Photo by Levi Saunders on Unsplash

Sobre o orgulho hétero

E todo e qualquer derivado

Quando eu nasci, me falaram que eu era um homem e que minha irmã era uma mulher. Sempre foi perceptível pra mim que minha irmã era diferente de mim (não só anatomicamente, como também em outras dimensões), então fazia sentido nós sermos chamados por nomes diferentes. Até aí, tudo bem.

Mais tarde, ouvi dizer por aí que eu era branco e que as pessoas que tinham uma pele da cor diferente da minha eram negros. Também não estranhei. Até porque as cores de pele eram de fato diferente, então não fazia sentido terem o mesmo nome.

Cresci um pouco mais e alguém me contou a definição de gay. Junto com ela veio também a definição de hétero. Ninguém precisou me dizer qual dos dois eu era.

E foi assim que eu me tornei um homem branco heterossexual. Isso foi tudo o que eu fiz pra ganhar esses títulos: nascer e aprender seus significados. Não me parece grande coisa. De fato, acho que não deveria ser. Na real, acho que não deveria ter orgulho de ser essas três coisas mais do que a grama deveria ter orgulho de ser verde. Da mesma forma, não acho que eu deveria ter vergonha de ser essas três coisas, mais do que a grama tem vergonha de ser verde. Sou o que sou. É isso.

Mas será que é só isso?

É claro que não… Não pode ser só isso.

Todas as questões relacionadas ao “ser” nunca vão poder ser “só isso”. Sempre vai ser complicado. Isso porque o simples ato de ser é tão incompreensível, incomensurável e abstrato que a curiosidade inerente a natureza humana nunca vai aceitar simplesmente ficar de boa com isso.

A verdade é que existir é um milagre. É uma parada tão absurda que você não consegue simplesmente deixar pra lá. Porque você é você e não qualquer outra pessoa? Porque você existe? Porque de milhares de espermatozoides o seu foi o que chegou lá? O que aconteceria com você se não tivesse chegado? Se fosse outro espermatozoide?

Mano… existir é a maior doideira.

E quando você pensa nisso, você fica louco. Porque tem que ter uma explicação. Tem que ter um porque de eu estar aqui. A existência tem que fazer sentido. E é daí que surge toda e qualquer corrente de pensamento: a filosofia, a ciência, a religião… É tudo pra tentar entender a existência.

Na real, acho que a gente passa mais tempo tentando entender, catalogar, gerenciar a existência (não só a nossa como a dos outros) do que simplesmente desfrutando dela. Não conseguimos simplesmente aceitar o fato de que estamos aqui e tirar alguma coisa proveitosa disso.

E é claro que isso tem consequências.

Ao analisarmos a existência, cada um chega a suas próprias conclusões. Tem gente que olha e pensa que existem níveis diferentes de existências: que algumas são melhores do que outras. Vemos isso quando seres humanos se sentem melhor do que outros pela cor da pele ou qualquer atributo relacionado ao “ser”. Mas também vemos isso quando esmagamos uma barata sem dó, mas nos indignamos perante a morte de um de nós.

Tem gente que acha que toda existência é sagrada e que todo ser deve ter direito a vida. Tem gente que acha que as existências devem ser catalogadas e rigorosamente definidas. Tem gente que acha que as existências precisam ser limitadas para que elas não se ofendam umas as outras.

E quando uma pessoa que tem uma dessas ideias entra em contato com outra que tem uma ideia diferente, surge o conflito.

E das ideias surgem sub ideias. Até que chegamos ao ponto em que o fato de eu ser um homem branco heterossexual importa, e muito. Porque alguém tem a crença de que essa existência específica, de alguma forma, é negativa. Seja porque ela oprime outras existências.

Não me entenda mal. Não estou dizendo que sou vítima de racismo, sexismo, ou qualquer “-ismo” que queira colocar. Não sou vítima de nada. E tenho certeza que existem pessoas que são. Mas não posso falar por elas. Falo apenas por mim e com base na minha experiência.

O meu ponto é que existem correntes de pensamento que, de fato, acham que essas denominações importam. Acham que essas tentativa pífias de mensurar e definir algo tão abstrato quanto o meu ser realmente importam. E com isso, eu jamais vou concordar.

Eu não sou um homem branco heterossexual. Eu sou muito mais do que isso. Eu sou muito. E dentro desse muito tem o meu sexo, a minha cor e minha orientação sexual, mas tem muito, muito, muito mais. Coisas mais importantes. Mais relevantes. Coisas que descrevem a minha existência de forma muito mais precisa, mas que ainda assim não chegam nem perto de defini-la por completo.

Sou um questionador. Sou um escritor. Sou um palhaço. Sou uma criança. Sou um velho. Sou um leitor. Sou um ouvinte. Sou um filho. Sou um irmão. Sou um namorado. Sou um aluno. E sou muita coisa ruim também.

Porque, depois de tantos filósofos, cientistas e líderes religiosos terem passado pela humanidade nós, ainda assim, continuamos obcecados por essas 3 coisas é algo que não consigo explicar. Não estou falando que não deveria ter gente racista. Estou falando que a cor da pele do cara não era nem pra ser um fator levado em consideração. Não era pra ser importante. É como julgar a grama por ser verde, ou achar que ela é especial por isso.

Claro que essa é minha forma de ver as coisas. E claro que ela pode contrastar com a sua. Mas se a sua visão faz mais sentido, eu gostaria muito de conhece-la. Será que ao invés de conflitar, a gente pode conversar? Ou você é bom demais pra tentar explicar o “óbvio” pra uma homem branco heterossexual?

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