Do Moonlight ao Negro Drama

“Despencados de voos cansativos.
Complicados e pensativos.
Machucados após tantos crivos,
Blindados com nossos motivos…” (Emicida)

“Sou um homem, afirmo.
Acima de tudo.
Apesar de tudo
E por causa de tudo: um homem.” — Roberta Estrela D’alva

Daria um filme!

A história de cada garoto negro no mundo — e existem negros no mundo todo — daria um filme. E deu. Um filme que se desenrola debaixo da luz da lua, aqui nessa terra onde garotos negros não choram, no mesmo lugar onde o choro dos nossos ancestrais temperou o mar.

“E a gente rimando remando contra a maré, a sós.
Cavoucando vulcões, por debaixo de nossas lagrimas
Há rebelde erupções, guerrilhando ardentes em nossa voz.” (Akins Kintê)

Moonlight é um filme sobre muita coisa e por isso é um filme sobre meninos negros, sobre homens negros. Muita fita. A identificação e o estranhamento perseguem a gente durante cada cena. Um elenco todo negro faz com que o racismo nem apareça enquanto dilema, mas ele está ali: limitando a trajetória dos homens e mulheres do filme. A presença do tráfico e do abuso de drogas; o abandono paterno; a imposição de uma masculinidade agressiva; a solidão de uma mãe negra; a pobreza; a homofobia; a prisão e mais uma pá de fita estão ali como dramas da comunidade negra mas não reduzem os personagens a estereótipos. Tudo está debaixo das lágrimas, eclode em um ou outro grito, em um ou outro diálogo mas permanece guardado. Profundo. No fundo do mar que é o peito.

“Diz que homem não chora, tá bom, falou…” (Racionais MC’s)

O filme se passa na gringa mas nos toca como se fosse aqui. Somos também esses garotos negros em nossas próprias quebradas. Tão diferentes mas tão parecidos. O Chiron, que na mesma vida também é Little, também é Black. Também pode ser Kaique Augusto; João Victor; Ithalo; Jonathan; Douglas Rodrigues; Igor; Matheus e tantos outros. Furo em algumas estatísticas, vítima de outras.

Sob a luz da lua convivem a fragilidade e a violência. “Eai, suave”; “se xingar minha mãe ta fudido”; “fuma desse aqui”; “bicha, bicha!”; “te pego na saída”; “é nois, parça”. É dialeto básico nas ruas daqui e de lá. Da ficção e da realidade. Por isso Moonlight é tanta fita. É estranho ver tanto de nós mesmos numa tela, exposto, ali para quem quiser ver, pra gente mesmo ver. A colonização pode até nos convencer de que somos animais mas não pode nos impedir de ver que a nossa pele brilha quando bate a luz da lua.

“Brilhar é resistir nesse campo de fardas.” (Rico Dalasam)

A rapidez e a intensidade das cenas. Os olhares dos personagens. A força das poucas palavras ditas. Tudo vai deixando o olho marejado. A nossa fragilidade fica exposta e é como se existisse uma tristeza ali, até mesmo no tom da luz, na brisa suave que faz a gente ouvir só o barulho do coração. Mas a gente não chora. É como se a gente ficasse à espera de uma surra que arranque toda lágrima represada. O soco nos acerta em cheio com a pergunta “você chora? ” Mas ainda assim não choramos. Chiron diz que chora, que chora muito como se quase fosse se transformar em lágrimas. Temos medo de morrer afogados. Temos medo do mar. Temos medo do Atlântico. Temos medo do oceano que somos nós mesmos.

“A gente nem segue os próprios conselhos, né?
A gente nem se olha direito no espelho, né?” (Nego E)

O zika do Deivison Nkosi, em seu texto “O pênis sem o falo: algumas reflexões sobre homens negros, masculinidades e racismo, nos diz que “quando não é invisibilizado o negro é representado como contraponto antitetico do humano, a sua aparição, quando autorizada, é reduzida a uma dimensão corpórea, emotiva ou ameaçadora, tal como um King Kong descontrolado: tão grande, tão rústico, tão negro. ”

A colonização nos impõe um modelo de sociedade e também de existência. Limita as possibilidades do corpo e da alma. Essa masculinidade (ou hiper masculinidade) imposta aos negros tá ligada a tentativa de nos animalizar, de tornar nosso corpo matavel. Tipo o King Kong (rei do Congo, se traduzirmos); tipo o maluco violento das gangues que não tem nada a perder logo pode (e deve) ser morto num enquadro; tipo as diversas propagandas racistas que colocam o “negro do pau grande” como o maior risco pra sociedade.

Nadar contra a corrente é lutar contra o de fora, mas é também lutar contra nós. Contra aquilo que fizeram de nós, contra a forma que nos representam. É ressignificar e destruir o tempo todo. Quase tudo que sabemos sobre nós foi dito por eles. Não sabemos o que somos e o que achamos que somos. Tomar de volta a parcela de humanidade que nos foi roubada também é lutar contra o tal do sistema.

Acima de tudo, por causa de tudo e apesar de tudo: somos humanos.

“Black Boys Don’t Cry.” by: IGGYLDN
“Eu sei o quanto dói, mas viva pra ver se passa.” (Amiri)

É o mano Deivison que nos diz ainda que “urge chamar a atenção para o caráter colonial das masculinidades hegemônicas, tanto para compreender as outras masculinidades invisíveis em sua generalização abstrata, quanto as próprias masculinidades hegemônicas em suas intersecções de poder sobre as mulheres e outros homens.”

A masculinidade dominante, amarrada com os tantos dilemas de raça, classe, sexualidade, território e etc, é essa em que os homens são dominadores e as mulheres são colocadas como dominadas. Em que o pai acredita não ter o dever de assumir o filho ou cuidar da casa. Essa que não só permite mas também incentiva os homens a violentar e até a matar as mulheres. Que, para se manter dominante, precisa marginalizar a diversidade de gênero e de sexualidade. É a mesma que vigia e controla os corpos negros.

A violência policial; o encarceramento em massa; o assassinato de crianças e adolescentes; o alto índice de mulheres negras assassinadas durante o parto e tantas outras brutalidades (as vezes sutis) do genocídio negro vão se articulando com a destruição do nosso poder sobre nós. Vai se criando essa casca que nos afasta de nós mesmos. Quando se leva socos e pontapés todos os dias parece que a única opção é sair na rua com o rosto sangrando.

“Lave o rosto nas águas sagradas da pia.” (Racionais MCs)

Pra quem não leu o negro drama, pra quem não assistiu o negro drama, pra quem vive o negro drama é urgente lavar o rosto nas águas sagradas da pia. Perceber o brilho da lua quando bate na nossa pele. Entender de onde vem o brilho, entender de onde vem nossa pele. É urgente decidir o que fazer com isso. Cada um vê cada coisa de onde está. Foi também isso que me disse Moonlight nessa primeira vez que assisti. Não é só sobre uma tal de representatividade nos cinemas. É sobre se manter vivo e lutar pra manter vivos uns aos outros. Vidas negras importam. Que o tamo junto seja tamo junto memo.

Sente o negro drama.
Vai.
Tenta ser feliz.


São tudo impressões. O texto não dá conta de quase nada do filme, só de um pouco do que senti e pensei depois dele e como relaciono isso com o que já carrego. Sepá de outro ângulo a ideia seja outra, mas ta aí.

Segue alguns links sobre o filme ou sobre o tema ou etc:

  1. Texto do Fábio Kabral sobre o filme: https://trendr.com.br/de-moonlight-e-da-solid%C3%A3o-do-homem-escuro-d82a442685cf#.qfyexwtxy
  2. Texto do Deivison Nkosi sobre masculinidades negras: http://kilombagem.org/wordpress/wp-content/uploads/2015/07/O-P%C3%8ANIS-SEM-O-FALO-DEIVISON-NKOSI.pdf
  3. Texto da Cleissa Regina, sobre Moonlight, no Alma Preta: http://almapreta.com/editorias/o-quilombo/moonlight-e-o-homem-negro-humanizado
  4. Texto da Suzane Jardim sobre os estereótipos racistas: https://medium.com/@suzanejardim/alguns-estere%C3%B3tipos-racistas-internacionais-c7c7bfe3dbf6#.j66ld7i6h
  5. Entrevista com dois atores de Moonlight. Tá em inglês, só ativar o tradutor do google que fica bom pra ler: http://www.teenvogue.com/story/moonlights-ashton-sanders-and-jharrel-jerome-on-chiron-and-kevin
  6. Vídeo da Roberta Estrela D’alva recitando“Heróis Tombados”: https://www.youtube.com/watch?v=djXvyVQrKqE