Você realmente está preparado para enfrentar o Estado ?

Igor Rafi
Igor Rafi
Jul 10, 2017 · 6 min read

Perseguições, abusos e uma herança ruim podem te acompanhar.

Protesto Contra Tarifa em 2015.

O Estado, seja ele no âmbito capitalista ou socialista burocrata, é implacável na perseguição aos seus opositores, principalmente quando seus inimigos não seguem as regras ditadas por ele. Quando se incomoda de verdade, ainda que com poucos riscos para sua estabilidade de monopólio do controle, ele não tolera ser afrontado.

Mesmo que fundamentalmente o sistema econômico o controle, o Estado é quem dita das regras da perseguição em forma de governo para manutenção da ordem compulsória. Foi assim ontem, é assim hoje e será assim amanhã, ou, até que o seja derrubado.

Precisamente falando dos últimos 4 anos desse século, temos a prova de como um Estado, ainda que populista, é severo nas mais variadas formas de perseguição. Em 2013, quando de fato a gerência do governo PT, em um modelo à keynesianismo, sentiu os efeitos da pressão popular das Jornadas de Junho, e viu que não poderia ter o controle dos rebeldes- ainda que tivesse nas mãos as principais centrais sindicais e movimentos sociais, viu a chance de perseguir os manifestantes chancelando a repressão direta e indireta. Os governos estaduais estavam prontos para reprimir manifestações, o judiciário estava com a caneta afiada para julgar os opositores e os braços partidários do então governo estava com a língua solta para criminalizar aqueles afrontosos.

A partir de então foi aberta, mais uma vez, a caixa de pandora em uma escala escancarada. Não que já não tivesse sido usada, sempre foi em todos os governos, mas dessa vez era para conter uma ebulição popular que se alastrava pelo país.

INTIMIDAÇÃO PELAS VIAS DA LEI E FORA DA LEI DO ESTADO

Talvez um clichê, mas que sempre é utilizado por um monopólio de controle é a perseguição pelos tribunais a fim de minar qualquer prática que foi utilizada, ou, que ainda poderá ser usada. Pode começar na manifestação com colhimento de informações pessoais em abordagens policias, ou vasculhando as redes sociais esmiuçando qualquer tipo de comentários altamente perigosos. Quando menos se espera tem um oficial da Polícia Civil, com um ar de intolerante, na frente da sua casa te entregando uma intimação de comparecimento a delegacia. Foi assim com centenas de ativistas autônomos inclusos no inquérito 01/2013 o “Inquérito Black Bloc”, que os perseguiu por meio de coação de uma possível acusação judicial. O tal inquérito foi arquivado mas fora utilizado como intimidação por um longo tempo e um extenso banco de dados privilegiado dos anarquistas de São Paulo, e que certamente é utilizado até os dias atuais para o mapeamento dos movimentos autônomos. Assim, de 2013 com as Jornadas de Junho, passando pelo Não Vai Ter Copa em 2014 e chegando até 2016 com as ocupações dos secundaristas, a policia paulista deteve, perseguiu e coagiu mais de 400 militantes só no estado de São Paulo.

A chegada nos tribunais foi iminente com provas forjadas, falsos testemunhos, e opinião da imprensa afiada. Logo foi aplicada a pena de prisão preventiva e restrições de liberdade para dezenas de inimigos mais teimosos. No Rio de Janeiro 23 desses destemidos foram presos e até hoje respondem por acusações na época do Não Vai Ter Copa. Até mesmo seus advogados não escaparam e foram alvos acusações por juízes.

Quando as idas as delegacias e tribunais não funcionaram, a saída era colocar capangas atrás dos inimigos do Estado. Não é raro ver autônomos dizerem que foram seguidos após as manifestações, no Metrô, na rua e até mesmo em casa com carros de polícia em frente a suas residências. Todo esse trabalho se deu em um longo período nos anos mais acirrados dos últimos tempos.

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VIGILÂNCIA AO EXTREMO

Com críticas ou não, George Orwell foi feliz ao relatar a vigilância do Estado em seu livro “1984”, lançado em 1949. A teletela é hoje os celulares e computadores que são alvos de grampos e invasão. Assim como na obra de Orwell, a possibilidade de uma possível vigilância, mesmo não tendo, cria uma paranoia aos inimigos do Estado ao ponto de não poderem se desenvolverem e se organizar ações de militância. Nesses momentos partes daqueles grupos ficam ameaçados de dizer o que pensam, tendo um autopoliciamento do pensamento para não dar margem a possíveis acusações. Essa etapa é a mais desgastante pois no futuro poderá desencadear doenças da mente.

Os Estados Unidos é exemplo nesse tipo de vigilância. De acordo com a denúncia feita por Edward Snowden, e publicadas pelo jornalista Glenn Greenwald, em 2013, o governo americano utilizava da vigilância por meio de colhimento de metadados e mensagens de texto e voz para obter informações contra seus inimigos, utilizando o argumento de combate ao terrorismo e fazia chantagens pessoais. Eles vasculhavam a vida das pessoas, achavam algo que poderia ser um escândalo moral, como por exemplo pornografia, prostituição, traições amorosas, e ameaçavam as pessoas a largarem seus objetivos de ataque ao governo caso contrário dariam um jeito de publicar as informações e colocar o alvo em descrédito perante a opinião pública. No Brasil, ainda que não há relatos desse tipo de coação, há extensos casos de grampos à militantes autônomos em conversas pessoais, e grande parte publicadas nos jornais a fim de deslegitimar qualquer tipo de organização.

Manifestante presa em ato Contra Copa em 2014/ Capa do jornal Folha de São Paulo.

DOENÇAS PSICOLÓGICAS, ATRITOS FAMILIARES, DESEMPREGO

Não há um estudo que mostre o grau de doenças da mente adquiridas por militantes desde 2013. Não se tem como dizer que acontecimentos da militância tenham resultado em doenças. Mas, se você abordar grande parte dos autônomos que desde 2013 vem enfrentando os abusos do Estado, verá que a maioria sofre de depressão, transtornos de ansiedade, síndrome do pânico e tantos outros. Uma mistura de sensações podem contribuir, como sentimento de estar sempre em alerta nos atos, bombas da polícia, detenções com abusos físicos e psicológicos, intimações policiais, enfrentamento nos tribunais, sensação de estar sempre sendo vigiado e exposição na imprensa.

Não o bastante, conflitos familiares por discordância de métodos e ideologias são quase que regra. Os familiares, influenciados pelo senso comum propagado pela mídia, chegam até mesmo expulsar seus filhos tanto por medo de perseguição como por antagonismo de pensamento ideológico. Foi o caso do estudante Guilherme Silva Neto, que foi morto pelo próprio pai que discordava sobre sua militância e a ocupação de uma universidade em Goiânia.

Já casos como desemprego podem ocorrer diretamente ou não com o ativismo. Há casos de pessoas que aparecerem nos jornais e no dia seguinte foram demitidas sem uma explicação plausível.

Sendo assim, quando se escolhe lutar contra o Estado, você deve estar ciente das diversas circunstancias que pode lhe ocorrer, as vezes não tendo volta e na pior das hipóteses perder a sua vida em nome desobediência. É estar sujeito a ver sua vida virar de ponta cabeça, sem a chance de se defender e ver a opinião pública te julgando por você não se calar diante dos abusos e das amarras que vos prende. No fim das contas até que tudo isso pode valer a pena. Saber que não se curvou diante dos desmandos de uma personificação autoritária, sanguinária, cruel e implacável pode ser demasiado bom.

Igor Rafi

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Igor Rafi

Estudante de Direito e paulista.https://www.facebook.com/igor.gugao

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