Análise da Exposição e obra de Pedro Pascoinho
Quando pensei em começar a falar sobre a exposição ESCAPE / THE ASSUMPTION OF BLUE de Pedro Pascoinho julguei importante contextualizar que este evento converge com a 3ª Bienal de Arte contemporânea de Coimbra — A Terceira Margem que ocorre de 02 de Novembro a 29 de Dezembro por diversos espaços históricos e culturais na cidade. O tema por si já deixa explícito que possui como eixo conceitual o conto brasileiro A Terceira Margem do Rio de João Guimarães Rosa. Esse conto por sua vez é bastante enigmático pois explora o auto-conhecimento introspectivo humano, “essa autoreclusão a céu aberto, gesto radical de ocupação irreversível que define o território da terceira magem” como define a curadoria do evento. Orientada em cinco conceitos-chave (silêncio, longe, marginalidade, invenção e militância) a curadoria fez uma excelente escolha ao selecionar a exposição de Pascoinho para compor a programação da Bienal de Coimbra.
ESCAPE / THE ASSUMPTION OF BLUE inaugurou no dia 26 de Outubro e vai até o dia 29 de Dezembro de 2019. Divide-se em três espaços, dois deles localizados no Museu Nacional de Machado de Castro (MNMC) que se encontra aberto de Terça a Domingo das 10h00 às 18h00 e o terceiro localizado na Galeria Sete (G7) que por sua vez abre suas portas de Segunda a Sábado das 14h00 às 19h30. Ambos com acesso totalmente gratuito.


A exposição é mista no que diz respeito as obras que a compõem. Deparamo-nos com pinturas a óleo sobre papel, carvão sobre papel, madeira e objetos diversos como espelhos, livros, frascos, fios e quadros encobertos. Tais elementos estão dispostos de uma forma a não deixar monótonos os espaços. Os elementos explorados vão desde pinturas bidimensionais, esculturas, objetos arranjados de uma forma específica e até mesmo recursos sonoros, como na peculiar “Monitium” localizada intencionalmente na estrutura labiríntica e escura do Criptopórtico Romano de Aeminium junto a outros dois quadros a óleo que fazem referência às esculturas clássicas. Essa obra traz uma estrutura piramidal com uma luz ao centro e uma música épica como que um chamado para o desconhecido.

O caminho que a arte apresenta possui característica contemporânea levando em consideração dois aspectos; o primeiro é que o autor teve o cuidado de produzir paineis que fogem do abstracto convencional da pós-modernidade. Ele deixa suas representações caminharem para um sutil romantismo/realismo suficiente a ponto de ser fácil identificar os elementos presentes em suas composições. O artista declarou que algumas imagens dentre suas obras foram escolhidas a partir de fotografias. Fica evidente a tentativa de democratizar a interpretação dos ícones, cenários e figuras.



O segundo aspecto é o de que, em contrapartida às pinturas, as composições com objetos ficam em um campo abstracto. O artista organiza um frasco com pigmento azul em cima de um livro de capa também azul na obra “Matter” ou uma sequencia de três impressões sobre cartão alinhadas com espelhos em “The Assumption” que resgata um pouco a ideia da arte conceptual.


A minha interpretação pessoal é a de que Pedro Pacoinho conseguiu explorar diversas técnicas e elementos e ainda assim manter uma unicidade visual entre suas obras. A composição estética das pinturas agrada em forma, técnica e cor. Já as suas esculturas e arte ready made oscilam entre a boa exploração da verossimilhança e o conceito raso, insuficiente e mal planejado de alguns materias aleatóriamente dispostos pelo espaço.


O quadro a óleo intitulado “Unstable” me faz lembrar as telas do artista Caspar David Friedrich, o mais puro representante da pintura romântica alemã. Dentre as obras de Friedrich o quadro “Wanderer above the sea fog” é o que mais se relaciona. Pascoinho valoriza a sua imaginação como princípio da criação artística, aplica um dinamismo e uma sugestão de agitação complementando a obra com a valorização do azul, cor que rege a sua exposição, além de utilizar do contraste de claro-escuro para produzir efeitos de dramaticidade.


A exposição levanta a questão do isolamento em ambientes infinitos e instáveis. Estes ambientes podem ser interpretados como zonas imaginárias ou presentes no mundo físico, mas que em ambos os casos nos fazem refletir sobre quem somos e as nossas limitações de ser.
Gostei e apreciei a exposição por ser uma pessoa introspectiva e os ambientes/situações representados conseguirem me passar uma ideia de conforto e aconchego. Escolhi o quadro “Unstable” por ter o mar como cenário, pois sou uma pessoa que sempre viveu em cidades litorâneas e sempre fui fascinado em olhar para o mar em dias de chuva. A instabilidade e o caos retratados na obra me deixa anestesiado. Para mim é excitante a sensação de ser tão pequeno em meio ao gicantesco e onipontente tumulto das ondas.
A exposição vale a pena ser visitada pois cada obra consegue levar o expectador a um nível diferente de introspecção pessoal. Sem muita complexidade nos ícones cabe ao visitante absorver a arte de Pedro Pascoinho e tentar lidar com os mistérios que ficam e permanecem em nosso subconciente, sendo este o alvo principal do artista.
BIBLIOGRAFIA:
PROENÇA, Graça. História da arte.17 ed. São Paulo: Editora Ática, 2012.
