O que faz a vida valer a pena?

Tão importante quanto água, alimento e abrigo, precisamos de significado para viver. Mesmo quando temos todas as coisas que julgamos necessárias, mas falta um sentido para elas, nos sentimos angustiados.

Kierkegaard, filósofo existencialista, entendia que existem três saídas possíveis (e também fracassadas) para a angústia: os caminhos estético, ético e religioso. Cada um deles representa uma forma de significar a vida e responder à questão: o que faz a minha vida valer a pena?

O caminho estético (do grego aisthésis, sensação) é a resposta através de experiências prazerosas. Qual o sentido da vida? Ser feliz.

Desde sexo e comida a viagens e romances. Uma vida que vale a pena é aquela que você desfruta ao máximo. Conhece outros países, namora pessoas fantásticas, dirige um carro de alta potência, pula de paraquedas, se diverte com os amigos, frequenta as melhores festas, tem um corpo muito belo e sarado, e por aí vai. A vida deve ser uma aventura emocionante.

O problema, no entanto, é que a busca pelo prazer é um saco sem fundo. Por mais que você encontre experiências prazerosas, sempre haverá outra coisa igual ou mais satisfatória que ainda pode ser realizada.

Se você gosta de viajar e já conhece bem o Brasil, talvez o próximo destino seja a Europa ou a América Latina. Depois deles, quem sabe o Vietnã ou o Camboja. O mundo é enorme e rico em opções. Qual o limite? Sua condição física e financeira para sustentar tudo isso.

E se um homem busca os prazeres do amor nas mulheres, talvez ele até se satisfaça com uma. Porém ávido por mais satisfação, encontrará prazer também com uma outra. E depois numa outra diferente ainda. Como um Don Juan, deseja conquistar todas as mulheres possíveis, mas ainda assim termina se sentindo entediado porque nenhuma delas foi capaz de oferecer todo o amor e prazer que incessantemente busca.

A aventura estética eventualmente irá se deparar com alguns limites. O limite do seu corpo. O limite de seu dinheiro. E mesmo que você tenha uma vida financeiramente abastada que lhe permita desfrutar de muitas coisas, descobrirá que, se tudo pode ser prazeroso, nada é realmente satisfatório. Sempre parecerá que há algo mais a ser buscado, porém nunca encontrado.

O segundo caminho é o ético. Nele estão todos aqueles que buscam um significado para a vida através de valores. Ser uma pessoa boa, justa e honrada. Trabalhar, cuidar da família e dos amigos. Adquirir um patrimônio. Viver uma vida honesta e autêntica.

Quem segue esse caminho geralmente procura um trabalho com propósito. Algo que possa fazer para melhorar a si mesmo ou tornar o mundo um lugar melhor.

Essa pessoa entende que a vida motivada apenas pelo prazer pode ser efêmera e frívola. Então buscam manter uma rotina mais comedida. Desejam estabelecer vínculos mais sólidos e profundos. Querem cuidar e serem cuidados por quem amam.

O fracasso do caminho ético está em seu desacordo com o mundo. Os acontecimentos da vida não obedecem ao senso de justiça humana. Ser uma pessoa boa não livra ninguém de um acidente infeliz, sofrer uma violência injusta, perder algo que valoriza, ou até ser mal compreendido pelos outros.

Ser virtuoso pode realmente tornar o mundo melhor. Mas, ainda assim, isso não muda o fato que o mundo nunca foi um lugar seguro. Infortúnios podem acontecer conosco independente de nossa moralidade. Quem escolhe o caminho da virtude deve fazê-la por si mesmo, sabendo que isso não se trata de nenhum tipo de garantia ou recompensa. Apenas uma aposta. Ou se sentirá sempre frustrado.

O terceiro caminho é o religioso. A pessoa busca numa crença espiritual o conforto e o amparo para suas angústias. Por vezes de maneira radical e fundamentalista, porém não necessariamente.

O religioso encontra no dogma um significado para sua vida que apazígua as suas angústias. Acredita, por exemplo, que Deus ou o Universo recompensará seu sofrimento e seus esforços no futuro. Ou mesmo que as dificuldades pelas quais está passando possuem um propósito teológico.

Para Kierkegaard, o fracasso deste caminho está em abrir mão da sua liberdade pessoal quanto a crenças e escolhas diante do caráter doutrinador da religião. Se a liberdade pode ser muitas vezes angustiante, a verdadeira fé para Kierkegaard não deveria ser sem angústia. Uma fé assumida com liberdade pressupõe que a religião não deve servir como barganha e consolo, mas um legítimo caminho espiritual sem garantias.

Em nossas vidas, nunca estamos em apenas um desses caminhos. Transitamos por eles através de diferentes experiências.

As redes sociais, por exemplo, incentivam nossas experiências estéticas. Estamos assistindo e querendo compartilhar fotos de belas paisagens, momentos de felicidade em vídeos, nosso status de relacionamento. Enfim, queremos contar ao mundo que sabemos desfrutar da vida. Que não temos uma existência banal e também podemos ser invejáveis dentro de um filtro perfeito.

Do mesmo modo, o mundo moderno, mais conectado, consciente e preocupado com o bem-estar das pessoas criou em nós a expectativa de não apenas conseguirmos encontrar um trabalho qualquer para nos sustentar até o fim da vida. Sentimos que precisamos encontrar um propósito para ele. Fazer algo que amamos. Mais do que um trabalho, precisamos de uma experiência ética. Mudar o mundo. Seja lá como se faz isso.

A religião dogmática dos nossos pais, por sua vez, já não faz mais sentido para nós. Precisamos de uma experiência de espiritualidade sem religião, algo que ultrapasse culturas, desperte nossa autenticidade e nos conecte com algo maior.

Tudo que eu descrevi até agora foram clichês modernos que certamente já lhe tocaram em algum nível. Mas o que realmente podemos aprender com isso?

Todos os caminhos descritos por Kierkegaard fazem parte da nossa vida em alguma medida. Precisamos conseguir desfrutar de nossas experiências e sentir felicidade; é importante encontrar uma maneira ética de viver com as outras pessoas para nos sentirmos conectados com elas; e algum tipo de fé sobre a existência é o que nos sustenta (ainda que seja uma fé ateia).

Mas nada disso garante que não iremos nos angustiar. Porque as angústias fazem parte da vida na medida em que todo caminho comporta seus paradoxos e impossibilidades.

É nesse momento em que todas as fórmulas prontas sobre a vida fracassam que se descobre o seu sentindo mais profundo. Que o único caminho possível é aquele que, com seus próprios recursos, você pode criar para si.