado de desejo e dúvidas internas viu-se na obrigação de registrar seus mais significantes ou ínfimos momentos trazendo à tona seu desenvolvimento como ser humano e sua busca como artista com voz interior. Com uma obra fortalecida por viagens ao exterior e dramas cotidianos, como o abandono e a reclusão permeada pela sexualidade, pode-se acreditar que o artista se via com excitação e receio ao “expor seu coração” para o público. O caráter poético se fortalece na polissemia, presente principalmente nos desenhos. Verifica-se este caráter nos códigos desconexos, palavras e imagens repetidas propositalmente com a intenção de limitação, o que os ‘eleva’ à categoria de símbolo.

“Os trabalhos são todos ambíguos. Eles não entregam uma verdade diretamente, mas mostram uma visão aberta.” (LEONILSON, 1992).

Com um acervo medido em centenas de obras produzidas em um período de cerca de dez anos, demonstra-se difícil a tentativa de dividi-las em categorias devido a sua continuidade e contexto. Porém, com uma obra tão pessoal e íntima como a de Leonilson, podemos exercer uma tentativa de divisão das obras em fases, baseadas no estado em que o artista se encontrava nos períodos divididos. A primeira fase que pode ser destacada é chamada de os primeiros anos (1983–88) onde o artista busca uma definição estética. Podemos citar dessa época seus diversos estudos para figurinos, cartazes ou mesmo pinturas, e as experiências trazidas da variadas viagens como fundamentais para o desenvolvimento do traço do artista e início da produção de seus símbolos. Em seguida (1989–91), o artista se encontra no tema do “abandono”, retratado em fitas de áudio, provavelmente causado pela separação pelo dito por ele, o amor de sua vida até então, Al. O romance é introduzido as suas produções novamente após um novo relacionamento por volta de 1991, ano em que descobre ser portador do vírus do HIV. Nos dois últimos anos de sua vida, a alegoria da doença domina por completo a linguagem. (LAGNADO, Lisette, 1992)

O Perigoso

Tomando como eixo principal os últimos anos da vida do artista, período de vivência com a doença, onde suas produções se tornam impregnadas pela presença do vírus, explicitamente ou de maneira consequente, e temas como a dor, solidão e morte, explicamos o nome escolhido para a série de cartazes. Um “eu” inquieto surge nas obras do artista a partir do ano de 1991, ano do teste, ano que um assombro já antes sentido (“Moedas de artista, dias contados”, Leonilson, 1985), retorna de maneira metafórica às obras. “O perigoso”, série de sete desenhos criados pelo artista durante uma de suas internações e expostos sobre uma mesa de madeira trazem uma impressão de Leonilson em sua mais íntima condição de representação. Inicia-se com a própria gota do sangue contaminado. Colocando a realidade presente que vivia em um papel, o perigoso, assim como aquela gota, existia dentro das veias do artista. Dito pelo próprio artista em entrevista à Lisette Lagnado, “Tem gente perigosa porque tem uma arma na mão. Eu tenho uma coisa dentro de mim que me torna perigoso. Não preciso de arma.” A série reflete como era ser portador do HIV naquela época e é composta pelas obras O Perigoso, Margarida, Prímula, Lisiantros, Copos de leite, Anjo da Guarda e As fadas. É característico do artista e possível de interpretação através dos trabalhos que mesmo em situação de certeza sobre a morte próxima não vemos traços de auto piedade. Seguido em um processo de desmaterialização do corpo através da junção de palavra + imagem, consequenciando uma idealização de mundo, Leonilson consegue transformar um discurso físico em algo excessivamente subjetivo, simples, e que consegue atingir à qualquer um. Evoluindo a alegoria do vírus em obra, torna a doença frívola com alcance para mãos e olhos que não sofrerão de suas mazelas. Referente a desfiguração trazida pela doença ao artista enquanto ser, no último ano de sua vida, no final de 1992 e começo de 1993, as obras produzidas são consideradas autorretratos não antropomórficos. A condição de soropositivo traz ao corpo muitas mutações e já corroído pela doença, Leonilson não se reconhece em sua própria carne. Utilizando de bordado e objetos pessoais as obras José, J. L. 35, J.L.B.D., El Puerto, O Templo, entre outras do período, se tornam em profunda significância a descrição das mutações decorrentes da doença e presentes na vida do artista, feitas em meio a internações e transfusões de sangue.

Utilizando do livro “São tantas as verdades: Leonilson” (LAGNADO, 1998) e do longa-metragem “A paixão de J.L.” (NADER, 2015) como fontes principais para o trabalho, a pesquisa se iniciou com o entendimento sobre a trajetória do artista e sua relação com a obra autobiográfica, como se deu sua produção e mudanças ao longo de seus anos de vida. Buscou-se perceber os pontos principais a serem adotados e que possuem valor maior para a pesquisa, notados na fase dos últimos anos do artista, a partir de 1991, ano que o artista se descobre soropositivo. Além do estudo dos dois itens citados, um referencial teórico foi construído na tentativa de embasar a relação do artista com o HIV e a Aids, procurando entender como a arte contemporânea foi afetada pela epidemia, em específica a arte de Leonilson. Apoiado também no acervo disponibilizado pelo Projeto Leonilson e no trabalho realizado pelo Itaú Cultural de digitalização das obras e catalogação, foi possível ter acesso aos registros fotográficos das obras e as fichas técnicas oficiais.

Após a pesquisa e estudo do referencial teórico, foi decidido que a série de cartazes possuiria um total de quatro peças gráficas, criadas como releituras de obras significativas do acervo do artista e tivessem um teor explicitamente voltado a presença ou assombro do vírus na vida do artista. Dessa maneira, para cada obra escolhida foi pensada uma paleta de cores baseada na coloração das peças.

Moedas de artista, dias contados, Leonilson, 1985 (Col. Theodorino Torquato Dias e Carmem Bezerra Dias, São Paulo) e paleta de cores escolhida abaixo.
Figuras 3: Com ela sempre por perto, Leonilson, 1991 (Col. Jassanan Amoroso Dias Pastore, São Paulo) e paleta de cores escolhida abaixo.
Figuras 5 : O Perigoso, Leonilson, 1991 (Col. Sofia e Ricardo Semler, São Paulo) e paleta de cores escolhida abaixo.
Figuras 7: Cheio, vazio, Leonilson, 1993 (Col. Museu de Arte Moderna de São Paulo) e paleta de cores escolhida abaixo.

A estrutura dos cartazes é dividida em três partes. Uma parte imagética, uma parte composta de texto, que é padrão para todos os modelos, e um rodapé. A parte imagética se resume na utilização de um pequeno poema misturado com desenhos, marca tão característica do artista, além da disposição dos itens no plano que se configura pelo espaço vazio. Esses poemas foram produzidos pela junção do título das obras com palavras retiradas dos materiais de pesquisa estudados. Essa parte do cartaz em específico deixa uma multiplicidade de sentido para seus interpretantes. A parte de texto surge a partir do momento que foi decidido explicitar o tema tratado, a presença do HIV e de que o tema deve ser discutido em conjunto, e não silenciado como algo superado, já que não o é.

Para fazer o download dos cartazes para impressão basta clicar aqui.

A oportunidade de desenvolver o seguinte trabalho demonstrou-se desafiadora e gratificante. Entrar em contato com a vida e obra de Leonilson enquanto que autor autobiográfico conduziu a pesquisa para uma experiência de contato direto com o artista. Suas angústias, agonias, clemências e alegrias foram sentidas mesmo que em uma pequena porcentagem, mudando o campo de percepção dos que conduziram a pesquisa. O trabalho abriu caminho para vontades de novas pesquisas relacionadas à arte contemporânea brasileira e ao HIV. Acreditamos que é de grande valor que o trabalho consiga trazer uma mudança, mesmo que em pequena escala, para os jovens do Campus de Bauru. Ainda há muito a se descobrir sobre o vírus da imunodeficiência humana e não existem previsões de uma cura, porém a vontade de auxiliar no combate e prevenção ao vírus não se abate.

Obrigado pela atenção.

Referências aqui.

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Igor Fontes

Written by

Graphic Design student at UNESP Bauru.

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