O poder da arquitetura no desenvolvimento humano, a partir de uma perspectiva do filme Mon Oncle.

Igor Linhares
Sep 2, 2018 · 3 min read
Hulot (Jacques Tati) e seu sobrinho, Gérard (Alain Bécourt) em cena de Mon Oncle.

Através da ótica satírica e cômica de Mon Oncle, Tati nos insere na França da metade do século XX sob dois cenários bem distintos, mas coexistentes na época: a casa modernista e o bairro tradicional. E embora à primeira vista pareçam não se misturar tamanha são suas distinções, Hulot (Jacques Tati) transita sem esforço entre os dois mundos, que abrigam a sua moradia e a moradia da sua família.

A casa modernista dos Arpel, um dos principais cenários do filme.

Ao contrário do bairro em que mora, antigo, repleto de sobrados, comércio e muito movimento, a vila modernista em que moram sua irmã, sobrinho e cunhado é sóbria, quieta e impessoal, com muros e portões que dividem e cercam as casas, vizinhos que não se conhecem a não ser pelo poder do acaso e ruas que parecem ter sido feitas para automóveis, não pedestres. Uma verdadeira bolha que separa a área do restante da cidade.

Sobrado em que mora o tio de Gérard, que fica em um subúrbio antigo da cidade de Paris.

O elo de ligação entre o “antigo e o novo” é Gérard, sobrinho de Herlot, que está sempre junto ao tio, que o lhe dá liberdade pra brincar e autonomia pra fazer (quase) tudo que bem entender — benefícios estes dos quais a criança não desfruta em casa, tanto pela arquitetura como pela educação quadrada dos seus pais.

A reflexão importante aqui é como a arquitetura influencia no modo de viver das pessoas. A casa dos Arpel, embora moderna, inovadora e esteticamente atraente — para alguns — não oferece conforto algum para o pequeno Gérard — ou mesmo para os seus pais -, com seus ambientes todos geometrica e milimetricamente calculados, pouco práticos, sem cor, vida ou possibilidade de flexibilização de usos, e tudo isso para construir uma falsa imagem de bom status social. A necessidade de expor a casa e seus aparatos tecnológicos é tanta que esta adquire quase que a qualidade de um museu, onde nada pode ser movido, sujado ou modificado. Lembra também a própria fábrica em que trabalha o Monsieur Arpel, como se fosse uma continuidade da rotina mecânica e monótona da indústria de plástico do qual é dono. Com tão pouca opção, Gérard acaba se entediando com facilidade sempre que está em casa e provocando algum tipo de mal funcionamento da residência, não pensada para nenhum tipo de lazer infantil.

Assim como uma vez disse o próprio Jacques: “linhas geométricas não produzem pessoas agradáveis”, Mon Oncle prova que a arquitetura tem um papel fundamental na maneira como vivem as pessoas, e seu poder de imposição nos espaços. É ela quem dita por onde as pessoas circulam, como vivem e que uso se dá àquele lugar. A casa modernista retratada no filme não oferece um lar para os seus habitantes. Muitas vezes se prova exatamente o oposto disso. E apesar de sua planta que conecta todos os ambientes e todas as bugigangas futuristas que possui, falha em alcançar o mais importante: a ligação entre os seus moradores — entre si e com o mundo que existe lá fora.

Cinetetura é uma série de textos sobre arquitetura e cinema fruto das aulas de uma disciplina optativa da faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPR, do qual o autor fez parte no segundo semestre de 2018.

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