Não É Tudo Sexo Para Psicanálise

Entenderam Freud errado.

Há a crença tanto no senso comum quanto nos ambientes mais intelectuais que na Psicanálise tudo acaba como uma interpretação de natureza sexual. Isto é, que independente do que digamos ou façamos estamos sempre no fundo “pensando naquilo”.

O que é uma má compreensão ou uma leitura apressada de Freud e da Psicanálise. Se alguns pensam que o ato sexual é o horizonte último de significação de nossas experiências, é preciso dizer que a revolução do pensamento freudiano consiste exatamente no oposto.

Era o universo ideológico pré-moderno que sexualizava tudo, concebendo a estrutura básica do cosmos como a tensão entre os princípios masculino e feminino (yin e yang), tensão que se repete em diferentes níveis: luz e escuridão, céu e terra etc. Uma ideia muito discutida no misticismo oriental.

A realidade aparece como a copulação desses dois princípios espirituais, uma conjunção das polaridades. O que Freud efetuou em termos filosóficos foi a dessexualização radical do universo.

A psicanálise advém justamente no momento histórico de “desencanto” do homem moderno com o universo. A partir da modernidade, a realidade deixa de possuir um sentido espiritual para constituir uma multiplicidade de eventos contingentes sem um significado maior.

Você pode ler mais sobre a questão do desencanto do mundo moderno no meu texto “O problema do niilismo: o mundo da razão

Neste sentido, até o próprio sexo precisa encontrar o seu significado.

O conceito freudiano de fantasia aponta justamente nesta direção. A questão não é o que estamos realmente pensando quando fazemos outra coisa qualquer, mas o que estamos pensando quando “fazemos aquilo”.

O quê necessitamos para desfrutar do sexo?

Diferente dos outros animais que parecem se satisfazer com a simples cópula, nós humanos sempre nos apegamos a algum detalhe “perverso” para gozar do ato sexual: seja um aspecto característico do corpo do amante, uma peculiaridade de como, com quem ou do lugar que estamos fazendo sexo, ou até mesmo um olhar imaginário que estaria nos observando durante a performance.

Mais justo seria dizer que, para a Psicanálise, o sexo é sempre uma outra coisa.

Se vemos a possibilidade de erotismo e conotação sexual em tudo, é porque no fundo necessitamos de uma fantasia para lidar com a própria realidade sexual estranha a si mesma.


Igor Teo é psicanalista. Formado em Psicologia e Mestre em Psicanálise pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Você pode encontrar mais conteúdo e entrar em contato consigo através de seu site.

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