O Bullshit do Propósito

O que a minha geração quebradora de paradigmas parece não entender.

Eu tive sorte.

Meu país não estava em guerra quando nasci, meus pais estavam com uma condição financeira que beirava a ostentação — isso quando comparo nossa situação a da média da população brasileira — e o lugar em que nasci era relativamente agradável. Conforme fui crescendo eu estudei em boas escolas, viajava todos os anos e ganhava muitos presentes no natal. Nunca tive um problema sério. Nunca sofri nenhum tipo de trauma, abuso ou humilhação.

Então quando chegou a hora de crescer e escolher meu futuro eu não me preocupava com “ganhar dinheiro” — até porque eu sempre o tive sem fazer esforço nenhum durante toda a vida — também não me preocupei em ter estabilidade, segurança ou conforto, porque tudo isto já eram coisas que me foram dadas desde criança.

Ao invés disso eu me preocupei com aquilo que eu gostava. Com aquilo que era o meu “sonho”, meu “propósito de vida”. Queria me desenvolver no meu trabalho. Queria acordar todo dia de manhã querendo ir trabalhar e não lamentando o fato de estar muito cedo ou muito frio e, ainda assim, eu ter que levantar.

Então, quando falei com o meu pai que eu ia fundar uma empresa e que achava a faculdade coisa do passado, esperava que ele entendesse que eu estava correndo atras do meu sonho e demonstrando uma coragem que a maioria das pessoas não possuem. Esperava que ele me parabenizasse por correr atras do que quero e talvez até me ajudasse com capital inicial.

Imagine a minha surpresa quando ele olhou para mim com aquela cara de incredulidade e aversão, me dizendo que eu era “obrigado a terminar a faculdade”. Claro que eu nunca disse que iria sair. Mas confesso que posso ter passado a mensagem errada.

Na tentativa de entender melhor a posição dele, começamos a conversar. Quando terminamos eu tinha uma visão bem mais clara da coisa, embora ainda discordássemos em alguns pontos. De qualquer forma , pra mim, uma coisa tinha ficado clara.

Meus pais não tiveram sorte.

Meus pais não tiveram conforto, segurança e dinheiro quando eram crianças. Não estudaram nas melhores escolas e não ganhavam presentes. Não viajavam e, com certeza, tiveram muitos problemas.

Então, quando eles foram atrás de um emprego, eles não queriam saber de sonhos, propósitos ou impacto na sociedade. Eles só queriam garantir que entrasse um dinheiro no final do mês para poderem comprar comida com uma parte e colocar o que sobrar debaixo do colchão para, quem sabe um dia, comprar uma casa. Eles não entendem porque eu não iria querer isso também.


Todo artigo, entrevista ou reportagem sobre a minha geração que eu tenho lido recentemente parece falar sobre propósito, sonho e a coragem de seguir seu coração que as pessoas da minha idade parecem demonstrar ao recusarem empregos estáveis para correrem atrás de de caminhos mais incertos.

Mas esse discurso tem um público alvo muito específico: pessoas que tem todas as suas necessidades básicas — segurança, conforto, alimentação… — bem atendidas.

Poder falar que você tem um propósito; poder correr atrás do que você quer; poder se preocupar com a sua própria felicidade e não com sua sobrevivência são coisas tão comuns ao meu dia-a-dia, mas que ainda são algo impensável a maioria da população mundial.

Ainda assim, eu me preocupo desesperadamente em ter um emprego no qual eu amo; no qual me faça feliz; o qual reflita o meu propósito de vida. Eu me preocupo muito com estar feliz e muito pouco com estar satisfeito. Muito com viver e pouco com sobreviver. De fato, eu sou privilegiado.

Pensando nisso, não posso deixar de me perguntar: será que eu to me importando com o que realmente importa? Será que eu não deveria estar feliz pelo simples fato de ter um trabalho, independente de eu gostar dele ou não? Será que eu não estou sendo muito prepotente ao querer, alem de sobreviver e me encaixar na sociedade, garantir que não haja um dia sequer onde eu não esteja afim de ir trabalhar?

E pensando aqui agora… Supondo que eu consiga sim atingir meu propósito de vida. Que eu seja plenamente feliz e realizado. Seria eu a regra ou a exceção? O que acontece com o resto das pessoas que acordam 4 da manhã pra pegar três conduções e terminar o dia 11 da noite em casa? O que acontece com a galera que esta mais ocupada tentando sobreviver do que viver?

Esse tempo todo, acho que eu estive dando o foco errado. Se eu estiver satisfeito (com minhas necessidades básicas atendidas) não necessariamente eu estou feliz. Mas se eu não estiver satisfeito, eu não tenho como estar feliz. Então tenho que cuidar disso primeiro.

Quero ser pragmático, no sentido de pensar como o meu pai e valorizar a estabilidade, o dinheiro e os resultados concretos. Mas também quero ser idealista, no sentido de todos os dias dar um passo a mais em direção ao meu sonho e me certificar de que minhas ações estejam condizentes com quem eu sou e com meu propósito.

Terminar a faculdade antes de montar uma empresa. Prezar pela estabilidade antes de querer mudar o mundo. Garantir que as pessoas tenham o básico antes de querer ensina-las a correr atras dos seus sonhos. Construir uma casa na rocha e não na areia. Isso é o que faz a diferença. Uma mera sobrevivência não serve como um propósito. Um mero propósito não serve como sobrevivência.


Se você chegou até aqui, muito obrigado! Se esse texto fez sentido pra você, eu gostaria muito de saber. Pode apertar o coraçãozinho aqui em baixo só pra eu ter uma noção? Caso tenha um feedback mais direto, adoraria ler a respeito nos comentários :)

Muito obrigado e nós se vê por aí!

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