Os impasses do indivíduo hipermoderno refletidos no universo audiovisual

Desde o seu surgimento na segunda metade do século XIX, o universo das mídias audiovisuais sempre serviu como um reflexo do ser humano. Na famosa silver screen, o homem espelha seus desejos, medos, dogmas, filosofias e paixões. E não seria diferente com a angústia que sente no mundo hipermoderno.

O indivíduo atual está sempre apressado, ocupado. No trabalho, é autônomo e dinâmico, como os yuppies (Young Urban Professionals) de PSICOPATA AMERICANO (2000). O filme, rodado no fim dos anos noventa e lançado na virada do terceiro milênio, contempla precisamente a ascensão de uma nova geração, que possui uma mentalidade diferente, não apenas no mercado de trabalho, mas também na vida. PSICOPATA AMERICANO é uma crítica mordaz a esse novo status quo.

Para o jovem empresário Patrick Bateman (Interpretado por Christian Bale), os prazeres de sua vida burguesa e privilegiada já não são o suficiente. Ele encontra a satisfação na prática do assassínio — ou pelo menos, no que ele pensa ser assassínio — e logo descobre ter sucumbido à loucura, vítima do mundo capitalista selvagem yuppie, cenário intrinsecamente ligado à pós-modernidade. Esse é apenas o primeiro dos pontos que quero tocar nesse texto: O quão hostil, intenso e hipócrita o mundo contemporâneo pode ser, justamente como o retratado no filme de Mary Harron. Isso, naturalmente, afeta o ser humano, que expressa sua insatisfação com ares de inquisição em produções cinematográficas, literárias ou em qualquer outro meio artístico, utilizando-se, na maioria das vezes, de metáforas.

Outra narrativa que aborda o tema com maestria é CLUBE DA LUTA (1999). O filme, atualmente ironizado por eruditos por ter se tornado “mainstream” e símbolo de uma juventude burguesa insatisfeita, tem a crítica importante que traz ao cenário de debate ignorada e vista com superficialidade justamente por essas visões equivocadas e ácidas que vem cada vez mais entranhando-se em mentes pseudo-intelectuais que desprezam o cinema popular.

O filme de David Fincher, baseado no célebre romance de Chuck Palahniuk, mostra um narrador de nome desconhecido (Popularmente chamado de “Jack”, interpretado por Edward Norton) que vive uma vida de desânimo e indiferença em relação ao seu emprego, ao seu estilo de vida e à sua própria mentalidade pessoal. Ele sente-se impotente, sem motivos para viver, preso em uma rotina que não lhe dá prazer. Tem insônia, não consegue se relacionar com as pessoas de forma sincera, não possui, em suma, nenhuma perspectiva.

A personagem de Edward Norton tenta preencher seu vazio com o consumo — torna-se, ao mesmo tempo, um estoico e um materialista. “Jack” encontra-se preso em um dos conceitos contemplados por Bauman em seu magnum opusModernidade Líquida” (Editora Zahar, 2001)— Torna-se um consumidor assíduo, porém sempre insatisfeito e infeliz. Isso é sintetizado em uma fala do narrador, aqui reproduzida parcialmente, tendo como referência o tratamento final do roteiro de Jim Uhls:

JACK: Como todo mundo, eu tinha me tornado um escravo do instinto materno da IKEA. […] Se eu visse alguma coisa sagaz, como uma mesinha de centro no formato de um ying-yang, eu tinha que ter. […] Eu folheava catálogos me perguntando ‘Que tipo de conjunto de jantar me define como pessoa?’. Nós costumávamos a ler pornografia, agora era a vez do catálogo da Coleção Horchow. […] Eu tinha tudo. Até louças de vidro com bolhinhas e imperfeições, prova de que elas haviam sido manufaturadas pelo povo indígena honesto, simples e trabalhador de… sei-lá-onde.” (Tradução Livre)

Agora, vejamos o que diz Bauman:

“O mundo está cheio de possibilidade, é como uma mesa de bufê com tantos pratos deliciosos que nem o mais dedicado comensal poderia provar de todos. Os comensais são os consumidores, a mais custosa e irritante das tarefas que se pode pôr diante de um consumidor é a necessidade de estabelecer prioridades: a necessidade de dispensar algumas opções inexploradas e abandoná-las. A infelicidade dos consumidores deriva do excesso e não da falta de escolha. […]”

- BAUMAN, Zygmunt. “Modernidade Líquida”, página 75.

O personagem principal de CLUBE DA LUTA está inteiramente imerso nesse cenário, e isso só muda quando ele conhece o vendedor de sabonete Tyler Durden (Brad Pitt), que senta ao seu lado em um avião. Após uma série de eventos improváveis, as vidas de Tyler e “Jack” acabam cruzando-se depois do voo, e a personagem de Brad Pitt vêm a pautar o restante de vida do narrador com sua filosofia de persuasão do inconsciente coletivo, violência física e destruição do capitalismo.

O “ponto de virada” do “2º Ato” do filme (Nomenclatura utilizada pelo teórico do cinema Syd Field em seu antológico “Manual do Roteiro” — Editora Objetiva, reimpressão de 2016) reside na descoberta feita pela personagem de Edward Norton de que Tyler nada mais é do que um fragmento de sua própria imaginação, uma personalidade alternativa na qual ele projeta uma versão mais proativa, fisicamente imponente, atraente e violenta de si mesmo. Uma representação icônica do homem pós-moderno angustiado, que se encontra tão insatisfeito consigo mesmo, prisioneiro de um mundo indiferente, que literalmente visualiza o que gostaria de ser em uma outra persona.

A última produção que utilizarei de exemplo para discorrer sobre o tema é o filme argentino MEDIANERAS: BUENOS AIRES NA ERA DO AMOR VIRTUAL (2011), que possui uma abordagem radicalmente diferente do mundo hipermoderno do que os demais exemplos supracitados, porém não menos relevante e tão válida quanto. Martín (Javier Drolas) é apresentado ao espectador como um web designer solitário que raramente sai de casa, viciado em videogames, que sente-se engolido pela imensidão urbana da metrópole na qual vive. Fica subentendido que a personagem possui alguma fobia social que o impede de interagir com o mundo exterior da forma convencional, e está em processo de recuperação. Mariana (Pilar López de Ayala) é uma jovem que, após o término de um relacionamento, encontra-se desmotivada e vê como único refúgio as paredes de seu apartamento. Mesmo morando no mesmo quarteirão, os dois não se conhecem, obstáculo que só é superado no desfecho da história.

MEDIANERAS fala sobre um ambiente urbano que faz mal às pessoas, sobre a dificuldade de comunicação no mundo atual e, principalmente, sobre como as inseguranças de um indivíduo muitas vezes o priva de prazeres simples e atividades que, normalmente, pareceriam banais e corriqueiras. As personagens da trama são vítimas desse ambiente opressivo e entristecedor que é a selva de pedra do século XXI.

A partir dessas três perspectivas é possível traçar um ponto de vista convergente: O de que a sociedade atual não faz bem para seus próprios habitantes. O homem pós-moderno é um consumidor compulsivo e infeliz, que está em constante luta interna e externa, batalha com um ambiente hostil de capitalismo globalizado nas regiões urbanas e, ao mesmo tempo, com seus próprios demônios. E como qualquer tipo de angústia, drama pessoal ou insatisfação, essa luta é transportada com maestria para as narrativas fictícias do mundo audiovisual.

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