Anatomia de um déspota

Sir Ian McKellen como o personagem título de “Rei Lear” (reprodução)

A história da humanidade foi permeada por governantes ilegítimos, e isso não é novidade. Em uma biblioteca, qualquer indivíduo pode rodar um globo em sua circunferência azulada e apontar um país randômico, que, provavelmente, foi regido por um tirano draconiano durante algum momento de sua existência. E não foi diferente na Lütvenia, pequeno país hoje extinto, seu território anexado por outra nação.

O Rei Ulfrick tinha uma tarefa difícil: Ao suceder seu pai, Alvor, um dos monarcas mais aclamados a pisar naquela terra, ele deveria manter o legado de seu progenitor, e ao mesmo tempo melhorar o reino no que este havia falhado. Infelizmente, Ulfrick não era querido pelo povo como seu antecessor havia sido. Gaguejava, não sabia discursar, suava em público, em nítido desconforto. A aprovação popular foi caindo, e concomitantemente, surgiram as revoltas. Os insurgentes eram executados em praça pública, naturalmente, como sempre havia sido feito, porém, se com Alvor isso impunha poder, com Ulfrick aumentava ainda mais a antipatia das massas por seu governante. Como uma gazela indefesa, o jovem incompetente no topo da hierarquia de Lütvenia logo se tornou uma presa fácil para os leões que espreitavam por ali. Havia algo de podre por perto, por mais que ninguém soubesse.

Ascendendo ao poder como Cláudio ou Macbeth, M’aiq, duque de Gliver e conselheiro real, arquitetou um plano digno de uma tragédia shakespeariana para tirar de cena o rei incompetente e assumir o poder. Não haviam herdeiros, e o único sucessor ao trono em caso da ausência de Ulfrick era um primo que vivia no país vizinho. Assassinos de aluguel foram contratados para dar um fim nesse primo de forma discreta, e, posteriormente, no próprio monarca de Lütvenia. M’aiq, então, tornou-se o mais novo governante.

Alto, esguio, no auge de seus setenta anos, a figura do déspota era comparável a de um mordomo de filme de terror, com seus olhos fundos emoldurados por sobrancelhas espessas, rosto seco e nariz curvo. Seu físico não era deformado, como o de Ricardo III, mas elegante, a postura impecável. Seu plano teria sido executado com maestria, e tudo haveria dado certo se as notícias do homicídio do primo distante do rei anterior não houvessem chegado rapidamente em Lütvenia, o que automaticamente levantou suspeitas sobre a morte de Ulfrick. Logo, ficou claro para a população de que M’aiq havia chegado no topo da monarquia através de meios ilegítimos, mas, obviamente, ninguém era detentor de coragem suficiente para invadir o palácio real, arrancar a coroa da cabeça do velhaco e chutá-lo pela janela.

Contudo, em contraponto ao seu antecessor, que mal conseguia estruturar uma frase em público, M’aiq era excepcional na tarefa de adular o povo. Com pouca dificuldade, ele conseguia manter as massas insurgentes sob controle, e, subitamente, ninguém parecia mais tão incomodado em viver sob o domínio do tirano. Mas ele não era bobo. Por mais que suas palavras fossem o suficiente para manter a população relativamente calma, o velhaco sabia que a aristocracia local, que havia mostrado-se assistiva em sua ascensão ao governo, estava de olho nele. A desvantagem de assumir o poder como um déspota é que todos que almejam o seu cargo sabem que podem assumi-lo do mesmo jeito que você. Portanto, M’aiq tornou-se um maníaco por segurança. Sempre alerta, ele sequer saía de seus aposentos sem o acompanhamento de três guardas de confiança, altamente treinados.

Não demorou para que a aristocracia deixasse seus interesses claros e incitasse as massas a desaprovarem o tirano, que estava se tornando estranho, recluso, distante do povo… A eloquência do monarca era vencida pela de Ned Gerr, orador oficial da oposição e o mais propenso candidato ao cargo de Rei com uma eventual deposição ou morte de M’aiq. Logo o povo o odiava, e ele sequer saia de seu palácio.

Em uma tarde digna de nota, lá se encontrava o governante, sentado em seu trono, a postura, antes tão firme e calma, agora tensa, adornada por uma tremedeira que havia se desenvolvido nos últimos dias. Ele apresentava uma das manias mais comuns entre os portadores de ansiedade: Repetidamente removia os anéis de seus dedos, apenas para brincar com eles antes de recolocá-los em seus devidos lugares. Seu cetro, antes símbolo de poder, podia ser visto encostado de forma pífia do lado do trono. A coroa, mal posicionada, apresentava-se assimétrica na cabeça do monarca, aninhada entre os cabelos desalinhados, úmidos, bagunçados pelo suor. O símbolo da realeza brilhava menos do que a testa do Rei. Eis que entra um mensageiro, que anuncia:

— Mensagem para o Rei.

— Evidentemente é uma mensagem para o Rei, idiota. — Respondeu o outro, seco. — Esse é o seu trabalho. Você não precisa repetir isso toda vez que entra aqui.

— Me desculpe, vossa excelência.

— Certo, certo. Encontro-me ligeiramente estressado por… assuntos pessoais.

O déspota então parou de rodar um anel dourado por sua palma suada e o colocou no dedo médio. Seu subordinado prosseguiu:

— As atividades que se referem aos eventos de batalhas entre prisioneiros serão retomados hoje.

— Bom, bom…

A Lütvenia possuía um sistema de entretenimento similar ao da Roma antiga, com as batalhas no Coliseu. Imensamente popular, a modalidade havia estado em recesso desde a morte do rei Alvor, sem ter sido retomada por Ulfrick ou M’aiq até então. O retorno das lutas entre prisioneiros mostrou-se necessário para aumentar a popularidade do velhaco, que estava baixíssima. A estratégia do “pão e circo” não é novidade para ninguém, afinal.

O mensageiro esperou, em silêncio, como se fosse necessário algum adendo por parte do Rei.

— Eu entendi o que você me disse. Pode sair.

— Senhor, a corte chama sua presença na abertura do evento.

O tirano parou de respirar por um momento.

— Impossível. — Respondeu, após um segundo.

— Vossa excelência, eles acham que isso pode ser benéfico para sua popularidade, uma demonstração de populismo, integração ao povo, proximidade…

M’aiq levantou-se em um pulo e agarrou o outro pela garganta.

— Escute aqui, seu verme insolente. Me dói profundamente dizer isso, mas eu talvez seja o monarca mais odiado da história da Lütveria, superando até mesmo o quadrúpede acéfalo que foi Ulfrick. Tudo graças ao sensacionalismo de Ned Gerr. Se eu descer agora e aparecer na frente das massas, a vaia será geral, uma histeria coletiva! — Proclamou, soltando o mensageiro e caindo ofegante de volta no trono. — Eu não posso aparecer lá. Não agora.

Seu interlocutor, cautelosamente afastando-se alguns passos, disse:

— O que o senhor quer que eu diga à corte?

Pensativo, o déspota juntou as mãos em frente ao rosto, em uma pose pensativa. Fechou os olhos e respirou fundo, em uma tentativa de se acalmar.

— Diga que estou doente.

— Doente? Mas, que doença lhe aflige, senhor?

— NÃO IMPORTA! — Gritou, batendo o punho fechado no braço do trono. — Reúna-se com os outros arautos, combinem alguma coisa. Inventem. Por hoje, estimulo a criatividade de meus subordinados. Estou cansado, muito cansado. Irritado demais para participar de cerimônias tolas. Vá embora, quero ficar sozinho.

— Sim, senhor.

Com passos curtos e rápidos, o mensageiro retirou-se de prontidão. M’aiq colocou a mão sobre os olhos, esfregando-os. Sua visão estava piorando. Sentia dores nas têmporas. Estava perdendo o cabelo. Gritzül, sua esposa, já estava ficando preocupada, clamando que o marido havia envelhecido mais de dez anos no período de alguns meses. Ela agora estava visitando a família do pai, do outro lado do continente. Pela primeira vez em anos, o velhaco dormiria sozinho. Levantou-se. Iria rumar para seus aposentos, descansar um pouco. Não demorou a chamar os guardas, que o abandonaram assim que ele chegou em seu quarto.

O cômodo estava escuro, as cortinas fechadas. Tudo bem, pensou o Rei. Eu já vou dormir, mesmo. Logo que se deitou, sentiu uma lâmina em seu pescoço e uma mão em sua boca.

— Shhhh, shhhh…

M’aiq permaneceu silencioso. Ele sabia que aquilo aconteceria, mais cedo ou mais tarde.

Ned Gerr assumiu o reino após a morte de M’aiq, e Gritzül foi executada logo após seu retorno à Lütvenia. Mas o governo do novo velhaco não durou muito, pois ele não demorou a encontrar o mesmo destino de seu antecessor. A sucessão monárquica do país tornou-se, por anos, um ciclo de manobras políticas que terminavam com a morte de um tirano e com o surgimento de outro. Isso só foi cessar após a Lütvenia ser anexada pelo país vizinho após o conflito que ficou conhecido como Guerra das Tochas. Hoje, nem a nação conquistadora existe mais. O país tornou-se uma nota de rodapé na história da humanidade, sua memória levada pela correnteza, como um bebê em um cesto colocado nas águas de um rio. A Lütvenia, bem como todos os seus déspotas, foram levados para a obscuridade pelas águas do esquecimento.

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