O Assassino de Passo Curto

Escrevo o seguinte testemunho ciente de que ele só chegara às mãos do público no caso de minha morte. Contudo, não é de minha intenção, através dessa sentença de abertura, deixar o leitor aterrorizado ou com pena de minha pessoa. Não; a iminência da morte segue o ser humano desde o momento em que ele vem ao mundo, e, no meu caso, ela tornou-se ainda mais forte a partir do dia 21 de julho de 1996.

Sim, 21 de julho de 1996. Lembro-me com clareza dessa data. Pudera, considerando a série de eventos que foi iniciada nesse dia. Era um domingo, chovia muito. Eu vivia em Passo Curto, uma pequena cidade interiorana, onde a população é pequena e todos se conhecem. Morava lá desde que eu havia nascido. Meu sonho era sair daquela cidadezinha e ver o mundo lá fora. Mal sabia eu do destino que me aguardava. Lá estava eu, em meus dezoito anos, totalmente aficionado por literatura, deitado na cama folheando uma velha edição de Robinson Crusoé oriunda da biblioteca pública local, quando minha mãe entra em meu quarto chorando.

— O que houve, mãe?

— O Seu Alexandre morreu.

O Seu Alexandre era dono de uma mercearia onde fazíamos compras, sempre muito simpático e solícito. Sua morte súbita, naturalmente, me chocou. Minha mãe me pôs a par dos detalhes: Encontrado morto no sofá da sala, os olhos abertos, mas não arregalados, como se houvesse alguma serenidade em seu olhar. Os exames médicos, a princípio, não conseguiam identificar a causa da morte.

— Nós vamos no enterro, Zuenir. — Concluiu ela.

Sim. Zuenir, naturalmente, é meu nome. Um nome pouco usual que até então eu odiava, mas que foi essencial para que minha vida se estendesse o suficiente e o testemunho que agora escrevo pudesse ser concebido. Posteriormente, caro leitor, você entenderá o porquê.

Não fui ao enterro do Seu Alexandre. Nunca gostei muito de enterros — acho que ninguém gosta. Minha mãe, no entanto, foi, e insistiu para que eu comparecesse à missa de sétimo dia. Assim prometi. Contudo, no dia seguinte, fomos surpreendidos por mais um evento: A morte de meu tio, Almir, que morava conosco. Minha pobre mãe, já devastada com a morte do não tão íntimo Seu Alexandre, agora estava em frangalhos.

Se o falecimento do dono da mercearia foi súbito e fruto de uma causa misteriosa, o de meu tio ocorreu dentro das mesmas circunstâncias — encontrado morto no chão da cozinha, onde devia ter ido de madrugada para comer alguma coisa. Apesar disso, não parecia ter sido vítima de um golpe ou de uma queda brusca. Estava deitado displicentemente no piso, expressão serena, olhos abertos. O cadáver foi descoberto por mim, de manhã. A quantidade de lágrimas que chorei nesse dia, somada à de minha mãe, é simplesmente inefável. Ouso dizer que talvez suficiente para encher o Nilo. Contudo, não há uso em perder tempo com semelhantes aforismos. Por mais insensível que isso possa soar, trabalho aqui sob urgência.

No enterro de meu tio, todas as conversas se voltavam para a semelhança entre as duas últimas mortes da cidade e do curto período de tempo que separava os ocorridos.

— Isso não é morte “morrida” — Captei, entreouvido em uma conversa de Dona Vânia com Dona Conceição, aos sussurros — É “morte matada”.

Contemplei, em meu luto, olhando para os pés. Teriam meu tio e o dono da mercearia morrido de “morte matada”? Fiz menção em compartilhar tal reflexão com minha mãe, mas desisti. Isso só traria estresse e mais lágrimas.

Nos dias que seguiram, eu não conseguia tirar a morte de meu tio da cabeça. Tentava me distrair com Robinson Crusoé, apenas para, segundos depois, a cena do corpo deitado ao chão voltar aos meus pensamentos, e a possibilidade de homicídio tomar conta de minha mente. Após algumas tentativas pífias de retomar a leitura, desisti. Assim, passei horas chorando, deitado, olhando para o teto, para a parede, em uma avalanche de sentimentos: tristeza, raiva, angústia, ódio, todos misturados, uma cacofonia mental que não me deixava por um segundo.

A missa de sétimo dia do meu tio foi um evento bem maior do que eu esperava. Posso afirmar, com certa segurança, que pelo menos um quarto da população da cidade estava ali e por mais que nosso município fosse pequeno, isso compunha uma boa quantidade de pessoas. Um burburinho tomou conta da igreja antes da missa começar, e eis que uma conversa se destaca:

— Jorge, Jorge.

— Que foi?

— Cadê seu irmão?

— Ainda não chegou, deve estar vindo.

— Ele vai perder o começo da missa.

— Agora não dá mais tempo de eu voltar para casa chamar ele.

Jorge era um rufião mal encarado de uns vinte e um anos, que morava com os pais e o irmão mais novo, de dezesseis, que, curiosamente, compartilhava o nome com meu falecido tio — Almir.

Após a missa, todos voltamos para nossas casas. Tentei retomar a leitura de Robinson Crusoé, ainda sem sucesso. No dia seguinte, a cidade ficou em polvorosa com a mais nova notícia, que, a essa altura do campeonato, o leitor já deve ter adivinhado: O irmão de Jorge também havia falecido. Mesmo padrão das mortes anteriores, sem chagas no corpo, olhos abertos, faces serenas. Foi ai que as pessoas começaram a notar o padrão — Apenas pessoas com o nome iniciado em “A” estavam morrendo. Contudo, isso foi o suficiente para que alguns deixassem o município, minha mãe inclusa. Sendo assim, nos mudamos para bem longe: Juntamos todas as nossas economias e fomos para o Rio de Janeiro.

Ao chegarmos lá, descobrimos que o caso estava começando a atingir uma repercussão nacional. As mortes estavam sendo atribuídas, de modo sensacionalista, a um homicida misterioso, que ficou conhecido pelos tablóides e noticiários baratos de televisão como “o assassino de Passo Curto”.

No Rio, não houve descanso para nós. Minha mãe, que era costureira, retomou o ofício assim que pousamos, e eu me tornei funcionário de uma grande livraria no centro, que, por sorte, não exigia muita experiência. Lá, tive contato com uma gama de livros muito maior do que o escopo pequeno e escasso que Passo Curto me permitia. Também foi onde finalmente retomei a leitura de Robinson Crusoé, dessa vez em uma edição novíssima em folha e cheia de floreios, muito mais bela do que aquele livrinho velho e amarelado que eu havia devolvido à biblioteca antes de deixar minha cidade natal. Fazia isso, claro, em meu tempo livre. Meu patrão tinha coração mole, e foi tocado pelo menino erudito vindo do interior, permitindo que eu lesse o que quisesse da livraria em meus horários de folga, contanto que o livro em questão não fosse danificado; nesse caso, eu pagaria o prejuízo. Mas sinto que estou me afastando do foco da narrativa. Perdão. Fico nostálgico me lembrando dessa época, um momento de alívio no meio de tempos pavorosos na minha vida, a calmaria que sucede uma tempestade e precede outra.

Assim se passaram dois meses, sem que eu recebesse notícias da cidade onde outrora eu havia presenciado aqueles episódios dignos de uma história de Poe. Em um dia de sol, daqueles que só o Rio de Janeiro pode nos proporcionar, eu estava vendo televisão, esparramado no sofá, como que me liquefazendo graças ao calor, sob a mercê do ventilador fajuto que rodava lentamente, quando começou o noticiário diurno. Fiz menção em mudar de canal, mas não encontrei o controle remoto e estava com preguiça demais para levantar-me.

O programa começou, e, após dar algumas notícias banais, o apresentador, de expressão séria e terno engomado, pronunciou as palavras que fizeram meu sangue gelar:

— Foi encontrado hoje o corpo de André Dias Fonseca, na sexta de uma série mortes entre os habitantes da cidade de Passo Curto.

Assim, fez um breve resumo das últimas cinco mortes — eu desconhecia as duasúltimas. O que mais me assustou foi o fato de que André, assim como minha mãe e eu, havia fugido de Passo Curto, mas ainda assim foi encontrado morto em sua casa, na cidade de Salvador, na Bahia, sob as mesmas circunstâncias dos falecidos que o precederam. Corri ao telefone para transmitir as notícias à minha mãe, e, ao ligá-la, descobri que ela estava prestes a fazer o mesmo.

O medo voltou a tomar conta de nossas vidas, sobretudo por um motivo: De acordo com nosso raciocínio, as pessoas que viviam na cidade de Passo Curto até o dia 21 de julho de 1996 estavam sendo mortas em ordem alfabética. E o nome da minha mãe era Bárbara. Ademais, notamos que o espaçamento de tempo entre as mortes era arbitrário, o que nos aterrorizou ainda mais. Poderia levar um dia ou um ano, mas a morte de minha mãe era iminente. Ela se sentia vigiada a todo momento por urubus que esperavam que a vida se esvaísse de seu corpo. Tornou-se paranoica, parou de costurar e de sair de casa. O sustento da família passou a recair inteiramente sobre mim, e tive que arranjar outro emprego — agora, além de trabalhar na livraria, eu era contínuo de uma firma.

Uns cinco, seis meses após eu arrumar meu emprego como contínuo, cheguei em casa, onze horas da noite, após um longo dia de trabalho. As luzes estavam apagadas, e, naturalmente, eu as acendi. A casa estava silenciosa.

— Mãe?

Nenhuma resposta.

Tudo bem, pensei. Deve estar dormindo.

Fui até a cozinha, para comer alguma coisa, e senti todos os pelos do meu corpo se arrepiarem. Minha mãe estava sentada, como se jantando, porém com a cabeça enfiada em um prato de sopa.

Não, não, não, não não, não, não não, não, não não, não, não, pensei. Não pode ser.

Minha mãe havia falecido.

Peço perdão ao leitor pelo espaçamento porco entre os parágrafos nessas minhas últimas linhas. Tenho dificuldades, mesmo hoje, em recontar essa parte da história. Tive que fazer uma pausa antes de descrever a cena.

Devo ter passado mais de vinte e quatro horas dentro de casa, com luzes apagadas, sem comer e sem beber, chorando até meus olhos arderem como se minhas pálpebras fossem revestidas de brasas. Não foi diferente no enterro de minha mãe, ou em sua missa de sétimo dia. Como conhecíamos pouca gente no Rio, a capela estava vazia. Meus soluços ecoavam, propagando-se entre aquelas paredes.

No dia após a missa, saí para trabalhar com uma ideia na cabeça. Eu precisava fugir, sair da cidade, me esconder, me entocar em uma cabana, como Thoreau ou Kerouac. No ônibus, eu percebia meus membros tremendo involuntariamente. Eu tinha que fazer isso. Não podia deixar o assassino me pegar sem resistência. Não podia deixar ele me surpreender, como fez com minha mãe.

Após algumas horas na livraria, comuniquei a um colega funcionário que eu iria ao banheiro. Direcionei-me ao toalete, porém parei no meio do corredor, onde havia o quadro de luz. Não hesitei — desliguei a energia do local.

Corri, corri como se meus pés não me pesassem, a mão firme segurando duas sacolas, que continham um amontoado curioso de itens: Um caderno novinho, em branco, uma caneta, todo o dinheiro do caixa da livraria e uma edição de Robinson Crusoé. Se alguém gritou “pega ladrão”, não ouvi. Enquanto eu corria sem rumo, uma ideia brotou em minha mente. Parei, ofegante, para recuperar o fôlego, e então tomei um ônibus que passava por uma região cujo senso comum dizia ser bem perigosa. Desci do ônibus. Não demorou para que duas figuras me abordassem, indagando quais eram minhas intenções naquele local. Vi que um deles punha a mão no bolso.

— Quero comprar uma arma. — Declarei.

— Ficou maluco?!

Abri a sacola que continha o dinheiro. Pude ver os olhos dos dois brilhando. Um deles tentou me tirar a sacola a força, mas segurei-a rente ao meu peito.

— Me dá a arma.

O homem que estava com a mão no bolso sacou um revólver e o apontou para a minha cabeça.

— Dá o dinheiro, porra! Dá o dinheiro!

Não me alterei diante da ameaça, tamanha a anestesia mental em que eu me encontrava naquele momento.

— Sou um fugitivo da polícia. Vou fugir para a Colômbia. Estão vendo esse dinheiro? Onde eu moro, tenho, fácil, umas dez vezes isso. Se me pegarem, é prisão perpétua. Levei um tiro e perdi minha última arma em uma perseguição. Só me dá a porra da sua arma que eu sumo da sua frente, e você leva todo esse dinheiro. Se você me der um tiro, a polícia vai saber que eu morri, e eles vão vir atrás de você.

Os dois se entreolharam, e o homem que havia tentado tomar minha sacola a força perguntou meu nome.

— Eu acabei de falar que tô fugindo da polícia e que vou pra Colômbia, ô caralho! Tu acha que eu sou burro pra te falar meu nome?!

Por incrível que pareça, eles compraram a história. Larguei com eles a sacola do dinheiro e levei o revólver, que escondi na sacola onde estava o caderno.

Fugi.

Não há por que explicitar os detalhes que seguem a compra do revólver. Quem encontrar esse testemunho irá se espantar com a distância que separa meu esconderijo do Rio de Janeiro.

Hoje é dia 21 de julho de 2016. Faz vinte anos que a primeira vítima do dito “assassino de Passo Curto” morreu. Ano após ano, os habitantes de minha cidade natal, exilados ou não, foram morrendo, com cada vez menos cobertura midiática. Por volta do “J”, já era impossível me manter em dia com a lista de mortes. Olho-me no espelho e vejo o peso que os anos me fizeram: Meus cabelos, desgrenhados, sujos e anárquicos, quase alcançam meus quadris, as barbas espessas e malcuidadas como a grama de um jardim abandonado. As olheiras escuras se destacam na pele clara, e, ao retirar minha camisa, vejo de forma anatomicamente assustadora o contorno de todas as minhas costelas na pele seca. Através de uma transformação dantesca, me tornei o próprio Robinson Crusoé.

Vinte anos se passaram. Vinte anos de medo, aflição, solidão, loucura. O revólver fica em cima da cópia do livro que roubei da livraria em meu último dia de trabalho. Diversas vezes, pensei em me suicidar, para não dar o gostinho a ele. Cheguei a colocar o cano da arma tanto em minha têmpora quanto em minha boca. Uma vez, cheguei a apertar o gatilho. Clique, clique. Nada. Eu havia sido enganado. A arma era falsa.

Nas últimas semanas, notando a proximidade do aniversário de vinte anos da primeira morte do “assassino de Passo Curto”, tive dificuldades para dormir. A angústia me é uma constante, mas ela crescia ainda mais a cada dia que eu me aproximava da data em que escrevo esse texto.

Ainda não sei explicar o que causou todas as mortes. Claro que no começo os jornais falavam de uma pessoa física, um assassino. Contudo, nunca foram encontradas pistas. Talvez tenha sido uma doença que infectou todos os habitantes da cidade, uma praga rogada sobre nós, um demônio, ou uma penitência divina. Durante meu exílio, tomei algum tempo para formular possibilidades, mas não cheguei a nenhuma conclusão satisfatória além dessa: Minha própria morte é inevitável. Seja pelas mãos do “assassino” ou pelos maus cuidados que tive com minha saúde nos últimos anos, sei que meu tempo está ac —

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.