Formatação

Devo confessar que não sou daqueles que se olham no espelho e gostam de tudo que veem. Também devo confessar que não sou daqueles que se olham no espelho e odeiam tudo que veem. Mas também devo confessar que estar nessa constante oscilação entre percorrer as minhas belezas e castigar os meus defeitos não é nada legal e, pelo contrário, é repetitivo a um âmbito nauseante.

Para melhorar a situação, o mundo em que vivemos não coopera. São fotos de corpos, de rostos, de roupas, a nova dieta milagrosa, a nova maquiagem que esconde as marcas indesejadas: tudo gira em torno da beleza superficial. Daí, fica difícil não acreditar que isso é o essencial para se sentir bonito. Aliás, talvez essa não seja a palavra correta. Há muito tempo jogamos para escanteio o sentir. A palavra que mais demonstra a mentalidade atual é o aparentar.

Existe uma intensa preocupação em se adequar aos modelos de beleza, mesmo que isso signifique esboçar um enorme sorriso na tentativa de atenuar a dor que sente pelo vestido apertado, pelo estômago dolorido que não recebe comida há muito, ou pelo simples fato de não se sentir incluso nesse sistema classificatório de feiura (em busca da beleza). Os avanços que tivemos no que tange à internet e à rapidez das informações são louváveis, mas não são necessariamente perfeitos. As redes sociais tornaram-se foco de uma palatabilidade passageira, isto é, as pessoas querem aquilo que for mais dinâmico. Não importam o trabalho ou o cuidado que aquilo recebeu, desde que forneça um prazer momentâneo que supra a demanda por “informação”. E, muitas vezes, esse prazer acaba gerando um incômodo com um teor de abstinência — quer-se mais e mais auferir algo que nunca se auferiu.

Eu sei, eu sei. Esse papo já é clichê faz tempo; todo mundo fala disso. Mas por que todo mundo continua a perpetuar esse comportamento? Nós capitalizamos TUDO. Sentir-se bem consigo mesmo é uma questão de comprar a sua felicidade: seja essa felicidade proveniente de algum produto, seja essa felicidade proveniente de uma mudança estética. No entanto, analisemos a frase anterior: Ao capitalizarmos a felicidade e transformá-la numa obtenção de produtos, fazemos com que tudo seja uma questão de conquista árdua, uma luta. Porém, quando tentamos mudar algo em nós, porque de alguma maneira não nos sentimos completos, estamos dizendo que nós somos os produtos. E pior, mesmo sendo os produtos, importamo-nos mais com a nossa própria embalagem e menos com a qualidade a qual podemos oferecer. A conduta rasa e pouco crítica que temos ao lidar com o mundo migrou para o modo como nós enxergamos a nós mesmos. Portanto, por que no lugar de nos atermos às questões de formatação do nosso corpo, não damos mais atenção ao conteúdo que carregamos?

Fonte: https://society6.com/

Há inúmeras respostas a essa pergunta; mas, no contexto das relações interpessoais líquidas atuais, uma talvez seja a mais sucinta e objetiva.

Num mundo onde tudo se tornou uma eterna batalha para a conquista das coisas, aquilo que só se obtém por meio do cultivo é obsoleto e desprezável. Afinal, o que importa é aparentar e não ser.
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