O discípulo de Coltrane
Um perfil de um saxofonista em uma noite fria de São Paulo
Publicado originalmente no Overmundo em fevereiro de 2012.
O relógio pendurado na parede ao lado do palco marca duas e meia da manhã de quarta para quinta-feira. E lá estão os cinco caras que vão alegrar aquela típica noite fria paulistana no Saravejo, baladinha localizada na rua Augusta, a dois quarteirões da avenida Paulista. O guitarrista se posiciona no canto direito do diminuto palco, sentado em uma cadeira, enquanto o baixista fica atrás dele, em pé. No centro, ao fundo, está o baterista e no corner esquerdo encontra-se o tecladista, arrumando alguma coisa no seu Macbook — que naquela noite desempenharia a função de partitura. Todos ainda testam o som, um cacoete básico de qualquer músico. Até que um jovem negro, não muito alto mas corpulento, de olhos apertados e sorriso largo, vestido com uma camisa branca de manga curta com pequenas estampas azuis que brilham com a luz negra do ambiente, sobe no palco com seu saxofone, toca umas três ou quatro notas e fala: “Ok, vamos lá”. Quatro batidas na baqueta e uma explosão sonora em forma de puro soul ecoa sobre o recinto.
A galera que se divertia ao som do DJ estava hipnotizada com o que viam. O groove é inebriante. O baterista se esfacela a cada mudança de batida. O guitarrista e o tecladista são virtuosos, parecem apenas querer sentir a música fluir pelos seus corpos, que respondem trocando os acordes milimetricamente no tempo certo. O baixista mostra uma qualidade tremenda, velocidade misturada com técnica e estilo. Mas nada se compara com o momento em que Vinícius começa seu solo destruidor, na metade final da música.
“Porra, esse cara toca demais”, comenta um rapaz de jaqueta de couro e cabelo comprido para seu amigo de mesmo look enquanto aponta para o saxofonista. Esse foi um dos comentários mais recorrentes naquela noite e ainda estávamos na metade da primeira música, em outras palavras, muita coisa ainda iria rolar. Mas ele continuava com seu solo rápido e certeiro no melhor estilo consagrado do bebop de Charlie Parker e Cannonball Adderley, dedilhando o sax de uma maneira feroz, quase instintivamente, condensando as notas em frações de segundo como se pudesse controlar o tempo e transformar minutos em segundos e segundos em milésimos de segundos e quando a coisa toda estava no ápice da abstração e nada parecia fazer mais sentido nenhum, surge uma pausa certeira. “Caralho!”, grita alguém da plateia. E o som volta e então as coisas se encaminham para o final, com a bateria sendo martelada, as cordas da guitarra e do baixo sendo surradas impiedosamente, o teclado sendo dedilhado sem dó e o sax acrescentando mais caos ao ambiente com suas notas agudas e estridentes, deixando a plateia petrificada, até que a última nota ponha um ponto final nisso tudo. A confusão sonora dá lugar à calmaria e o público responde com uma calorosa e intensa salva de palmas. E isso era só a primeira música.
Alguns dias depois, numa sexta-feira, me encontrei com Vinícius à noite em um bar perto do metrô Ana Rosa, na rua Vergueiro. Em algumas horas ele iria se apresentar no Bourbon Street, tradicional clube de jazz de São Paulo, e a ocasião pedia uma indumentária à caráter. Ele vestia um sobretudo por cima de um terno risca de giz com colete e usava um chapéu preto estilo gangster e um cachecol. Apenas os óculos translúcidos estilo aviador eram os mesmos. Nas mãos carregava seu estojo com o saxofone tenor e nas costas, uma mochila.
“Esse era um negócio que sempre quis fazer”, conta o jovem músico de 20 anos, natural de Barra do Piraí (RJ). “Eu nunca sei direito o que vou fazer amanhã, não tenho uma rotina definida. Sei que vou tocar em algum lugar, mas o resto não sei. Hoje, por exemplo, vou tocar no Bourbon Street, amanhã tenho um casamento em que vou tocar de tarde e depois vou me apresentar à noite. Enfim, sempre aparece alguma coisa. É um lance meio complicado.”
Quarta-feira era dia de se apresentar no Saravejo, rotina que mantém desde o começo de 2009 quando conheceu o trombonista Bocato, que costumava se apresentar com sua banda no local. “Ele me viu tocar na Augusta e me chamou para dar uma palhinha no Saravejo. Desde então passei a tocar lá direto”.
Só que agora não mais com Bocato e sua banda. Antes da segunda música, o frontman forçado faz uma rápida apresentação dos integrantes: “Boa noite, somos a banda Funk Brasil, com Marco da Costa na bateria, Gileno Foinquinos na guitarra, Rubem Farias no contrabaixo, Ary Holland no teclado e eu, Vinícius Chagas, no sax”. E sem deixar a peteca cair, os caras entram novamente em ação e botam a meninada pra dançar.
As músicas da banda seguem uma estrutura parecida com a do jazz moderno, só que tocado em forma de funk/soul. Tudo começa com uma breve introdução, uma maneira de chamar a atenção do público, que depois segue rapidamente para o tema principal da canção e deságua para o solo. Em seguida, o tema principal volta, normalmente com pequenas variações de ritmo, caindo rumo a um novo solo, só que desta vez de um outro instrumento, e assim por diante até caminhar para o final. E é exatamente na hora do solo, quase sempre improvisado, que se separa o verdadeiro músico do farsante. Pois a improvisação é a alma do jazz e requer técnica, talento e conhecimento de escalas, além de timing e feeling para não prolongar excessivamente o solo e deixar as coisas maçantes.
Vinícius aplica essas regras como poucos. Ele não só faz bem as progressões, com ritmo e precisão, como faz isso com velocidade, o que torna as coisas ainda mais insanas. “Mas o que te levou aprender a tocar sax?”, pergunto. “Comecei a tocar por influência do meu irmão mais velho, que tocava trombone. Só que ele não seguiu em frente e parou, mas eu continuei estudando”.
“Quando morava em Cosmópolis (130 km de São Paulo), eu frequentava uma igreja e lá tinha um pastor que tocava de tudo, todos os instrumentos possíveis, e ele começou a me ensinar. No começo me dediquei na parte teórica da música, das escalas e tal. Tinha um esquema de estudo lá que você tinha que fazer até a lição 60 para poder pegar o instrumento. Mas quando terminei a lição, o cara teve que mudar de cidade. Então, comecei a praticar sozinho mesmo.”
Na época, ele tinha de 11 para 12 anos e não mais precisou de um tutor. Tudo foi feito na base do empenho e da pura intuição, em parte pegando referências por aí, em parte fazendo as coisas do seu jeito, quase como no lema punk “do-it-yourself”, mas menos pretensioso e menos tosco. Vinícius honra os grandes mestres do jazz como uma criança falando de seus heróis dos gibis. “Quando tinha uns 10 ou 11 anos, um brother meu da igreja me apresentou o Charlie Parker. Pirei no som desse cara. Nunca tinha escutado nada parecido antes. Lógico que eu já tinha ouvido jazz, mas aquilo era diferente. Então, esse cara me deu um CD do Charlie Parker e pensei: pô, é isso que eu quero fazer”.
“Na minha opinião, o melhor jazzista que já existiu foi o (John) Coltrane. Tanto que estou com o livro dele aqui (tira da mochila o A Love Supreme — A Criação do Álbum Clássico de John Coltrane, do jornalista Ashley Kahn). O cara era genial, fez coisas incríveis que ainda hoje são consideradas modernas. Ele estava à frente do seu tempo”, diz, empolgado. “Ele tinha umas viagens sensacionais. Tanto que depois do (disco) A Love Supreme, nesse livro conta, ele foi fazer um show e começou a tocar umas loucuras e só depois reparou que não tinha mais ninguém no salão ouvindo ele, o pessoal tinha ido embora.”
Por sorte, Vinícius ainda não chegou a esse estágio. O público ainda delirava com a apresentação. É fato que os outros membros da banda tem um talento extraordinário, até porque alguns tem uma trajetória musical nada dispensável, mas ele consegue se sobressair deles muito facilmente, sem precisar fazer grandes malabarismos. E mesmo assim ele tem presença de palco — e não só pelo seu visual chamativo, mas também pela interação natural que rola entre artista e público. E as pessoas, mesmo que instintitvamente, reconhecem isso.
Porém, fora do palco, a atitude é outra. Há um quê de humildade e timidez fácil de reconhecer. Após esse show, enquanto conversávamos na saída da balada, uma garota loira de cabelos curtos, com um visual meio indie, chegou até nós, deu um tapinha no ombro do Vinícius e disse: “Parabéns, cara, hoje você arrasou”. Ele modestamente agradeceu os elogios da bela moça.
Só que a coisa muda de figura quando Vinícius está em ação. Conheço muitos músicos que ficam nervosos antes de cada show, mas quando o encontrei antes da apresentação ele estava aparentemente tranquilo, conversando com alguns conhecidos na parte da casa onde fica localizado o bar. Esse lance de se concentrar, fazer mandinga ou coisa parecida não existe. O negócio é subir no palco, tocar e ver onde isso vai dar.
Quando o show já entra na sua primeira hora de duração, a banda dá uma pausa técnica. São três e meia da manhã e a pista dá uma esvaziada, enquanto o DJ tenta segurar o balanço da galera. Quinze minutos depois eles retornam à cena, mas algo de diferente paira sobre o ar. A sensação é que o compasso é o mesmo, porém o som está com um clima de psicodelia pura. Os solos estão mais loucos e sinistros, a marcação da bateria está intensa como nunca, apesar do batera ter dado o sangue durante o show inteiro. Parece um momento em que os músicos deixam a diversão dos outros de lado e tentam se divertir da maneira deles. O momento dos caras mostrarem o que eles realmente sabem fazer.
A hora mais alucinante foi quando Vinícius resolve descer do palco, que tem pouco mais de um metro de altura, e começa a tocar entre o público, que forma uma roda para vê-lo melhor. Quando finalmente entra sua hora de solar, a galera entra em êxtase novamente e começa a vibrar tanto quanto as paredes tubulares de seu sax. A batida da música, as paredes grafitadas, a iluminação, o clima ameno, tudo é muito hipnótico. Mas a alegria durou pouco, pois a música logo termina e ele retorna ao seu posto habitual.
Passos gigantes
Essa desenvoltura nos palcos talvez se explique pela sua considerável experiência, mesmo com pouca idade. A primeira vez que se apresentou em público foi na banda da igreja de Cosmópolis, em 2004, então com 14 anos. “Nós tocávamos de final de semana, sábado e domingo. Era basicamente música gospel”, conta. “Só que tinha um lance complicado: nós ensaiávamos de dia de semana, quando estava mais vazia (a igreja), mas não tinha instrumentos. Só uma bateria, um baixo, um teclado e eu, e não havia partitura, então meio que aprendi a tocar de ouvido, ouvindo o pastor tocando.”
Falando nisso, ele nunca perdeu o costume de ir aos cultos. Desde que se mudou para São Paulo, em 2008, ele frequenta uma igreja no bairro onde mora, a Freguesia do Ó, toda quarta-feira. Mas independente de religião, há algo de espiritualidade em sua história. Ele conta que as primeiras tentativas de tocar saxofone foram completamente frustradas. Por mais que estudasse, lesse tutoriais e se esforçasse, as coisas não saíam como imaginava. Um dia decidiu deixar o instrumento de lado por alguns meses e, quando voltou a tocar as coisas finalmente se encaixaram. O que explicaria isso? “Ah cara, não sei. A verdade é que sou um cara muito espiritual, acredito que ainda não estava pronto para começar. Deus é quem escolhe essas coisas, aí, quando estava pronto, as coisas começaram a dar certo”.
Se isso faz sentido ou não, ninguém além dele poderá dizer. Mas isso nos leva de volta ao A Love Supreme. Para quem não sabe, nessa época Coltrane entrou numa fase religiosa desde que se livrou do vício em heroína e álcool, no final dos anos 1950. Na versão que eu tenho em CD do álbum, há um livreto com um texto escrito pelo próprio saxofonista contando essa história: “No ano de 1957, eu experimentei, pela graça de Deus, um despertar espiritual que me levou para uma vida mais rica, completa e produtiva. Nessa hora, em gratidão, humildemente pedi para receber os meios e o privilégio de fazer as outras pessoas felizes através da música. Sinto que isso me foi concedido através de Sua graça. TODA GLÓRIA AO SENHOR”. Coincidência ou não, esse disco de 1965 não só é considerado pela crítica uma das grandes obras-primas de Coltrane, como existe uma Igreja Ortodoxa Africana John Coltrane, fundada em 1971 em San Francisco (EUA), na qual os fieis entoam suas músicas como se fossem liturgias.
Não vou tentar forçar a barra e dizer que existem semelhanças nessa história, porque não há. Até porque ele mesmo faz questão de frisar que não mistura esse lance de idolatria. “Eu sou um cara que acredita numa coisa: tem que ter identidade. Do tipo, você consegue sacar as influências de uma música, ‘isso parece Coltrane e tal’, mas mesmo assim ela soar diferente”, afirma. “Por exemplo, isso aqui (apontando para uma bolacha de cerveja), o cara que fez isso usou algumas referências dele e de outras culturas que ele estudou, mas mesmo assim ele criou um barato novo, único.”
O que está em jogo aqui é o fato de música e religião serem dessas coisas que parecem ligadas umbilicalmente. De Elvis Presley a Bob Marley, passando por George Harrison e Tim Maia, não são poucos os gênios que se inspiraram no divino para compor suas canções, e quase sempre se dando bem nessa tarefa.
Se um dia Vinícius vai integrar essa lista ainda é cedo dizer, mas é fato que a religião faz parte de sua personalidade tanto quanto a música, e não exatamente a parte moral da religião, mas sua espiritualidade.
De qualquer forma, há uma certa modéstia de sua parte em atribuir seu talento monstruoso a Deus ou a quem quer que seja. Mesmo que muito do que ele seja hoje é — direta e indiretamente — por causa da igreja, onde desde moleque aprendeu a fazer música. Mas as coisas começaram a engrenar quando deixou a banda da igreja de lado e foi tocar por aí, se apresentando em bailes, casamentos, festas de formatura. A grana não era muita, mas já era alguma coisa. Nessa época também, em 2007, ele se tornou integrante da banda municipal de Cosmópolis e lá conheceu o baterista Orlando Russo, que logo o convidou para entrar no seu grupo, a Russo Jazz Band. A banda viajava pelas cidades do interior, tocando nos finais de semana.
Nesse meio tempo, em 2008, passou a ir ao conservatório da Luz, em São Paulo, duas vezes por semana. E foi no final daquele ano que sua vida mudou completamente: brigou com os pais, deixou a banda e veio morar em definitivo para São Paulo, junto com o irmão. “Meus pais começaram a encanar com esse lance de estudo. Eu repeti a 8ª série quatro vezes. Na última vez, eu falei: não quero mais saber dessa merda e parei de estudar, mas preciso voltar”.
E como ele conhecia um pessoal do conservatório que fazia shows, rapidamente encontrou uma banda para tocar na noite paulistana. De apresentação em apresentação, foi conhecendo outros artistas e entrando em novos grupos. Atualmente toca com a Funk Brasil (todas as quartas no Saravejo), com a Soul Five e com Charlie e os seus Marretas, em casas de show e festas por aí.
O relógio marca quatro e meia da manhã e a Funk Brasil toca a última canção daquela noite. A pista está mais vazia, uma considerável fila se forma no caixa, os bebuns lotam o bar para gastar seus últimos trocados dos 40 reais de consumação e os solitários buscam uma última dança. A banda está no palco já faz duas horas e o pouco de energia que lhe resta ainda está de pé. Um último solo de sax, uma última baquetada na bateria e era o fim da noite para aqueles caras. “Valeu galera, semana que vem tem mais”, diz Vinícius ao microfone, enquanto a banda recebe sua última salva de palmas.
Posfácio
Nada mais justo do que uma contextualização. O texto acima foi escrito em 2011 para o trabalho de conclusão de curso da pós em Jornalismo Literário. Na época estava desempregado, fazendo frilas esporádicos, então houve um tempo considerável para trabalhar no personagem. Acho que foram uns dois meses mais ou menos, maio e junho para ser exato. Mas foram dois meses com uma porrada de contratempos.
Aliás, no dia anterior à da entrega tinha completamente me esquecido de que precisava fazer uma espécie de Making Of do TCC. Sentei na frente do computador de madrugada e só saí de lá quando praticamente PARI um texto de 10 mil caracteres falando sobre os bastidores da reportagem. Não havia muita alternativa naquela hora que não fosse a de desligar o senso crítico e ligar o foda-se, escrevendo freneticamente sem parar, botando no papel digital qualquer coisa que surgisse na mente, e depois dar um jeito de arrumar o estrago. No fim, o texto ficou bem legal – na minha humilde opinião, até melhor do que a reportagem em questão.
Segue um breve apanhado do Making Of:
Acho que a primeira percepção que alguém tem ao ler o perfil, pelo menos foi a minha impressão, é que falta alguns elementos mais detalhados da biografia do personagem, e isso tem sua razão de ser. O fato é que marcar uma entrevista com o cara foi uma tarefa árdua. Primeiro porque sua agenda é meio louca. Ele toca até tarde, por isso costuma acordar tarde, daí ele faz as coisas que precisa fazer, e depois sai para tocar à noite de novo. Por duas vezes, quando já tínhamos horário marcado, ele cancelou. A primeira, numa sexta-feira, foi porque surgiu um serviço para ele fazer (não especificou, mas imagino que seja para se apresentar). Depois, num sábado, o motivo foi que ele estava atrás de um apartamento para alugar (ele atualmente mora com o irmão) e não daria tempo de conversar. Para piorar, no começo de junho fiquei a semana inteira tentando falar com ele, mas o celular tocava e não atendia e ele tampouco respondia as mensagens que eu enviava. Até que na segunda-feira seguinte, finalmente consegui estabelecer contato: “E aí cara, o que aconteceu? Estou tentando falar com você desde a semana passada”. A resposta: “Pô cara, desculpa, é que eu esqueci o celular na casa da minha mina, só fui pegar hoje.”
Até que ponto tudo isso era “migué”, não faço a menor ideia. O fato é que a entrevista mesmo se resume a uma conversa de pouco mais de uma hora num boteco perto do metrô Ana Rosa e algumas conversas via Facebook. Por sorte, assisti a dois shows dele, ambos no mesmo lugar, então pude aproveitar os diversos elementos que encontrei durante essa apuração, além de tirar umas dúvidas com ele pessoalmente. Então, não havia muito do que reclamar. O negócio era usar a cabeça e seja o que Deus quiser.
Mas antes de tudo, uma rápida explicação acerca deste trabalho final. Como gênero, escolhi fazer um perfil, que era o que eu vinha tentando fazer desde o primeiro semestre, sem sucesso. Depois de uma grande reportagem e uma narrativa de viagem, senti que agora a coisa ia funcionar.
Como todo perfil que se preze, o meu tem seu personagem central. No caso é Vinícius Chagas, o saxofonista meio gênio, meio esquisitão que eu descobri graças a um ex-colega de trabalho meu, que canta em uma das bandas dele. Foi em meados do ano passado, em uma festa, que ele me falou sobre o Vinícius, comentando do talento absurdo que o cara tem. Fiquei com essa história na cabeça. No começo deste ano, encontrei com ele novamente e me lembrei da história que ele tinha contado e falei da ideia de fazer um perfil, a qual ele apoiou plenamente.
O primeiro encontro com o Vinícius foi numa quarta-feira no Saravejo — por acaso após a primeira orientação do TCC, em maio — depois de falar com ele algumas vezes durante a semana. O primeiro encontro foi casual, já tinha visto uma foto dele no Facebook então não foi difícil reconhecê-lo. Ele estava com pressa, ajudando a montar o equipamento no palco, mas parou para conversar e perguntar exatamente o que eu tinha em mente. Não sei se ele compreendeu a minha intenção, até porque o trabalho também estava meio nebuloso pro meu lado, mas mesmo assim ele se mostrou aberto a colaborar. Pelo menos a priori.
Mas faltava ver se valia a pena mesmo escrever sobre o cara e quando ele subiu ao palco e começou a tocar, logo pensei: “cacete, aquele filho da puta tinha razão”. O cara é realmente bom e se sobressai facilmente dos outros músicos da banda, que também são bastante talentosos. Isso por si só já valeria um perfil e a coisa só melhorou quando ele me contou um pouco da sua história.
A segunda apresentação que fui foi na quarta-feira antes do feriado de Corpus Christ. É esse show o pano de fundo do perfil. Fiquei atento a tudo o que estava rolando, vi as pessoas, vi como elas reagiam e como os músicos no palco recebiam isso. Ouvi um pessoal elogiando o Vinícius, saquei o pessoal pirando no som, como já havia acontecido no show anterior. E como tinha ouvido o som deles antes, a segunda audição ajudou a reter algumas informações e a formular algumas conjecturas acerca das músicas.
[…] Outro aspecto que levei em conta foi a sua interação com outras pessoas, inclusive comigo. Em um show tradicional, esse tipo de relação é meio deturpada, pois qualquer coisa que o artista faça será aplaudido pelo público, e isso é bastante compreensível, mas para uma banda desconhecida que toca à noite a questão é um pouco diferente. É preciso dar o sangue a cada canção, senão o pessoal vai preferir se embebedar no bar ou fazer qualquer outra coisa que o valha. Por isso, colocar as reações do público faria muito mais sentido neste caso, até mesmos as interações tête-à-tête, levando-se em conta que o palco era minúsculo e ridiculamente baixo.
Não lembro quanto tirei no trabalho, chutaria que foi 9. Eu mesmo confesso que não foi meu melhor texto e que nem cheguei a me esforçar para conseguir um 10. Foi um resultado justo, no final das contas. Pois quando escrevo coisas mais autorais (ou menos jornalísticas, digamos assim) tenho um sério problema de querer abandoná-las no meio do caminho. Há um lado meu que é perfeccionista, que quer deixar o texto o mais redondo possível; e tem um lado preguiçoso, que se cansa de perder tempo com uma tarefa infinita e impossível, e que acaba não vendo mais sentido naquilo.
Desde aquela época falei algumas poucas vezes com Vinicius. A última foi pelo Facebook no ano passado, quando ele me mostrou alguns sons que estava gravando com sua banda. Composições autorais mesmo, coisa finíssima. E teve uma vez que estava na avenida Paulista indo para a rua Augusta e trombei ele tocando com uma galera na frente do Banco Safra. Nos cumprimentos, trocamos uma ideia rápida, mas eu precisava ir para um aniversário e ele precisava tocar, então nos despedimos logo em seguida, com ele falando empolgado: “Pô, vê se cola em algum show nosso, cara”. “Claro que sim”, respondi, e nunca mais o vi pessoalmente.