Precisamos de um tempo

Está no dicionário: “espaço entre o começo e o fim de um acontecimento; duração”. Prefiro, na verdade, uma segunda definição: “meio contínuo e indefinido no qual os acontecimentos parecem suceder-se em momentos irreversíveis”. Tempo. Todo mundo precisa de um, nem que seja em seu íntimo. Eu precisei.

De vez em quando precisamos nos ouvir e, por vezes, não percebemos isso. Dei um tempo para os meus pensamentos, o meu pedaço mais insano e, ao mesmo tempo, mais real. Dei um tempo para os meus sentimentos. Dei um tempo a mais para mim mesmo e menos para os outros. Às vezes a gente é atropelado pelo vazio das coisas e não se dá conta. Às vezes a gente também se atropela. Eu fui atropelado. E foi só assim que precisei parar. Parar para só depois seguir em frente. Acontece com todo mundo.

Tenho pra mim que nos últimos meses aprendi muita coisa. Mas acho que uma liçãozinha, daquelas bem básicas mesmo, me marcou: a gente não precisa de tudo. É bem simples. Na vida, em geral, tem coisa que a gente não precisa. A gente não precisa aguentar certas pessoas. Tem coisa que a gente não é obrigado a lidar. Tem momento que, todos nós sabemos, simplesmente não precisa acontecer. Não tem necessidade. É fadiga. Mas é aquilo: a gente abre mão. Vamos levando, “deixando acontecer naturalmente” ou, simplesmente, ligamos o modo avião da vida e continuamos. E quando percebemos, tcharam, esquecemos de nós mesmos. De nossas vontades, desejos e escolhas. Talvez, tenho pra mim, seja justamente por isso que a vida fica menos amarga quando nos poupamos de certas coisas.

Outro dia esbarrei em um texto que estava perdido em meu feed do facebook sobre a vida que temos (ou que queremos) dentro das redes sociais. Basicamente o autor falava de como estamos sempre buscando nos espelhar na vida do outro e de como estamos, cada vez mais, esquecendo-se de nós mesmos. E não é que faz sentido? Quem aí não queria viver uma vida de viagens, lugares paradisíacos, boas fotos e boas comidas? Eu mesmo nunca vou me conformar de não ter nascido com a conta recheada de dígitos, por exemplo. Mas, pera aí: essa coisa toda de olharmos sempre o outro nos faz querer trocar de lugar e menosprezar as pequenas conquistas de nosso cotidiano. Parece até loucura, mas, sim, também tem muita coisa boa acontecendo por aqui. Tem vida e tem gente. A verdade é que encarar a nossa própria realidade é muito mais complicado do que parece. Afinal, é difícil não se lembrar das contas pra pagar, do chefe chato que nos cobra, do dia a dia puxado e cansativo, dos amigos que não são tão amigos assim e, pior, das perdas, das bads que batem no meio da semana, dos dias ruins. É por esse tipo de coisa, convenhamos, que estamos nos perdendo. Que estamos perdendo tempo. A existência (sim, a nossa) vai entrando num túnel que nem aquela luz lá no fundo tem mais como ver. A minha entrou.


Vez ou outra sempre ouvia de um colega que eu tinha um jeito peculiar de acreditar nas coisas. Talvez a positividade e o pensar que vai dar certo tenham se sobressaído em algumas situações. Mas, no geral, eu nunca me vi assim. E foi exatamente por conta disso que precisei parar. Eu queria mudar alguns pensamentos. Não queria perder a sensibilidade.

Precisei me dar um tempo porque eu não queria perder esse olhar esperançoso, esse olhar que tenta enxergar o mundo e as coisas todas que aqui estão sob uma ótica menos negativa. Definitivamente eu não queria me desligar das sensações e sentimentos que me rodeiam. Não é fácil, confesso. Nem acho que ainda consegui. Mas creio que, no fim, nunca conseguirei entender quem só constrói muros à sua volta e que acaba esquecendo-se de deixar um espaço para alguma surpresa bonita entrar. Vejam só, depois de uma pausa, consigo até pensar em um saldo pra isso tudo: eu só ganhei pensando um pouco mais em mim e em meus sonhos.

Se fossem outros tempos, é bem verdade, eu provavelmente não veria tudo assim. Por enquanto, devo informar que não perdi pro mundo: eu ainda sinto. Ainda que seja num meio contínuo e indefinido.

Sinto e não é pouco. É muito.

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