primeira parte de uma história ainda sem nome

Quando o avião pousou na cidade que nunca dorme às cinco da manhã daquela segunda-feira, João sabia que sua vida iria mudar para sempre. Ali, diferente da pacata cidade em que morava até horas atrás, o jovem tinha a certeza que seria apenas mais um sonho em meio a tantos outros.

“É agora ou nunca”, pensou antes de, finalmente, colocar os pés na gélida São Paulo, cidade que sonhava todos os dias, enquanto assista as aulas da faculdade de Administração. Ele sabia que ali, longe de casa, poderia ser quem ele era e não ter medo de expressar todos os seus sentimentos ao mundo, seja lá para quem quer que fosse.

João vinha de um noivado fracassado, dois anos e nenhum filho. Por muito tempo ele vivera sua juventude sendo alguém que não era. Talvez por isso, gostasse de ouvir músicas. Era ali, junto de seus discos e vozes tão bem compassadas, que ele conseguia se desconectar e esquecer-se da pressão do dia a dia e do trabalho forçado na empresa de seu pai. Ás vezes, de porre, pegava o violão e cantarolava algumas músicas, principalmente os velhos boleros em espanhol que, desde criança, aprendera a cantar.

A ideia de ir morar na grande metrópole já estava em seus pensamentos há muito tempo. No entanto, aquilo parecia impossível: João nunca fora daqueles que insistiam em seus sonhos. Primeiro conheceu Maria, depois trocou os números, conversas, beijos e, quando viu, já estava vivendo algo que não imaginava. Não tinha sido nada planejado, mas, no fundo, ele se acostumou com aquilo. Era mais fácil manter as aparências e não ter que lidar consigo mesmo. Tudo mudou quando seu noivado acabou, depois de ter dito à Maria que não era ele quem iria fazê-la feliz.

“Chegou a hora de partir. Esse lugar não é para mim. Vou tentar a vida em outro lugar. Vou ser feliz, fazer o que gosto e, quem sabe, encontrar alguém legal para partilhar a vida”, gritou aos quatro cantos da pequena cidade em que morava. Os vizinhos mais próximos acharam estranho e, como diziam as fofocas, João tinha brigado com a família. Seus pais ficaram preocupados. A mãe, coitada, era tão apegada ao filho que chorou dias a fio antes mesmo dele partir. Mas partidas nunca são fáceis. Nem para quem vai, muito menos para quem fica.

O primeiro passo foi fácil: comprou as passagens, conversou com algumas corretoras e conseguiu, depois de muito esforço, um apartamento bem pequeno para ficar durante os primeiros meses. Para muitos, o dinheiro seria o problema, mas João sempre fora daqueles rapazes que preferia economizar o salário suado do fim do mês. Em suas contas, daria para sobreviver, pelo menos, por uns três meses na metrópole até encontrar um trabalho que pagasse o seu aluguel. Apesar de a família ser uma das mais bem sucedidas na região, o jovem não queria ser motivo de despesa para os pais. No fundo, sabia ele, que aquilo era somente orgulho. E medo. Medo de que quando a família realmente descobrisse quem ele era por dentro, parasse de ajudá-lo nessa nova fase.

Dizem por aí que é fácil reconhecer uma pessoa de fora na cidade grande. E, de fato, é. Assim que entrou no táxi, João, que estava com a barba por fazer e admirado com o frio que fazia naquela manhã, ficou fascinado com os prédios construídos perto do aeroporto. “Mas como isso é permitido?”, se perguntou entre pensamentos, logo após informar o endereço de seu novo apartamento ao motorista.

- Vou ficar na Rua Manoel Flores, número 420. Fica próximo à Vila Buarque -, falou ao motorista que, por sua vez, acenou com a cabeça, sem dar muita bola ao passageiro.

A mão não saia de perto de sua medalha da sorte, feita de cobre, algo que para ele era, sem dúvidas, o mais importante dentro de seus pertences. O objeto foi dado por uma tia no aniversário de dez anos e, desde então, não saíra de seu pescoço. Aos vinte e poucos anos de idade, o jovem se sentia estranho junto ao mundo em que pertencia e, por isso, esperava que em São Paulo as coisas mudassem.

Mal sabia João que, apesar de sempre falarem que não existe amor por ali, nos próximos meses, sua vida mudaria completamente. Afinal, num deserto de almas desencantadas, a felicidade só pode ser alcançada quando duas delas se esbarram. E a dele esbarrou.


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