Os Críticos da Ideologia

Igor Teo
Igor Teo
Sep 22 · 3 min read

Hoje está na moda criticar a ideologia. Do outro.

Vídeos sensacionalistas, imagens compartilhadas nas redes sociais de procedência questionável, artigos em sites e jornais querendo descontruir as “mentiras” da oposição.

Direita contra esquerda, esquerda contra direita. Liberais contra estadistas, conservadores contra justiceiros sociais, progressistas contra reacionários, social-democratas contra anarcocapitalistas.

O debate político nunca foi tão diversificado e bélico.

No embate ideológico, o adversário não é pensado como um outro eu, um outro agente político, mas como um aparato da oposição que opera um mecanismo de resistência ao meu projeto social, tornando-o ao mesmo tempo um sujeito desprovido de liberdade e culpado por seus equívocos e ilusões.

Criticar a ideologia do outro não significa simplesmente “bater” no adversário, apontar a discordância. É necessário ir mais além. A luta política é encarada como uma atividade militar: é preciso abater o adversário pelos flancos, decapitar suas linhas de comando, descobrir as suas verdadeiras intenções na batalha.

E “descobrir” significa demonstrar a sua falsa consciência.

Uma crítica bem realizada imita um procedimento cirúrgico. O adversário precisa ser seccionado diante dos olhos de todos, de modo que suas entranhas venham à tona. As camadas superiores da pele devem ser afastadas, revelando os filamentos nervosos do seu ser patológico.

O crítico não está empenhado em trazer para o seu lado o adversário após a sua vivissecção. Não lhe importa o corpo vivo. Ele deseja o cadáver, a prova bibliotecária de sua vitória intelectual. O outro deve ser reduzido simbolicamente a um defunto, demonstrando que não havia ali nenhuma alma, nada além de uma falsa consciência.

Argumenta-se pelas costas do adversário, mas também através de sua cabeça, de suas ideias. O estilo da argumentação crítica da ideologia é o desmascaramento.

Tal estilo comporta uma hermenêutica. Há a pretensão de compreender um “autor” melhor do que ele mesmo se compreende. O que poderia soar de início uma arrogância filosófica é logo metodologicamente justificado. De fato, o outro percebe com frequência coisas em mim que escapam à minha própria consciência. E vice-versa.

Na análise do outro há a vantagem da distância. Porém, para uma verdadeira análise do outro, o diálogo deveria acontecer… diálogo este que é ausente na crítica.

A crítica da ideologia transforma a descoberta da verdade na mania de sempre ter razão.

E como as redes sociais e a internet potencializam isso!

O crítico da ideologia se vê diante da consciência adversária como um patologista. Ele pode dizer de maneira precisa qual perturbação doentia afeta o adversário em seu engano, sem que jamais tenha que se dedicar com isso a uma terapêutica. Assemelha-se a um médico corrompido pela profissão, que se interessa mais pela doença que pelo seu paciente.

Este é o fracasso do debate (supra) ideológico que nossa sociedade mergulhou.

Igor Teo

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