Como ter a sorte ao seu lado

Igor Teo
Igor Teo
Jun 14 · 5 min read

Frases motivacionais dizem que nós criamos a nossa própria sorte, e que o destino depende apenas de nossas próprias escolhas. No entanto, os antigos pensavam que o acaso tinha um grande papel em nossas vidas.

Na antiguidade clássica, os gregos atribuíam o destino a fortuna. As tragédias — como Édipo e Antígona — são histórias em que o destino do homem é controlado por forças maiores do que ele mesmo. Vemos que quando se tenta escapar das profecias do oráculo ou das leis dos deuses, é quando se enreda ainda mais naquilo que não se pode evitar.

O que tais histórias revelam é que não são apenas nossas ações que criam o nosso mundo, mas dependemos de fatores externos e fora de nosso controle, como a simpatia de outras pessoas, a situação política e econômica e a imponderabilidade do tempo. Ou até mesmo do acaso. Algumas vezes temos boa sorte, outras não.

Se somos sujeitos a variáveis que não podemos dominar, somos sujeitos à imprevisibilidade. E tudo que foge ao nosso controle se torna comumente motivo de tormento, seja por angústia de antecipação ou por sua ocorrência de fato.

A partir da técnica, o homem começou a medir, controlar e prever as insurgências da natureza. Através do avanço do conhecimento científico e tecnológico, buscamos diminuir a influência da sorte sobre nossas vidas. Tentamos circunscrever o mundo a um fenômeno conhecido e domesticado. Chegamos ao ápice na modernidade, quando o homem se crê senhor de seu próprio destino porque não vemos mais limites à técnica, e pensamos que com ela tudo podemos “solucionar”.

No entanto, não existe algoritmo para encontrar um amor no momento certo, nem toda ciência do mundo sabe como se comportará a economia no próximo mês. A medicina não pode curar todos os males, e sequer podemos evitar um acidente que não imaginamos como acontecerá. Por mais que a técnica tenha expandido o nosso universo de segurança diante do imprevisível, ainda existem muitas dimensões fora do domínio humano. E nelas estamos sujeitos à sorte ou ao azar.

Refletir sobre isso nos traz certa humildade. Poder, glória, dinheiro, beleza. Não podemos nos vangloriar de nada disso, pois não sabemos o que a deusa Fortuna guarda para nosso futuro.

Foi como uma tentativa de lidar com aquilo que está fora de nosso alcance, sendo motivo de sofrimento, que surgiu a discussão ética na filosofia antiga.

Segundo Platão, quando depositamos nossa felicidade em coisas como beleza ou status, estamos depositando nossa condição de vida em valores transitórios, que dependem da boa sorte. É óbvio que vamos sofrer quando essas coisas já não forem mais presentes. Deveríamos encontrar a boa vida em valores perenes, como nas virtudes de caráter, que não cessam com a mesma facilidade.

Na filosofia platônica, a felicidade e o bem viver independem da sorte. Um homem virtuoso pode ser feliz na riqueza ou na pobreza, na saúde ou na doença, porque encontra em si as condições para sua própria felicidade. Mesmo sob tortura injusta, como aconteceu com Sócrates, o homem de bem se manteria fiel aos seus princípios e inabalável em seu temperamento.

Platão buscava no mundo interior restringir as influências do mundo externo sobre nosso bem viver. Já Aristóteles, seu discípulo, discordava do mestre e não acreditava que a eudaimonia — isto é, estar habitado por um “bom gênio” — era uma qualidade interna e que podia resistir a qualquer oposição do mundo externo.

Para Aristóteles, a boa vida dependia da boa sorte. Mas isto não quer dizer que algumas pessoas são simplesmente sortudas enquanto outras não. O que Aristóteles queria dizer com isso é que ninguém seria realmente feliz sob tortura, por exemplo, pois dependemos de condições externas para nos sentirmos bem, tais como o encontro com a boa amizade e o amor.

Mas tampouco podemos pensar que os fatores externos são suficientes para nossa felicidade. Todo o dinheiro do mundo não traria nenhum proveito a alguém que não soubesse utilizá-lo com sabedoria. Já o poder é muitas vezes motivo para corrupção e infortúnio. O que julgamos como boa sorte pode se tornar presságio para desgraça.

O que Aristóteles entendia é que dependemos de fatores externos para exercer as virtudes e qualidades que nos levam a uma boa vida. Isto é, ninguém nasce simplesmente virtuoso, mas nossas ações nos tornam assim. Ter uma experiência numa situação externa de escassez, por exemplo, poderia ser o momento ideal para exercermos nosso senso de justiça repartindo bem as riquezas.

Ou seja, a sorte do mundo externo não define por si só as nossas vidas. Mas aquilo que fazemos em face dela nos torna capazes ou não para encontrar uma boa vida. Ganhar na loteria não nos faria mais felizes, mas a maneira como usamos o dinheiro sim. Descobrir uma doença pode não ser tão terrível se encontramos nela uma forma de criar laços melhores com a nossa vida e as pessoas ao nosso redor.

A sorte faz a ocasião, a ação uma oportunidade. A sorte tem um grande papel sobre o que nos pode acontecer, mas são as nossas ações, realizadas num momento de boa sorte ou de má sorte, que podem levar nossas vidas a serem habitadas por “bons espíritos”.


Igor Teo é psicanalista. Formado em Psicologia e Mestre em Psicanálise pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Para mais conteúdo e contato, acesse o seu site.

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