Teologicamente Pastoral

Desde o preparo para minha ordenação até a prática propriamente dita tenho lido e refletido, com alguma regularidade, sobre o significado do ofício pastoral. Percebi que há algumas expectativas sobre o ministério que são simplesmente erradas. Mas dentre todos os equívocos (como associar a figura pastoral ao administrador, motivador, coach ou comediante) o mais insistente tem sido aquele que combina o pastor a um terapeuta. E, a meu ver, basicamente duas pessoas são prejudicadas com essa falsa associação: a ovelha e o pastor. E, esse é um dano grave para a igreja local e àqueles que pertencem ao Supremo Pastor.

Tal constatação veio de algumas leituras. Mas poucas obras foram mais decisivas do que o “Pastor como Teólogo Público” de Kevin Vanhoozer. De maneira bem resumida, nesse livro, Vanhoozer e seus interlocutores basicamente recuperam a figura clássica do pastor como o educador/mestre (didáskalos/διδασκαλος) da igreja. Dentre os encargos de seu ofício está aquele que acontece tanto no púlpito como no gabinete: aproximar os caros temas da teologia bíblica e sistemática à realidade e a concretude dos dilemas da vida das pessoas. Desde então, aquela popular separação entre o “pastor” e o “mestre” nunca me soou tão inconsistente e falsa.

É verdade que nem todo educador/mestre na igreja é um pastor, mas o pastoreio é inevitavelmente um ministério baseado na maestria teológica. Não há nada mais esquisito do que um pastor que simplesmente é deseducado em teologia e doutrinas bíblicas. E, também não há nada mais estranho do que um teólogo acadêmico que exerça a função pastoral sem conectar seus saberes teológicos com a vida das pessoas. O problema pode ser diagnosticado, por exemplo, quando um pastor simplesmente não consegue aproximar a ressurreição ao pensamento suicida ou a justificação pela fé à ansiedade.

Desde então tenho procurado intensificar minha leituras teológicas sempre pensando nas questões reais da vida das pessoas. Uma pergunta em particular permanece: Como problemas com casais em crise, pessoas com pulsões homo-afetivas, compulsões sexuais, crises de ansiedade, quadros depressivos, medo, o luto, crises vocacionais e de identidade se relacionam com a Trindade, eleição, regeneração, adoção, conversão, arrependimento, fé, justificação, união com Cristo, graça, santificação, senhorio de Cristo, missão e ressurreição? Como um pastoreio baseado em virtudes cristãs como fé, esperança e amor pode dar respostas adequadas para o membro de minha comunidade de fé que acabou de perder o emprego?

Por outro lado, como posso ser um instrumento de Cristo para que os membros de minha comunidade consigam viver para além deles mesmos? Uma resposta pastoral razoável deve cooperar para que consigam superar uma vida “curvada sobre si mesma” e a enxergar que os planos de Deus para a história são maiores e que suas rotinas podem ser afetadas por uma narrativa maior do que a vida privada.

Claro, essa correção ministerial exige certa capacidade de adequação da linguagem, o amplo uso de recursos pedagógicos bíblicos (falo sobre isso em minha dissertação sobre provérbios) como analogias, parábolas e ilustrações, e assim, criar pontes entre temas doutrinários e dilemas existenciais. O pastor aproxima o que pode soar abstrato (eleição, regeneração, fé, arrependimento, santificação e trindade) com aquilo o que parece ser questões práticas da vida (boletos, receitas médicas, ônibus cheio, crises existenciais, fila do banco e o trânsito infernal dos grandes centros).

Criar pontes pastorais exige que o pastor sejam antropologicamente interessado na vida comum das pessoas, se familiarizar com a cultura pop, narrativas televisivas, seriados, tendências culturais e assistir umas “novelas”, às vezes, pode ser muito útil (não estou brincando!). E, claro, ter um interesse autêntico, uma escuta cuidadosa, a respeito da narrativa das pessoas e assim detectar os pontos obscuros carentes da luz da verdade evangélica.

Estou convencido, por exemplo, que a doutrina bíblica da justificação possui um amplo potencial pastoral. Pense nos desdobramentos deste ensino paulino sobre o excesso de expectativa moral e emocional nas relações humanas. Imagine sua aplicabilidade sobre a incapacidade de perdoar e como ela denuncia nossa própria vulnerabilidade ao mesmo tempo que dirige nossos anseios a Cristo. Pensou? Considere seriamente que a justificação evidencia que somos (parafraseando Keller) ‘mais pecadores do que poderíamos mensurar e mais amados do que poderíamos conceber’. Essa aplicação pastoral da justificação, se operada pelo Espírito Santo, tem um incrível poder de rearranjo sobre qualquer confusão a respeito de Deus, de si e dos outros. Essa é uma pequena amostra, porém agora, ouse imaginar o que seria uma aproximação intencional entre o cuidado pastoral e outros fascinantes temas da teologia cristã. Fascinante não é? Eu também acho! Mas, na prática é mais fascinante ainda.

Agora, voltemos à tentação “pastoral-terapêutica”. Esta é uma percepção distorcida de que nossa função é prioritariamente oferecer alívio para o desconforto e o sofrimento emocional alheio. De fato, todo sofrimento que o cristão experimenta tem implicações educacionais. Se simplesmente nosso esforço pastoral for na direção de sempre “anestesiar” as pessoas para que suportem mais um “dia” entretidos com seus pecados, corremos o risco de estarmos oferecendo uma “droga” ao invés do Evangelho de Cristo. Desta forma, coopera-se para que essas pessoas se tornem dependentes de doses mais frequentes e mais intensas deste placebo ao invés de serem curadas de seus dilemas mais radicais. Vanhoozer insiste que mais do que “alívio” oferecemos ‘uma maneira de discernir o sofrimento à luz do Evangelho’ (Hb 12:1–3).

E, finalmente, o pastor precisa ir ao gabinete consciente de que entre ele e a ovelha está Cristo. E, Cristo é o maior interessado e o maior apascentador daquela pessoa. Pastores precisam aprender a confiar na providência e se entregarem à instrumentalização da graça. Isso não implica em negligência, em hipótese alguma, ao contrário, significa que nosso pastoreio é intencional mas profundamente confiante em Cristo e no potencial transformador do Evangelho. Pastores não podem ser menos do que foram chamados para ser e fazer. E, Cristo não pode perder a glória que lhe convém no cuidado pastoral. Por isso, recuperar a teologia na prática pastoral não é apenas urgente, é vital para qualquer pastor que tenha consciência da seriedade que o seu ofício exige.