William Bonner e Fátima Bernardes e o mito do “felizes para sempre”

Em meio a tantas notícias polêmicas envolvendo os escândalos políticos brasileiros e o processo golpista de impeachment da presidente eleita Dilma Rousseff, a separação de um dos casais de jornalistas mais famosos do Brasil chocou e mobilizou centenas de pessoas na internet.

Em 29 de agosto de 2016, Fátima Bernardes e William Bonner, casados há mais de 20 anos, anunciaram, por meio do Twitter, que eles não estavam mais juntos. Bastaram poucos mais de 140 caracteres para que a ideia do amor duradouro ou do moderno “felizes para sempre” fosse, para muita gente, por água abaixo. Mas qual a razão para isso?

De certo, apesar das mudanças socioculturais ocorridas no núcleo familiar tradicional, ainda há uma característica muito forte em boa parte da população: a busca pelo amor que dure por toda a vida. E ver esse amor crescer diante de nossos olhos quase que diariamente — à la Jornal Nacional — nos coloca em uma delicada situação: a formação de um modelo a ser seguido.

Nutrida pelos aspectos culturais há tanto tempo postos em nossa sociedade e instigados ainda mais pela grande mídia, a ideia do casamento perfeito e duradouro tem permeado a cabeça de muita gente faz tempo. Se por um lado, vivemos em uma busca louca por alguém que nos complete — e me desculpem a redundância — completamente, ainda existe uma grande pressão para que os relacionamentos já existentes continuem “firmes e fortes”, apesar de qualquer coisa que possa ser um motivo para o fatídico término.

Os mitos de felicidade presentes em nosso dia a dia nos fazem pensar, por exemplo, que o término de um casamento de longa data é também o término do que chamamos de “amor verdadeiro”. Vejamos: enquanto humanos, creio eu, temos o costume de preservar crenças que algumas conquistas como emprego, filhos e, até mesmo, o próprio matrimônio nos farão eternamente felizes, e que algumas decisões (um divórcio ou um rompimento) irão nos fazer ficar em um estado permanente de infelicidade.

Particularmente, vi vários amigos compartilhando frases e textos sobre o término do casamento entre Bonner e Fátima e, mesmo com ironia ou tom cômico, as mensagens pontuam uma triste realidade: muitos de nós carregam a infeliz certeza de que a felicidade precisa, de alguma forma, estar atrelada sempre a um companheiro (a). Vivemos, portanto, num eterno redemoinho de buscas e expectativas acerca da plena felicidade e do outro.

É triste terminar um casamento de décadas que envolve filhos, laços emocionais e toda uma tradição? Sim. Não havia como não ser. Entretanto, vejo que as relações, distante de qualquer pressão social ou tabu, possuem mais relação com o quanto de verdade que você está disposto a dar para o outro e, claro, para si mesmo.

Por esses motivos, acredito que a ideia da felicidade plena ainda precisa ser desconstruída em nossa sociedade. Se o “feliz para sempre” ainda persiste, a culpa, infelizmente, também é nossa. Será que estaria na hora de quebrarmos esse paradigma?

Ademais, vida longa para William Bonner e Fátima Bernardes.