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Você não sofre como eu

Nem eu sofro como você

Igor Klayn
Sep 3, 2018 · 6 min read

Venho pensado muito sobre o sofrimento ultimamente e queria compartilhar algumas conclusões. Quando eu digo sofrimento, estou me referindo a toda e qualquer emoção negativa. Qualquer mal-estar. Seja físico, mental ou emocional.

Acredito que, essa seja a questão primordial na verdade. Tudo o que queremos fazer é garantir que as pessoas não sofram. A tão vigente e legítima luta contra o preconceito é um bom reflexo disso. Nós queremos que as pessoas parem de fazer as outras sofrerem.

Meu medo, entretanto, é que estejamos abordando a questão do sofrimento de forma errada. Mas não quero falar da minha impressão. Achismos são irrelevantes aqui. Quero falar de certezas. De fatos. Tomando muito cuidado para não acreditar nem por um segundo que sou o dono da verdade, quero compartilhar três fatos. Podem não haver pesquisas que os comprovem, ou estudos científicos que os cataloguem, mas vou partir do pressuposto de que eles são fatos. A começar pelo primeiro.

1. Todo mundo sofre.

Embora eu acredite que uma vida sem sofrimento seja possível, também acredito que só Buda, Jesus ou esses caras que inspiraram multidões tenham alcançado esse feito. O resto de nós sofre. Uns mais, outros menos, mas todos possuem a sua dose de miséria.

A gente tende a acreditar que pessoas ricas, socialmente aceitas e poderosas não sofrem, mas é só ver o numero de celebridades que se matam para desmentir isso.

Infelizmente, o sofrimento não é a falta de dinheiro, ou falta de aceitação social. Longe disso. Tem pessoas com pouco dinheiro que sorriem e pessoas com muito que não dormem a noite. Tem gente que não é aceito pela sociedade, mas tem alguém que a ame e isso é suficiente. O que me leva ao segundo fato.

2. A natureza do sofrimento é individual.

O sofrimento em si, é um estado de não aceitação. É quando alguma coisa acontece e você não aceita aquilo. Não fica de boa com isso. Você sente que as coisas deveriam ser diferentes. Claro que, quando você tem total controle da situação e pode muda-la (5% dos casos de acordo com a pesquisa do Instituto da Minha Cabeça), isso não é um problema. Porque se você não aceita as coisas do jeito que são, pode simplesmente muda-las.

O problema é quando você não tem controle da situação. Você fica remoendo as coisas, reclamando, sentindo angústia, tristeza e, portanto, sofrendo.

Por isso que você vê pessoas em situações extremamente angustiantes ao seu ver, mas, ainda assim, elas estão sorrindo e felizes. Porque elas conseguem aceitar o que não podem mudar e ficarem em paz com isso. Enquanto pessoas que tinham tudo para estarem felizes, sofrem por motivos completamente banais, mais uma vez na sua visão. É porque elas não aprenderam a aceitar as coisas.

Aqui cabe uma ressalva: aceitação não é passividade!

Aceitação é quando você entende a situação, entende o que você pode mudar e o que não pode, muda aquilo que você pode mudar e deixa pra lá o que está além de seu alcance. Tem a ver com desapegar. Deixar ir. E não com ficar quieto e engolir em seco.

Isso é difícil, com certeza, mas na minha visão é uma habilidade e pode ser aprendida.

Uma criança que chora porque o pai negou alguma coisa, por exemplo, é alguém que não treina essa habilidade, por isso não é boa nela. É por essa razão que vemos pessoas que tiveram tudo na vida reclamando por motivos banais (mais uma vez, ao nosso ver). A pessoa simplesmente nunca teve a oportunidade de treinar o desapego e a aceitação. Portanto, ela sofre.

É como diria Buda

Não deseje e não sofra! O desejo é a alma do sofrer.

Por isso que a natureza do sofrimento é individual. Porque cada um quer alguma coisa diferente e vai saber lidar com o fato dessas coisas não acontecerem de forma diferente. Podemos pegar duas pessoas diferentes e colocá-las na mesma situação. Uma pode sofrer e a outra não. É assim que o sofrimento funciona: ele é individual.

3. O sofrimento não pode ser quantificado.

Essa é, talvez, a verdade (ao meu ver) mais perturbadora de todas. Por isso quero ter certeza de que estou me fazendo entender. Eu não estou dizendo aqui que todos sofrem de forma igual. Obviamente existem pessoas que experienciam uma dor mais forte do que outras. Perder um filho ou sofrer um abuso sexual não pode ser comparado a perder 10 reais na rua. Isso é óbvio, mas deve ser dito aqui.

Não é isso que quero dizer quando afirmo que não podemos quantificar a dor e o sofrimento. O que quero dizer é que nós nunca podemos afirmar que a minha dor é maior do que a do outro. Porque se o sofrimento é individual eu posso apenas sentir o meu. Posso ter uma ideia do que o outro sente, mas nada mais do que isso.

É muito fácil olhar para uma criança mimada e dizer que ela está sendo histérica quando chora porque o pai negou um presente muito caro. Mas a verdade é que essa criança também tem a sua dose de miséria e a cruz dela pode sim ser pesada.

Imagine você, 4 ou 5 anos de idade, sendo criado por um pai que nunca está presente, mas que acha que pode fazer esse fato ser menos importante te dando presentes materiais. Tudo o que você pede ele dá, porque ele quer compensar sua ausência. Você aprende a ver aquilo como sendo um sinal de amor e carinho, já que ninguém nunca te deu “amor” de outra forma. Até o dia em que ele te nega um presente.

Pra criança ele não está negando um bem material. Ele está negando amor. Agora imagina você pedindo amor pro seu pai ou sua mãe e não recebendo… Sentiu o drama?

O que estou propondo aqui não é um exercício de empatia. O que estou propondo é a aceitação de uma verdade muito simples.

Conclusão

O sofrimento é um estado de não aceitação. Como cada um tem o seu nível de tolerância e os seus próprios desejos particulares, o sofrimento de cada ser humano é único e intransferível.

Por isso, não julgue o amiguinho.

Antes de terminar, gostaria de dedicar mais algumas breves palavras às implicações que essa conclusão traz.

Eu não posso dizer que sofro mais do que alguém, tampouco posso monopolizar o sofrimento para mim dizendo que só eu estou me dando mal. Até porque, cara, na moral, isso não é um concurso! Sofrer não é legal. Não é divertido e não há mérito nenhum nisso.

Eu não posso também projetar o meu sofrimento nos outros. Porque ele é só meu. Eu posso dizer, por exemplo, que eu sofro de determinada forma, mas não posso dizer que todo mundo que se chama Igor, tem a pele da minha cor, ou tem o mesmo sexo que eu sofre da mesma forma. Obviamente que tem muita gente no mundo que pode passar pelas mesmas situações que eu passei, e podem sofrer como eu sofro. Mas eu não posso afirmar que todo um determinado grupo de pessoas que passe pela mesma situação que a minha vai sofrer, só porque eu sofri com esta situação. Mais uma vez, sofrimento é individual. (Salvo casos extremos de sofrimento, como violência física por exemplo)

Por fim, a minha conclusão favorita: nenhum sofrimento deve ser deslegitimado. Ou seja, se alguém diz que dói, eu devo aceitar que aquilo esta doendo na pessoa. Mesmo que eu ache que aquilo não é motivo para sofrer. Mesmo que eu já tenha passado pela mesma coisa e sobrevivido. Mesmo que a pessoa esteja mentindo, não há como saber, então, na dúvida, é melhor assumir que dói mesmo.

E a partir do momento que uma pessoa fala que sente dor, é minha obrigação enquanto pessoa que também sabe o que é sofrer parar com toda e qualquer ação que eu possa estar fazendo para corroborar este sofrimento.

Enquanto seres humanos todos queremos erradicar a dor. Estar consciente disso me torna responsável por garantir que eu seja um agente de paz e nunca de sofrimento.

Igor Klayn

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Deve haver um jeito certo de se viver. Pretendo descobrir qual é

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