O “Mercado” e a Crise de Saúde Mental

Igor Teo

O mundo enfrenta hoje uma crise de saúde mental.

Nunca foi tão necessário falar sobre isso. Diagnósticos de ansiedade e depressão se multiplicam por aí ao mesmo tempo em que as pessoas buscam soluções das mais diversas: terapias, análise, medicamentos, coaching, grupo de apoio, meditação…

Mas não adianta. A realidade tem demonstrado que a crise não está sendo contida.

Não é suficiente apenas aumentar a demanda por saúde mental para dizer que vamos solucionar o problema. Não é aumentando o número de psicólogos, terapeutas, analistas, psiquiatras, instrutores de mindfulness ou “facilitadores” que vamos resolver o problema, porque isso já virou comércio.

Hoje saúde mental é um produto. E de luxo. Existem milhares de fórmulas, receitas, métodos, terapias, profissionais dispostos a mudar sua vida. É um mercado em crescimento. O problema não está em questionar se vai ser um mercado esgotável ou não, mas se estamos realmente tocando no problema desse jeito.

A saúde mental tem a ver com o modo de vida que levamos. Não faz sentido falar em saúde mental em um tecido social doente.

E hoje padecemos da desconexão com os ciclos da natureza, da falta de contatos afetivos reais com outras pessoas, da política de indiferença, da desconfiança da justiça em nossas instituições, de um mercado neoliberal competitivo e objetificante que funciona a base de expectativas surreais.

O mundo não está pensado para a sua saúde mental, e ele nunca foi. Mas tampouco podemos dizer que hoje ele existe indiferente a isso. Parece que o mundo foi pensado para lhe fazer sofrer. Para lhe tornar a cada dia um pouco mais miserável do que você já é.

Acreditamos que a tecnologia ia resolver todos nossos problemas no mundo moderno, mas o que ela fez realmente foi aumentá-los. Fomos inocentes em pensar que um mundo mais conectado e prático ia ser mais fácil, quando as ferramentas técnicas amplificaram as facilidades na mesma medida em que multiplicaram as maneiras que temos para destruir e causar danos uns aos outros.

O mundo técnico-científico colocou uma lupa em nossos medos e jogou tudo na nossa cara.

Com tanta debilidade exposta, não adianta achar que o remédio vai resolver. Ou que a bebida vai resolver. Não adianta nem achar que a terapia vai resolver. Digo isso como psicólogo e mestre em psicanálise. Porque fui formado como profissional de saúde mental, e não como marketeiro.

Não pense que a vida vai quebrar em frangalhos, e depois a terapia vai colar tudo direitinho. Precisamos parar com expectativas irreais de cura. A terapia é necessária, é fundamental, mas é só o começo do cuidado. O mesmo vale para o remédio, o grupo de apoio, a meditação, ou a palestra motivacional da empresa.

Precisamos começar a pensar num cuidado intersectorial. Um cuidado que não seja apenas remendar pontos, dizer algumas palavras motivacionais para viver essa vida difícil mesmo, mas pensar numa profunda renovação desse modo de vida que já se mostra insustentável.

Isso começa parando com as histórias individualistas de superação. De alguém que vai se “consertar” sozinho e passará a desfrutar da vida de outra maneira. Este produto é feio. Ninguém consegue ser realmente feliz sozinho. Precisamos criar um outro modo de organizar a vida em coletividade.

Não há saúde mental individual possível quando todo demais joga contra nós. Precisamos recriar laços de confiança, apoio e solidariedade. E isso não é um “produto”, é um cuidado.

Igor Teo

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Igor Teo

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