Não importa, você tem um emprego

Quando se nasce com predisposição para um tipo de coisa, o certo a se fazer é deixar essa coisa de lado e ir fazer outras coisas, certo? Certo. Para a maioria. As pessoas não entendem que tudo que fazemos na nossa vida necessita tempo, dedicação, esforço, energia vital, apoio e, principalmente, vontade. Quando você chega para um jogador de futebol e diz que ele precisa arrumar um emprego em uma empresa, trabalhar 8 horas diárias e ganhar um salário baixo para que ele possa manter o sonho de ser atleta vivo, você está matando esse sonho e esse atleta. Como esse atleta vai treinar? Não importa, ele tem um emprego. Como esse atleta vai subir de nível no esporte? Não importa, ele tem um emprego. Esse atleta está com sua saúde mental fraca, com um leve indício de depressão clínica. Não importa, ele tem um emprego. Para muitas pessoas, isso basta, para outras, como esse atleta, não.
Usei o atleta como exemplo porque, assim como a arte, o esporte não é valorizado como deveria, a concorrência é grande, e quando se tem um trabalho paralelo é impossível manter um bom rendimento. Eu sou artista, pelo menos para algumas pessoas, pois para alguns, comédia nem é arte. A comédia não é valorizada por um mercado de trabalho, não é valorizada como arte, e não é valorizada pelos próprios comediantes, muitas vezes.
Para que eu possa criar um bom material para apresentar nos meus shows, eu preciso de alguns elementos como: vivência, observação, dúvidas, raciocínio, atenção ao que está acontecendo no mundo, e tempo para sentar a bunda na cadeira e escrever. Tudo isso demanda aquilo que falei sobre o jogador de futebol: tempo, dedicação, esforço, energia vital, apoio e vontade. Na maioria das vezes, eu passo uma tarde ou noite inteira para escrever menos de 5 minutos de material novo, e estando ocupado com trabalhos paralelos eu escreveria, sei lá, 1 minuto, ou nem escreveria, que é o mais provável. Quando você tem um emprego, que não é o emprego que você almeja, você sente vontade de voltar pra casa antes mesmo de sair. Acorda xingando, não tem vontade de fazer mais nada. E quando seu salário cai na sua conta, você gasta com consolos para aliviar aquela angústia. Você pensa:
“Eu trabalho o dia inteiro, acordo cedo, volto pra casa exausto. O mínimo que eu mereço é gastar com coisas que eu gosto.”
O que são as coisas que você gosta? Coisas que vão te prender mais tempo naquele emprego horrível que você tanto quer se livrar. Um carro financiado em 4 anos, um apartamento alugado, roupas novas em lojas caras, entre outras coisas que, de certa forma, te consolam por algumas horas, ou até dias, mas você volta a ficar frustrado, porque não se passaram nem 10 dias e a sua conta bancária já está zerada de novo, porém, as cobranças continuarão vindo e você sabe que tem que ficar ali trabalhando para pagar.
Enquanto isso, o seu sonho de ser jogador de futebol, comediante, cantor, astronauta vai se afastando e, conforme você vai ficando mais longe daquilo que sempre sonhou, as pessoas vão dizer para você que faltou esforço. Essa é a hora que bate uma profunda raiva misturada com frustração e decepção, e você fica mais apegado àquele salário porque tem que gastá-lo com remédios para se manter são. Sua mente já não é mais a mesma, sua saúde fica frágil, mas você tem que estar bem, afinal, você tem um emprego.
De repente, a equipe que treinava futebol com você é escalada para um grande campeonato que pode levá-la ao topo. Seu grupo de comédia assina um contrato com alguma produtora grande, entretanto, você não está lá. Não porque não quer, mas porque não pode. Você não está fisicamente apto, você estava comendo mal para esquecer o gosto amargo da insatisfação da vida profissional. Você não escreve um material novo há meses, suas piadas não funcionam mais, já estão velhas. Ninguém vai querer contratar um jogador fora de forma ou um comediante sem graça. Mas não importa, você tem um emprego. Aí você chega em casa, liga a televisão, abre o YouTube e vê sua equipe ganhando vários jogos, seu grupo fazendo shows e recebe uma mensagem dizendo:
“Olha, poderia ser você! Por que você não está lá? Não era seu sonho?”
E você, mais triste do que nunca, responde: NÃO IMPORTA, EU TENHO UM EMPREGO.
Algumas pessoas não são fortes o bastante para suportar e, às vezes, tomam medidas drásticas para acabar com a frustração diária. Conheço casos de pessoas que tinham o emprego dos sonhos de muita gente, mas que não era para essas pessoas estarem ocupando esse cargo, e resolveram acabar com tudo. Quando você chega no seu limite e toma a decisão de acabar com tudo, as pessoas, que nunca te apoiaram de verdade, ou que sequer sabiam da sua verdadeira vocação, vão chegar para outra pessoa e dizer que tem uma vaga nova de emprego, e a chance de um outro jogador, comediante, cantor pegar esse emprego é muito grande. O ciclo vai se repetir. E assim, dessa terrível maneira, vamos matando os sonhos das pessoas em troca de dinheiro. Dinheiro que vai para consolos que irão estragar a sua vida até que ela deixe de existir.
Trabalhe até morrer ou morra de trabalhar. Você escolhe. Porque se você deixar alguém escolher por você, vão escolher os dois, e qualquer um já é horrível. Seu Madruga já dizia: “não existe trabalho ruim, o ruim é ter que trabalhar". Sempre gostei dessa frase, mas acho que todo trabalho que você não quer desempenhar é ruim. Se você pudesse dizer a verdade no seu currículum, o que você escreveria? Se eu pudesse dizer a verdade no meu, este, com certeza, seria o título:
“Preguiçoso, introspectivo e sarcástico. Por favor, não falem comigo.”
