Para Quando Estiver Perdido

Eu sou psicanalista. Se você não conhece, meu trabalho é parecido com um barqueiro. Quase todos os dias estou acompanhando algum cliente em sua viagem.

Mas não sou chamado a qualquer hora. Aproximo-me quando há um desastre.

Vou me explicar.

Etimologicamente, desastre significa sem estrelas (des-astrum). Antigamente, quando não haviam estrelas no céu para nossos antepassados se guiarem, isto podia ser um verdadeiro desastre. Eles estavam perdidos.

Viver é confrontar-se com muitos desastres. Momentos em que não sabemos o que nos atinge, o que podemos fazer com isto ou para onde ir. Mas acreditem, não saber é uma considerável vantagem neste momento.

Quem possui todas as respostas para si desde sempre é apenas alguém que não pensou o suficiente sobre elas. Como um barco que corre por um canal estreito, reduzido pela correnteza e sem grandes possibilidades de navegação.

Qualquer caminho mais interessante faz nos perdermos, não uma, mas várias vezes.

E o que fazer quando estamos perdidos?

Perceba.

Pedir para alguém perceber algo é uma grande violência. Normalmente nossa primeira reação é negar o que há. Não queremos ver o que está diante de nós. Porque perceber dói.

Perceber algo significa estar sensível a isso. Deixar que nossos sentidos possam tocá-lo ou serem tocados.

Sensibilidade é vulnerabilidade.

É por isso que os momentos anteriores a um importante insight em nossas vidas, geralmente seguidos por uma transformação, costumam ser um período de grande angústia, insatisfação e desconforto. Trata-se de um processo que evidentemente já está em curso, mas ainda é demasiadamente confuso para entendermos.

Se pudéssemos escolher, talvez preferíamos saltar todo o sofrimento e ficar apenas com o bom resultado. Só que não é possível, já que a própria alquimia deste processo que cria o nosso ouro, a nossa arte final.

Aprender a ver, portanto, é qualquer coisa menos um processo racional, ativo e consciente. Antes, é um deixar que alguma coisa aconteça ou expor-se a um acontecimento.

Necessitamos assim de um tempo para sentir e refletir. Ser atingido. Pois sem ferida não há verdade. Não há sequer uma verdadeira percepção.

Então finalmente há a percepção, a apreensão pelos sentidos daquilo que faltava — estivesse ali desde antes ou não.

Assim reencontramos o novo céu, e nele as estrelas para seguir viagem.


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