Pra quando eu não conseguir falar

Igor Klayn
Jul 21, 2017 · 2 min read

Eu tenho algo a dizer.

Ainda não sei bem o que é. Estive pensando bastante nisso nos últimos dias e, ainda assim, não descobri o que é. Quando deixo a mente a solta, na tentativa de fazer as palavras saírem livremente, muita coisa sai:

“Não era pra ser assim

Eu sei que errei

Eu tenho medo

Eu quero concertar

Eu escuto você

Eu vejo você

Eu sinto muito”

Mas quando abro a boca para deixar com que essas palavras saim, me deparo com silêncio. Talvez porque eu não me permita colocar em palavras o que se passa na minha mente, pois isso seria concretizar algo que ainda não fez sentido; que ainda não está bom para ser apresentado aos outros; que ainda precisa ser melhorado para que seja compreendido e, principalmente, não seja julgado. E assim sai só o silêncio. Mais nada.

Mais eu ainda quero dizer algo. E ainda não sei o que é. Tentei descobrir pensando, mas não consegui. Então a outra alternativa é sentir. Quem sabe assim eu chego a alguma lógica. Sentir para fazer sentido.

E então sinto.

Sinto raiva. Sinto vergonha. Sinto decepção. Sinto desânimo. Sinto medo. Sinto muito medo. E isso me alivia, pois começo a entender o que quero dizer. Pois sentir medo, ainda é melhor do que não sentir nada.

E então, dou outra tentativa. Abro a boca mais uma vez e percebo que consegui emitir um som. Mas ainda não cheguei lá. Ainda não encontrei o som que posso emitir e que vai representar aquilo que quero dizer. Começo a me perguntar se tal som de fato existe.

E então volto a pensar. Mas não apenas penso, como também sinto. Junto as palavras que penso, com as coisas que sinto, e então vejo, bem diante de mim, surgir algo novo. Do sentimento e da reflexão, surge o sentido. E ele é diferente do que eu achei que seria. Ele não é algo belo, necessariamente aceito pelos padrões dos outros, ou inteiramente justo. Ele simplesmente é, e eu o compreendo.

E então percebo que, por mais que esteja compreendendo algo que não acho bonito, aceitável ou justo, eu compreendo. E, se compreendo, faz sentido. E se faz sentido, faz sentir. E se faz sentir, faz refletir.

E então, depois de uma respiração profunda — dada na tentativa de assimilar tudo isso — abro a boca. Mais uma vez, não saíram palavras, mas sinto um gosto salgado chegar de surpresa em meu lábio superior e, então, percebo que algo saiu. Algo que eu precisava muito dizer, mas não necessariamente com palavras. Na verdade, era algo que eu jamais conseguiria dizer com palavras que saíssem da mina boca. Mas eu disse com as lágrimas que passaram por ela.

E então, encontro paz, pois não há mais nada a ser dito.

)

Igor Klayn

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Deve haver um jeito certo de se viver. Pretendo descobrir qual é

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