Somos os nossos instintos?

Desejamos coisas. E por que desejamos aquilo que desejamos? A filosofia ocidental costuma identificar nossos desejos aos nossos instintos. Às urgências passionais que habitam nosso ser e cuja satisfação associamos à felicidade. Porém, os instintos são vistos geralmente como egoístas, agressivos e antissociais.

Não é para menos. Os instintos estão ligados a interesses próprios, como sobrevivência, satisfação e poder. É por isso que muitas doutrinas espirituais nos dizem que devemos domar os nossos instintos, buscando aspirações comportamentais “mais elevadas”.

Há assim uma dualidade: de um lado teríamos nossa parte “animal”, passional e interessada apenas em sua própria satisfação; do outro, a racionalidade e a moral cultural, que nos impõe a necessidade de conciliar nossas urgências instintuais com alguma ética. Para cumprir com a boa moral social, temos que pagar o preço de renunciar a um “prazer natural”.

Podemos confiar nisso? Somos o conflito entre a alma e o corpo?

Somos animais

Que biologicamente pertencemos à classe dos mamíferos, não há dúvidas. E que, como animais, temos comportamentos instintuais de bando, buscando a sobrevivência, proteção, o domínio sobre o ambiente e a urgência de nossa reprodução também não há objeção. Diz-nos a ciência que isto está escrito em nossos genes.

No entanto, qual o peso de nossa natureza animal sobre o nosso comportamento? O fato de nos auto intitularmos racionais corresponderia a uma real superioridade no mundo dos seres vivos?

Para os filósofos modernos da tradição trágica, como Nietzsche, não há uma dimensão ética senão aquela ditada pelos nossos instintos. Por mais que queiramos parecer racionais, continuamos sendo animais.

Deste modo, nosso pretenso comportamento moral e altruísta é, na verdade, a racionalização de uma motivação de origem egoísta e competitiva. Por exemplo, se ajudamos o próximo, fazemos porque (1) ajudar o outro pode me trazer uma retribuição positiva no futuro, (2) eu me sinto egoicamente bem e superior ao ajudá-lo, (3) sou narcisicamente visto como alguém mais nobre pelos demais, ou (4) gosto do outro por razões particulares, e ao ajudá-lo, sinto que ajudo alguém parecido a mim ou “alguém dos meus”.

E parece que até mesmos racionalistas como Steven Pinker concordariam com antirracionalistas trágicos como Nietzsche. Para a psicologia evolucionista, nosso comportamento moral é compreendido como uma vantagem evolutiva para a nossa espécie, porque ao ajudarmos o outro, contribuímos para a sobrevivência coletiva de nosso grupo.

Ou seja, nunca há uma razão pura e desinteressada perante o outro. Queremos ajudá-lo porque há sempre um interesse próprio — ou da espécie!

Porém, antes de aceitarmos os termos nessas condições, devemos dar uns passos atrás e nos questionar afinal o que seria um comportamento ético.

Um peso e duas medidas

Ética é a área da filosofia dedicada a estudar os critérios da conduta humana, como o bem e o mal, o correto e a virtude, o bem viver e o dever. Particularmente, me agrada compreender a ética como um questionamento sobre o que fazer. É o que está por trás dos manuais sobre a vida quando para a vida não há nenhum manual.

Quê seria afinal um bem agir?

Segundo Kant, seria agir de maneira moral independente de qualquer coisa. Isto é, a partir do que o filósofo alemão entendia como imperativo categórico: para tomar uma ação correta, precisamos colocar nossos interesses pessoais, afetivos e particulares de lado para agir de acordo com o que seria universalmente correto.

Não vamos discutir agora sobre a dificuldade em definir algo “universalmente correto”, já que a complexidade extrapolaria nosso tema. O que nos importa é que, segundo Kant, um ato ético é aquele realizado a partir do seu universal, ainda que contrarie nossos instintos, afetos e interesses pessoais.

Por exemplo, se meu irmão fez algo errado e eu sei disso, tenho a obrigação moral de contar a verdade se alguém me questiona. Caso contrário, contarei uma mentira, o que em qualquer situação seria incorreto. Não importa se, por razões afetivas, tenho a vontade de protegê-lo das consequências negativas de sua ação. O ideal ético kantiano não deve ser guiado por nossas emoções, mas é um imperativo que se sobrepõe a quaisquer interesses particulares.

Por outro lado, temos o Marquês de Sade, escritor francês conhecido como libertino. O valor sadiano nos diz que devemos agir sempre em função dos nossos próprios interesses, buscando a satisfação individual. Para Sade, não há um verdadeiro problema em sermos egoístas em nossos objetivos, já que os seres humanos são em realidade assim. Muitos moralistas que se dizem preocupados com o bem comum — como a Igreja, os políticos e os juízes — são hipócritas agindo em favor do seu próprio interesse sob uma falsa aparência moral.

Um ato ético sadiano, portanto, seria realizar o meu desejo não importa como… ainda que eu possa ferir o outro pelo caminho. Aspirações morais são os grilhões que impedem o homem de alcançar seu bem supremo: gozar.

Para além do que podemos crer pessoalmente sobre essas duas concepções, devemos notar que ambas se colocam como imperativos universais: fazer o que é moralmente correto independente dos meus interesses pessoais porque esse é meu dever… ou agir segundo os meus interesses independentemente de como isso possa afetar aos outros, pois o gozo é o bem maior.

Quantas vezes nos vemos capturados por situações parecidas, em que ficamos diante da escolha entre o que entendemos como um dever e o que representa minha satisfação?

Por exemplo, se conheço uma moça mais jovem e atraente que minha esposa, cujo casamento já não me agrada. Posso abandonar os profundos compromissos que assumi com a última porque estes já não me satisfazem?

Ou se ganho a oportunidade única de trabalho naquilo que eu sempre sonhei em outro país, mas preciso continuar na cidade em que vivo hoje porque sou o único que pode cuidar de minha mãe doente… o quê escolher?

Nós, modernos

Entre o dever e o prazer, parece que a modernidade chegou a uma solução cínica a este conflito. Entendemos que, mesmo quando agimos aparentemente contra os nossos próprios interesses, é porque temos interesses secundários.

Não fazemos algo que julgamos moralmente correto apenas porque seria o moralmente correto, mas porque entendemos que em alguma medida isto seria ainda uma satisfação egoísta. Diria um Nietzsche ou Pinker que, quando agimos moralmente, também temos interesses em ser ou aparentar ser moral.

O bem agir é uma satisfação pessoal, um gosto aprendido que nos diz que tomar certas decisões — mesmo que aparentemente desfavoráveis ou contra os nossos instintos básicos — nos recompensa com a tranquilidade da consciência.

Parece que Nietzsche venceu. Em última análise, é a nossa capacidade instintual que define a amplitude de nossos atos. Pois um ato ético, por mais puro e desinteressado que pareça, será sempre um egoísmo de longo prazo, uma busca por reconhecimento dos pares ou ainda uma espécie de satisfação negativa do sofrimento, quando agimos bem segundo nossa consciência mesmo que nos seja desfavorável.

Será mesmo?

O psicanalista Jacques Lacan parece que vai na contramão desta corrente, não tentando a habitual operação reducionista de buscar em todo ato ético sua motivação “patológica”. O interesse lacaniano é indagar o desejo até o momento em que este parece não possuir qualquer interesse ou motivação especial.

Como diz um amigo filósofo e psicanalista que admiro, a psicanálise é uma prolongação da filosofia de Kant. Mas isso não quer dizer que a psicanálise seja moralista como Kant, mas que o interesse de Lacan com a psicanálise reside na inversão paradoxal em que o próprio desejo não pode ter mais qualquer interesse ou motivação de ordem patológica. Trata-se de encontrar o desejo puro, que corresponde aos critérios kantianos em que faço porque sim, não porque quero.

Esses desejos kantianos…

Para a psicanálise, o desejo não surge de nossos instintos. O que Freud percebeu escutando seus pacientes é que havia neles um estranho compromisso simbólico que contrariava seus próprios interesses e satisfações pessoais. Esta ligação simbólica era sua própria relação com o Outro, com sua história, com a linguagem, com seus antepassados.

Isto é, quando indagados por que desejam o que desejam, o que os sujeitos numa análise descobriam mais a fundo não eram as habituais respostas de satisfação e conquistas individuais. Os desejos eram desejos de um Outro: cumprir o sonho de uma mãe ou de um pai que fora relegado a si, realizar uma obra ou uma causa porque sentiam um compromisso com ela, expressar uma arte ou uma ciência que sentiam ser maior do que si mesmos…

A consequência de levar até os confins a pergunta de por quê eu quero o que eu quero? é descobrir que somos habitados por uma Vontade estranha a nós mesmos. Algo que não se esgota nas explicações imediatistas de prazer e dor. Algo cuja origem enigmática muitas vezes só consegue ser explicada como um compromisso com algo maior do que eu mesmo.

A ideia de compromisso parece estranha a nós modernos, que pensamos não ter nenhum sentido em nos apegarmos a algo que não nos pode prometer ser sempre favorável. Afinal, um compromisso é lutar por aquilo na vitória ou na derrota.

Por outro lado, a atitude liberal comum nos diz que preservar nossa integridade, seja lá o que for isso, é mais importante que ideias e valores. Porque ideias vêm e vão. Qual o sentido em arriscar seu bem-estar com algo cujo valor independe a isto? Melhor seria seguir apenas enquanto estou ganhando ali.

O engano está em supor que temos a opção. É o que pensa a inocente noção de liberdade do liberalismo moderno: temos o poder de escolha sobre nossa vida como se estivéssemos num mercado fazendo compras e pudéssemos escolher os produtos à livre vontade, sem considerar que minha própria decisão depende de muitas coisas, desde os meus gostos aprendidos até quanto minha carteira me permite carregar, passando pela própria questão de por quê eu quero comprar isto?

Liberdade não é a possibilidade de decidir qualquer coisa a qualquer momento, porque isso não existe. Liberdade é — conhecendo nossos desejos, nossos laços e ancestralidade — escolher tomar ou não um caminho que se coloca a mim.

Quando passamos por um momento de escolha, e nos relutamos pelo outro caminho que podíamos ter tomado, há que se questionar se o outro caminho não tomado fora em algum momento uma verdadeira opção para nós. É neste sentido que realizar seu desejo não pode ser outra senão realizar seu próprio dever.

A psicanálise mostra assim que ela nada tem a ver com a hermenêutica da suspeita que reduz a autonomia ética a uma ilusão baseada na repressão de nossos “baixos” motivos instintuais. Na verdade, é descobrir que muitas vezes o sujeito pode ser mais ético do que pensava. Há uma ética que, antes de ser pensada como conflituosa com o desejo, é ela mesmo que nos funda o próprio desejo.

É descobrir que habita em mim uma Vontade que me transcende, e que me impele a assumir um compromisso ético com algo de modo que desejo e dever se confundem. O conflito não está assim entre o que eu quero e o que eu devia, mas entre o que eu supostamente devia querer e o que eu realmente quero enquanto meu dever.