Sobre São Paulo e lembranças perdidas

Precisei atravessar o oceano para entender a realidade do mundo com os meus próprios olhos; e acabei também, com essa experiência, por conhecer melhor o meu país, Brasil, e a minha cidade, São Paulo.

Lembro-me da primeira vez que coloquei os pés em São Paulo. Era madrugada, início de 2009, e o ônibus em que eu estava contornou o acesso a cidade até um ponto em que consegui avistar a marginal Tietê lotada com os seus carros e luzes por todos os lados. Essa cena, tão representante da grandeza e dinamicidade da cidade, ainda me faz levantar a cabeça todas as vezes que volto de Franca, no interior do estado.

Ao chegar à rodoviária, pegaria o metrô pela primeira vez na vida, subindo na estação Portuguesa-Tietê e rumando por toda a Linha Azul, sentido Jabaquara, Estação Paraíso. Jamais esquecerei destas coordenadas e muito disso, pela lembrança e associação que fiz com o nome desta estação. Explico: a sensação de vir morar em São Paulo e transformar o meu sonho de estudar na Escola Politécnica da USP em realidade eram, de fato, o meu Paraíso naquele momento. Eu nunca me senti tão invencível na vida e, talvez, nunca volte a me sentir. O que eu não sabia é que para chegar ao Paraíso era preciso passar pelo inferno: a estação da Sé as 7 da manhã. Fui logo apresentado assim, sem maiores rodeios, a um dos maiores fenômenos paulistanos: a superlotação. Lembro-me do pensamento de “uow, quanta gente” e do imediato “não vai caber, galera, não vai caber” — e não é que coube?

Na estação Paraíso fiz baldeação para a Linha Verde, rumo ao meu destino final, a Estação Brigadeiro. Por aquelas épocas, uns parentes da minha mãe moravam na região e eu passaria os meus primeiros dias por lá. Ao sair da estação, recordo-me de ficar absolutamente impressionado com os prédios da Avenida Paulista. Não existiam dessas coisas de onde eu vim.

Assim, fui apresentado a cidade que seria o meu lar pelos próximos anos, e talvez, pela vida inteira.

“Em meio a velhas estantes
Andando em escadas rolantes
O paulistano vai, vai
com o tempo
contra o tempo
com pressa de não viver
E as rápidas paixões
em meio a correrias, esbarrando-se em escadarias
Estação Consolação (…)”

2009–2013: os anos de USP

Sempre consegui ver em Nighthawks (1942) de Edward Hopper um pouco dessa solidão paulistana que tanto nos acompanha
“You can be lonely anywhere, but there is a particular flavour to the loneliness that comes from living in a city, surrounded by millions of people. One might think this state was antithetical to urban living, to the massed presence of other human beings, and yet mere physical proximity is not enough to dispel a sense of internal isolation. It’s possible — easy, even — to feel desolate and unfrequented in oneself while living cheek by jowl with others. Cities can be lonely places, and in admitting this we see that loneliness doesn’t necessarily require physical solitude, but rather an absence or paucity of connection, closeness, kinship: an inability, for one reason or another, to find as much intimacy as is desired. Unhappy, as the dictionary has it, as a result of being without the companionship of others. Hardly any wonder, then, that it can reach its apotheosis in a crowd.”
The Lonely City: Adventures in the Art of Being Alone, Olivia Laing

São Paulo é gigantesca, e como todas as cidades deste porte, opressora em suas infindáveis possibilidades. Lembro-me de como os 6 primeiros meses foram difíceis, de sentir essa solidão das multidões de Laing, de não saber me encontrar nem nas avenidas mais conhecidas da cidade e de me limitar pela intimidade ainda não consumada com as pessoas que hoje já se transformaram em amigos de longa data. Todos sentimentos comuns de pessoas que deixam suas casas no interior, com poucos anos e muita vontade, e ruma para uma dessas megalópoles pelo mundo.

Durante os primeiros anos de curso (2009–2010), devido a proximidade e o tempo em que passava por lá, a Cidade Universitária era a minha real cidade, a minha segunda casa. São Paulo era, para mim, apenas o lugar onde a USP se encontrava, um lugar limitado na minha imaginação pelas raras incursões de visita à Avenida Paulista ou as sessões de cinema pós-semanas de prova.

Isso mudou em 2011.

Naqueles tempos, eu vivia um período complicado, completamente perdido com as minhas escolhas de vida e carreira (como muito já abordado em meus textos anteriores). Nesse período, talvez para me refugiar de toda a frustração, reencontrei um dos meus gostos antigos: a minha coleção de discos de vinil. Foi uma época louca, de muitos gastos, mas que lembro com muito carinho. Ainda consigo sentir a sensação libertadora de sair de uma semana de provas da Poli e partir para a Galeria Nova Barão em busca de algum disco novo. Lembro das inúmeras tardes aprendendo sobre música e filosofando com o Rodrigão na Leprechaun Discos, de aprender mais sobre o rock dos anos 90 com Márcio e Gilberto na Locomotiva e de quase chorar ao encontrar o Chega de Saudade de João Gilberto com o Carlinhos na Disco Sete. Época também de dólar a R$ 1,60 (saudosos, saudosos tempos).

A saudosa Leprechaun Discos, do meu grande amigo Rodrigo. Bons tempos!
“Para,
Para,
Para,
Anda…Para.
E aí você pensa em aproveitar o corredor,
Pensa em conversar com o motorista ao lado,
Pensa em acelerar com a balinha no retrovisor,
Pensa na coragem do artista de rua.
Mas o tempo não passa. Ou passa?
e de parada em parada se anda um metro,
um metro de vida desperdiçada,
uma hora e meia de trânsito por hora de vida vivida…”

Mas conto esta história porque foi nesse período que conheci São Paulo de verdade. Naquela época, a linha amarela ainda começava a operar, por isso, para vir até o centro, eu pegava um ônibus no Butantã que cruzava a cidade pelas avenidas Rebouças e Consolação. Naqueles tempos, o smartphone ainda engatinhava, e eu claro, ainda não tinha um. Para passar o tempo, eu observava o mundo ao meu redor e imaginava como era a vida daquelas pessoas que cruzavam comigo em uma velocidade incessante.

Lembro-me, especialmente, de ver um casal de velhinhos pela janela, correndo atrás de um ônibus e brigando ao mesmo tempo, e imaginar por quantas vezes aquela cena se repetira em suas vidas e na vida de tantos.

Em 2013, ao começar o meu estágio no Banco J.P.Morgan, tornei-me mais paulistano, pois agora precisava enfrentar diariamente o trânsito, a baderna e o transporte público em uma das avenidas mais movimentadas da cidade, a Brigadeiro Faria Lima. Por culpa da minha amiga Victoria, aprendi a correr atrás de todos os ônibus verdes que cruzavam o meu caminho, hábito automático que ainda hoje faço, mesmo que não esteja com pressa alguma.

No início de 2014, eu veria São Paulo de cima, saindo do Aeroporto de Guarulhos rumo à melhor experiência da minha vida.

2014–201X: percepções e uma vida diferente na capital

“Num milissegundo, enquanto a aeronave buscava a segurança da cabeceira da pista, o enorme simbolismo desse instante foi registrado por retinas ávidas por esculpir memórias que certamente durariam por toda uma vida. Tal qual um encontro com um ex-amor que há muito deixou de fazer parte da vida cotidiana, aquela aterrisagem matinal mexeu com todos os meus sentidos.”
Made in Macaíba, Miguel Nicolelis

Após um ano de experiências e descobertas nos Estados Unidos e no Quênia (2014), eu voltaria a São Paulo. Lembro-me da sensação de ser plugado novamente nessa Matrix, de ser sugado de volta para a realidade e ver que a cidade não havia parado um segundo sequer desde a minha ausência.

Curiosa a sensação de estar de volta as origens, a qual aproveitei, se bem me recordo, para observar todos esses detalhes que nos escapam no cotidiano, me permitindo ter os olhos mais curiosos do que nunca. A sensação de pertencer a um local, de sentir-se parte do todo, de reconhecer os gestos, a maneira de se vestir, a maneira de interagir das pessoas, é algo que raramente pode ser encontrada nas terras mais distantes.

Estar de volta ao Brasil me concedia isso tudo, e era muito bom, mesmo que o meu país não pudesse me oferecer todas as comodidades da vida Bostoniana. É interessante que eu pense assim hoje — e talvez seja uma prova de maturidade — pois já fui dessas pessoas que afirmavam com a maior veemência: “Quero morar fora”, “Não dá pra viver no Brasil” ou “tal país é melhor”. Aquele típico papo que se tornou, infelizmente, tão comum nos tempos atuais, mas que sempre esteve enraizado de forma profunda, servindo ao nosso eterno complexo de vira-latas.

“Essa pessoa amou muito aquele outro. Sofreu muito aquele dia. Cometeu um erro irrecuperável em outro. E quem diria, se recuperou! E já se foi.
Mas essa aqui também não deixa por menos. Já roubou doce na frente da escola, deixava de ir na igreja pra jogar bola e nunca, jamais mentiu nessa vida. E já se foi também.
Aquela ali tem olhos vivos. Mal sei eu que dia triste tem sido o dela. E jamais saberei, porque ela meu amigo, ela também já se foi.
E nesse fluxo intenso tantos se vão.
Sabe-se lá se levam um pedaço de mim.
São tantas vidas em demasia por tão pouca vida.
Sem tempo pra interação. É muita ação. Muita ação. Mutação.”

Após um período respirando outros ares, interagindo com pessoas e culturas diversas e vivendo, de fato, a vida que os estrangeiros levam lá fora, não tenho mais fantasias a respeito da vida no exterior. Longe de absolver o Brasil dos problemas que possui, hoje apenas penso diferente. Enquanto andava pelas ruas de Nova Iorque e Nairóbi, via muito de São Paulo — seja pelo lado bom, seja pelo lado ruim. 
Respeito quem pensa o contrário. Respeito quem decidiu levar uma vida no exterior e se aproveitar das diversas vantagens que vem com essa escolha — mas eu decidi o contrário. Voltei.

Logo que cheguei, tracei uma meta de conhecer muito mais a cidade: revisitei o MASP e a Pinacoteca, conheci a Casa Modernista, subi no Banespão e no Terraço Itália, fui assistir jogos em estádios de futebol e acompanhei as semanas de cinema do MIS e do CCBB. Além disso, procurei por todos os pequenos cafés que pudesse encontrar e compartilhei-os com pessoas importantes para mim.

Não tinha idéia dos perrengues políticos e econômicos que estávamos para enfrentar, mas não me arrependo de nada. Quando faço um balanço do que significou o meu ano fora e o quanto o foi essencial para estreitar os laços com a minha cidade e o meu país, só tenho mais carinho e gratidão por 2014.

O que acho que ganhei estando fora do Brasil foi um profundo respeito pelas pessoas e culturas do mundo afora, e mais importante, pelas pessoas e pela cultura do meu próprio país. Pude ver que as fronteiras humanas são ainda mais imaginárias que as fronteiras geográficas.

Quando pensei no meu futuro e na minha carreira, notei existir um mundo de possibilidades pelas terras brasileiras, apenas esperando por pessoas dispostas a se aventurarem — e eu certamente apreciarei ser uma delas.

Mas o que mais define o meu relacionamento com o país desde que voltei é um senso de responsabilidade, um senso de que é preciso atuar quando se tem o privilégio de estudar, de viajar e de ver tanto. Por isso, as palestras, as mentorias, os textos, as conversas diversas, as indicações de livros, e tudo o mais que consegui para dividir as experiências e o conhecimento adquirido nas minhas andanças pelo mundo. Garry Ridge, CEO da WD-40, sempre deseja as pessoas que dividam momentos positivos e duradouros uns com os outros — e essa é uma máxima que tento seguir, sempre.

O potencial de São Paulo está nas pessoas, 
nos seus milhões 
e em suas infinitas conexões.

P.S: Eu não começarei a falar sobre os meus sonhos agora, mas me senti ainda mais inspirado a criar coisas no Brasil quando conheci Miguel Nicolelis e vi todo o seu trabalho desenvolvido em Natal. Para quem tiver interesse, procure por Made in Macaíba, um livro interessantíssimo, que narra toda a história do cientista na sua jornada pela a educação e pela igualdade em nosso país.

Uma lembrança perdida…

“Mar que se abre ao infinito,
cinza refletido em suas águas,
ventania, forte ventania praieira, vazia
Lembra-me um filme de Truffaut,
Mas a lembrança também é minha.
O mar que se assemelha a vida,
em sua infinitude,reflexão e tristeza
Sim, em sua tristeza.
Sempre enxerguei o mar com olhos tristes,
Marejados,
Tão infinito, tão cheio de vidas
Mas solitário em seu vai-e-vem, infinito
Lembra-me também esta cinza metrópole,
e seu mar de gente, nada sorridente
e quanto mais gente, mais sozinho se fica,
se sente.
Maré, mas é
demais, de mares.”

E aqui uma surpresa.

Em 2012, eu descobri a riqueza da biblioteca Florestan Fernandes da FFLCH-USP, e passava umas tardes por lá lendo, entre várias coisas, os poemas de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade. As vezes inspirado, rabiscava algumas idéias e as guardava em um arquivo de texto qualquer no computador.

Havia esquecido completamente disso.

Até que um dia desses, a minha amiga Flávia Sanches postou um poema de sua autoria no Facebook e a lembrança de escrever saiu das profundezas da minha memória. Mas ainda havia um problema: onde estaria esse arquivo?

Por sorte, em um dos meus backups, lá estava ele.

Foi uma experiência muito interessante ler algo que escrevi por aqueles tempos. Eu era outra pessoa e aquelas palavras captavam a essência daquele período. Interessantemente, haviam muitas palavras dedicadas a cidade nas minhas escritas, motivo pelo qual, eu contei toda essa história.

Os fragmentos espalhados pelo texto são de minha autoria, um eu do passado, tudo dedicado à São Paulo.