Questões Exponenciais
Lendo o livro de Salim Ismail, Organizações Exponenciais, excetuando-se o excesso de expectativas em relação à tecnologia, de fato, temos que reconhecer uma mudança brutal em nosso mundo. Grande parte de nossa economia global era baseada em produtos concretos (carros, edificações, objetos e artefatos). Hoje, você não precisa carregar um aparelho de GPS, uma máquina fotográfica digital, um MP3 Player, um bloco de notas, seu palmtop (quem lembra?) para agendar as coisas etc. Seu smartphone concentrou todas essas funções e inúmeras outras em software. Na verdade, há artefatos transicionais entre produtos (1) físicos (geladeira e carros); (2) produtos físicos orientados à informação (Kindle, Smartphones etc); e finalmente, produtos 100% baseados em informação (Dropbox, Google, Facebook, Twitter e WhatsApp).
Agora pense como sua locadora de filmes está em seu smartphone (Netflix), seu carro também pode estar (Uber), e em breve, teremos internet barata (quase gratuita) e de alta velocidade com a tecnologia 5G a ser lançada ano que vem na Ásia. Percebe como a velocidade de transição entre um paradigma de crescimento tecnológico linear para crescimento exponencial é evidente? Uma grande empresa de TV pode ter seu poder ameaçado a qualquer momento por um grupo de universitários em uma garagem financiando uma start-up com o cartão de crédito dos pais (para quem não sabe o YouTube começou assim antes de ser vendida por um pouco mais que 1 bilhão de dólares). Então, em um mundo de transformações tão intensas, de trocas simbólicas baseadas em informação, e altas exigências cognitivas, e evidentemente, certa “democratização” do empreendimento humano, questões sérias devem ser levantadas.
O que é educar nestes tempos inevitáveis? Categorias binárias de análise sociais que dividem o mundo entre socialistas e capitalistas conseguem realmente dar conta da complexidade da economia contemporânea baseada em empreendimento emergentes, trocas massivas de dados e forças culturais exponenciais? O que é hoje algo pequeno, um negócio local e encabeçado por gente que está em outro mundo (muitos nem fazem mais curso superior), pode, de uma hora para outra, desbancar monopólios.
Obviamente estamos diante de um fenômeno sócio-econômico e cultural singular, e tenho dúvidas, se as categorias mencionadas dão conta disso. Me parece outra coisa. Podem argumentar: “-Mas, isso é capitalismo!” É mesmo? Na forma clássica? Dá para dividir as coisas assim, de maneira simples entre “burguesia” e “proletariado”? Eu não tenho respostas para isso. Mas, ainda gostaria de introduzir questões desafiadoras: como cristãos e a teologia respondem a tudo isso? Como lidar com uma vida que já é baseada em “Internet of Things” (IoT)? Como lidar teológica e filosoficamente com “bots”, “algorítimos”, “big data” e “business inteligence”?
Temo que a maioria dos cristãos não tem a menor ideia de que já vivem imersos em tudo isso, fornecem informações em massa para toda esta rede, este “meta-córtex” (Pierre Levy). Não acho que a resposta é uma cômoda e preguiçosa fuga, e tampouco, um abraçar caloroso das novas tecnologias. Precisamos de um sabedoria, com raízes cristãs bem fincadas na tradição teológica e canônica, criativa, sóbria, grata e não-eufórica. Por outro lado, temos que ser gratos, pois quando mais “software” ficam os produtos, menos impacto ambiental, menos emissões de CO², mais potencial de participação, mas claro, mais risco de controle. Tudo isso vem como uma avalanche, e precisamos de graça para nos posicionarmos e utilizarmos tais tecnologias de maneira consciente e criteriosa.
