Weezer, 1996

Semana passada, decidi assistir a um show qualquer do Weezer no YouTube. Achei esse aqui:

É um show de 1996, realizado no Bizarre Festival, em Köln, Alemanha. Não é uma apresentação lendária ou necessariamente especial. A imagem não é lá grandes coisas, o cenário de palco é simplório e, ouvindo agora no fone de ouvido, o áudio está só em um canal (da outra vez eu vi na TV). Mas é o Weezer no auge da sua criatividade artística.

O show aconteceu em agosto, um mês antes da banda lançar o segundo disco, Pinkerton. O primeiro single, “El Scorcho”, ainda não tinha saído, mas já aparece aqui, junto com “Pink Triangle”, “Why Bother?” e mais sete músicas do disco de estreia. 40 minutos do melhor que o Weezer tinha para oferecer na época. Na verdade, 40 minutos de tudo que Rivers Cuomo tinha para oferecer na época.

Filho de pai baterista e criado em uma comunidade hindu próxima a Woodstock, Cuomo era um garoto tímido, nerd e sem jeito com garotas quando formou o Weezer em 1992. Dois anos depois, era uma espécie de “rock star” da cena alternativa norte-americana, graças ao sucesso inesperado do incrível trabalho de estreia do grupo, conhecido hoje como Blue Album. E esse estouro repentino tirou a vida do jovem Rivers do eixo, levando-o para uma rotina de turnês, shows, viagens, vans, almoços mal-feitos e, eventualmente, frustração. Por isso, logo em 1995, ele decidiu deixar a estrada de lado e começou a cursar música em Harvard. Nesse mesmo período, Cuomo passou por uma cirurgia na perna esquerda, que era 44 milímetros menor que a direita. O processo de recuperação, que envolvia dolorosas sessões de fisioterapia, combinado com o período de novas experiências em Harvard, fez com que o músico se sentisse isolado, confuso e desanimado.

Essa solidão deu origem às músicas do Pinkerton. E são esses sentimentos incômodos que às vezes a gente parece ver no seu rosto durante o show. Ainda assim, Cuomo não parece necessariamente triste de estar no palco, e seus companheiros de banda estão certamente felizes. Era essa a química do Weezer em 1996, e foi daí que nasceram músicas tão boas.

Com suas letras francas e sua postura desavergonhadamente juvenil, Pinkerton foi um fracasso de vendas em relação ao disco azul. Cuomo abriu o poço para sua alma e, em troca, ganhou reações repreensivas de público e crítica, insatisfeitos com o tom “mais sério e sombrio” das músicas novas. É duro não ser o que os outros esperavam. Mas, por outro lado, é difícil saber lidar com canções como “Across the Sea”, que conta a história de quando Cuomo se apaixonou por uma fã japonesa de 18 anos que lhe mandou uma carta, ou “Pink Triangle”, sobre descobrir que a atual paixonite era lésbica. São letras extremamente confessionais, algumas resmungonas, que causam mesmo desconforto pela exposição desmedida.

Naquele 1996, os leitores da Rolling Stone americana elegeram Pinkerton o terceiro pior disco do ano. A revista deu modestas três estrelas. Oito anos mais tarde, ele estampava a seção “Rolling Stone Hall of Fame” com nota máxima.

Em 2001, quando já era cultuado pelos fãs da banda, Cuomo chegou a dizer que Pinkerton era um disco “nojento e doentio”, que lhe causava ansiedade e que nunca mais queria tocar ou ouvir aquelas músicas de novo. Hoje em dia, é amplamente reconhecido como um ponto alto na carreira do grupo, e tido por muitos como um dos álbuns mais influentes da década.

Enquanto tocava aquele show na Alemanha, Cuomo não sabia como seria a recepção do Pinkerton. Naquele exato dia, talvez ele nem estivesse se importando tanto com isso. E fez um bom show, para um bom público, em um dia bonito.

Céu azul, sol quente, uma banda tocando boas músicas. A vida tem mesmo seus momentos.

Publicado originalmente em O Elefante.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Igor Lage’s story.