Podemos Confiar na Civilização? — Sobre o Fim de Nossa Sociedade

Vivemos confiantes de que o progresso é constante. Ainda que a sociedade enfrente dificuldades e retrocessos, acreditamos que o saldo final é “para frente”.

Mas será que realmente podemos nos fiar na ideia de que a história é um acúmulo de conhecimentos e que estamos marchando, ainda que lentamente, a um mundo melhor?

Se procurarmos na história da humanidade alguma evidência disso, talvez fiquemos incomodados.

Primeiro, porque de incontáveis povos, sociedades e civilizações que já existiram no mundo, temos registro de uma porcentagem ínfima.

O que chamamos de civilização se refere a uma história muito específica, e também muito recente. Falamos da história europeia, ocidental, de tradição greco-romana e influência cristã. E isso não é muito mais que dois mil anos.

Nossa noção de progresso e evolução se refere a esses dois mil anos mal preservados de história e ciência. Mas será que toda humanidade realmente culmina no que vivemos hoje… ou vivemos uma cegueira de oportunidade, já que conhecemos muito pouco sobre outras sociedades?

Nossa espécie surgiu há cerca de 350 mil anos na região leste da África e acredita-se que adquiriu o comportamento moderno há cerca de 50 mil anos.

Não sei vocês, mas isso sempre me pareceu fantástico.

Há ao menos 50 mil anos de história social e não sabemos praticamente nada sobre isso. Os registros mais antigos da civilização chinesa, por exemplo, ainda que mitológicos, não se referem a algo mais que 10 mil anos atrás.

A historiografia usual nos faz pensar que essas civilizações anteriores eram rudimentares, incapazes de ter acesso aos instrumentos e conhecimentos que temos hoje. No entanto, quanto mais vestígios antigos são encontrados, menos resiste a ideia de que somos tão superiores aos nossos antepassados.

Será que as antigas sociedades eram tão rudimentares assim? Vejamos.

O pensamento chinês de séculos antes de Cristo já discutia questões sobre linguística e metafísica que nossos pensadores ocidentais somente agora estão considerando. Inclusive, a China carrega consigo uma verdadeira história de cultura milenar.

Se rodarmos o globo terrestre, a construção de grandes monumentos, como as Pirâmides do Egito, ainda permanecem um mistério para nossa ciência se pensamos que esses povos contavam apenas com instrumentos rudimentares.

Aliás, o Antigo Egito é formidável. Cirurgias para tratar lesões físicas já eram praticadas no Egito séculos antes de sequer existirem filósofos na Grécia. Enquanto no mundo ocidental, durante a Idade Média, pouco se conhecia da anatomia humana, pois a Igreja Católica proibia a profanação de corpos humanos para seu estudo. Isto nos faz questionar se estamos realmente sempre progredindo.

É difícil fugirmos da especulação nesse campo, sobretudo porque o tempo não nos poupou muitas informações. Esta é a grande dificuldade de lidarmos com a memória. Ela facilmente se perde.

Se entre duas ou três gerações talvez você já desconheça a maior parte de quem foi ou de onde veio a sua família, imagina o que alguns séculos podem fazer com comunidades inteiras?

Atualmente nós temos museus, bibliotecas e exposições para tentarmos preservar o que restou da história, mas a memória é ainda assim muito frágil. Recentemente, o Museu Nacional do Rio de Janeiro (Brasil) sofreu um incêndio, perdendo com ele séculos da história latino-americana. Coisas como registros na linguagem indígena que nunca mais serão escutados. Apagados do mundo.

Isso se assemelha à Biblioteca de Alexandria, considerada um dos maiores centros de saber da Antiguidade. Acredita-se que ela abrigava num tempo ANTES DE CRISTO entre 400 e 700 mil volumes. Destruída também num incêndio, nunca teremos acesso ao que diziam essas milhares de obras. É de doer o coração.

Não apenas obras e conhecimentos antigos se perdem com o tempo, mas civilizações inteiras também. Houveram sociedades complexas e avançadas, em que as pessoas viviam seus dias tão habitualmente como nós vivemos os nossos hoje, que simplesmente desapareceram.

Vejamos algumas:

A sociedade Olmeca, cultura pré-colombiana, já tinha sua economia baseada de forma avançada no comércio, e mesmo assim desapareceu por volta de 400a.C.

Os Harapa, a Civilização do Vale do Indo, existiu a milhares de anos atrás numa região que ocupa hoje o Irã, o Paquistão, a Índia e o Afeganistão. Chegou a contar com uma população de 5 milhões de pessoas! A sociedade desapareceu deixando para trás edifícios e cidades pavimentadas. Aparentemente uma vida urbana não foi suficiente para garantir sua sobrevivência.

Mas o melhor exemplo talvez sejam os Maias. Além de engenheiros habilidosos, tinham conhecimentos de matemática (dominavam o conceito de zero muito antes dos europeus) e faziam uso de sofisticados calendários, arte e escrita. E sua civilização também pereceu.

Conquistados por menos sofisticados

Por mais grandiosa que seja uma civilização, isto não garante sua permanência. O Império Romano, uma das sociedades mais avançadas que já existiram em termos políticos, filosóficos e sociais, conquistou diferentes continentes numa época que sequer haviam meios de comunicação e transporte como hoje temos.

Muitos acreditavam que por conta disso o Império Romano seria eterno. Mas por corrupção e problemas internos, Roma não conseguiu resistir a invasões e foi conquistada por povos — digamos assim — menos sofisticados.

Como tal Império, possuidor de grande ciência, filosofia e engenharia, foi à falência e se tornou frágil diante de civilizações bárbaras?

O mito de Atlântida pode ter algo de verdadeiro. Há muitas lendas e fantasias, mas a ideia de que sociedades avançadas — ainda que não do mesmo jeito que a nossa — podem ter falido e desaparecido da história por problemas internos não é tão estranha.

Através de registros escritos e orais, sabemos da existência de civilizações complexas nos continentes americano, africano e asiático, mas que o tempo não nos poupou suas memórias.

A humanidade estaria assim fadada ao que Isaac Asimov nos mostra em sua trilogia Fundação. Do mesmo modo que algumas pessoas são capazes de se dedicar a produzir conhecimento e ciência, outras pessoas — por vontade de poder e usura — se utilizam da brutalidade para conquistar e destruir isso.

Em toda sua história, o ser humano construiu um saber. Conhecimentos sobre o mundo, a existência, sobre si. Discussões sobre ética, a natureza e a sociedade estão presentes em todos os registros humanos que nos restam. E ainda assim essas sociedades foram destruídas por corrupção, guerras e sectarismo.

Parece que, por mais que nos dediquemos à cultura e nos esforcemos para criar um mundo melhor, ainda terminamos sendo humanos brigando tribalmente. Assim que sociedades florescem, alcançam alto grau civilizatório e depois entram em declínio. Desaparecem ainda junto com elas seu conhecimento.

Como a civilização se mostra tão incapaz de proteger seu bem mais valioso?

Penso que, de um lado, há o desejo de saber, entender e fazer as coisas funcionarem. Do outro, o desejo de dominar e tomar o melhor para si.

Hoje nós temos tecnologias muito avançadas, como celulares, computadores e internet, e nos achamos muito evoluídos e sofisticados por conta disso. Mas essa mesma tecnologia criada para facilitar a nossa vida também vemos sendo utilizada por empresas para explorar seus empregados, por governos para controlar a sua população, por ideologias para cooptar e ameaçar a oposição.

Em resumo, ainda que em todos os tempos hajam filósofos no sentido grego, os amigos do saber, existem também os inquisidores.

Os inquisidores, tal como os medievais, são aqueles que temem a liberdade de expressão e pensamento. Eles não desejam que as pessoas utilizem o saber e questionem sua autoridade. Preferem manter o conhecimento controlado e para si, de modo a permanecerem no poder. Por isso perseguem, humilham e punem quem ousa questionar.

De certo modo, a Inquisição sempre vence. Porque ela é mais humana. Ela se vale do medo das pessoas do diferente e do desconhecido. Os inquisidores prometem ordem num mundo estranho e perigoso, ainda que sob o preço da liberdade.

É assim que a humanidade escolhe a ignorância ante o conhecimento.

Porque a ignorância nos dá uma falsa sensação de segurança e estabilidade num mundo maior que nós mesmos. No entanto, o preço de escolher a ignorância é muito alto à civilização. Custa a própria sociedade.

Lembremos: por maior que fosse o Império Romano e seus conhecimentos acumulados, ele pereceu diante da brutalidade dos bárbaros porque a própria corrupção e o sectarismo já corroía o Império internamente.

De nada adianta toda nossa tecnologia e conhecimento se são utilizados para promover a ignorância. Refiro-me desde fake news, que passaram a dominar o cenário político com mentiras ridículas que nos surpreendem como há ainda quem acredite nelas, até os graves problemas ambientais que estamos causando a nós mesmos com nossa exploração desmedida do mundo.

Falando em progresso, talvez nossa civilização tenha sim algo de novo na história da humanidade. Não é a tecnologia. É a existência de uma civilização global. Pela primeira vez temos a ideia de que somos uma comunidade internacional.

Porém, basta uma catástrofe ambiental para perdermos toda a segurança que temos em nossa ciência moderna e percebermos a nossa frágil existência nesse mundo. Ela pode facilmente acabar.

Talvez nossa civilização tenha apenas mais alguns séculos antes dela se destruir. E daqui 10 mil anos uma outra sociedade humana — talvez, uma possibilidade dentre inúmeras — reinventará a internet como se fosse a primeira vez. Olharão ainda para nossos vestígios como sinais de rudimentaridade.

Ver a nossa história como passageira e efêmera pode parecer desesperador para alguns, mas encontro nisso grande paz e tranquilidade. Primeiramente, porque faz-nos despir de nossa arrogância sobre o mundo. Como humanos, somos habitantes eventuais, não os donos dessas terras.

Saber que, no fundo, a vida aqui é inútil e — como todas as civilizações — estamos destinados ao esquecimento nos dá certa liberdade. A liberdade de amar, chorar, rir, lutar por cada dia, cada momento, cada toque, cada pessoa e cada consciência. E se, ao fim, perdemos… bem, não é como se pudêssemos ter esperado outra coisa mesmo.

Cada segundo da nossa história aproveitado é lucro.