Viver num Mundo Sem Esperanças

Igor Teo
Igor Teo
Aug 3 · 9 min read

Ando sem grandes esperanças. Não só eu, mas todos os meus amigos mais próximos se sentem do mesmo jeito. Desiludidos com o futuro do mundo. E motivos para isso não faltam.

A política está abominável com personagens insanos no comando dos principais países do mundo. O aquecimento global e a poluição já ultrapassaram os níveis alarmantes, e uma catástrofe ambiental é inevitável. Problemas sociais, o aumento da desigualdade entre ricos e pobres, o crescimento da violência nas grandes cidades, novas formas de fronteiras entre povos, a corrupção em todas as esferas da sociedade.

O mundo não está indo por um bom caminho.

O irônico é que somos a geração que poderia se considerar a mais privilegiada. Temos maior acesso à educação que todas as anteriores. Temos acesso a conforto e tecnologia que antes pareceriam ser ficção. E mesmo com todos os recursos, vamos assistir passivelmente ao fim do mundo.

Fora da nossa bolha de privilégios de “millennials vegano-pacifista-gayfriendlys”, nos sentimos muito desesperançosos. O mundo real, o mundo em que a maioria das pessoas vive, é brutal.

E mesmo que você, leitor, não esteja enfrentando a desesperança de maneira consciente, você não deixa de sentir os seus sintomas. Pois as duas grandes “doenças mentais” do nosso século são em si patologias da esperança: ansiedade e depressão.

O ansioso é aquele que nutre grandes esperanças, mas que diante de uma realidade assustadora tem medo de inevitavelmente fracassar. E o depressivo é aquele que já aceitou o fracasso e não consegue esperar por mais nada melhor da vida.

Veremos neste texto o que ainda podemos esperar da vida e do mundo.

Na vida real não há lugar para o ateísmo

Você pode ainda não ter se dado conta disso, mas todos nós temos fé em alguma coisa. Todos nós precisamos acreditar em algo para seguir vivendo.

E eu não estou falando em Deus. Estou falando de coisas mais básicas, como aquela promoção que você espera sair no seu trabalho, que a garota ou o garoto que você gosta não fure contigo, ou que — seja lá o que for isto — sua vida tenha algum sentido.

Sempre depositamos nossa fé em algo. Que o dinheiro pode nos trazer mais conforto, que se nos ajeitarmos bem conseguiremos transar, que se estudarmos podemos dar grandes passos na vida.

Todos nós esperamos algo melhor do futuro. E crer nisto é essencial. Se soubéssemos desde antes que nosso futuro irá de mal a pior desistiríamos de viver. Precisamos acreditar que amanhã pode ser um dia melhor e que ainda temos chances de sermos felizes.

A questão, no entanto, é onde colocamos a nossa fé. Pois há quem deposite sua esperança de felicidade no trabalho, outros na família, e há ainda quem espera isso de um amor romântico.

O problema está quando aquilo em que colocamos nossa esperança falha.

A verdade inconveniente

Diferentes religiões e filosofias da história já prometeram o mesmo objetivo: o fim do sofrimento (ou ao menos uma justificativa para ele) e a felicidade do ser humano.

Ainda hoje, a felicidade é um produto quente. Todos os dias você está exposto a milhares de propagandas e gente querendo lhe vender as mais diversas coisas prometendo ser a solução para os seus problemas. Um modo inovador de resolver a sua dor.

Aprenda inglês sem sair de casa em 30 dias. Adquira um carro de luxo em centenas de prestações a perder de vista. Cure sua depressão com o coaching quântico e reprograme sua mente para o sucesso. Emagreça sem fazer esforço. Simples e fácil. Basta comprar.

Como não acreditar nisso? No site do produto tinha até um vídeo com a história de clientes satisfeitos e que alcançaram o sucesso e a realização.

Só que isso não funcionou com você… e a culpa não é sua!

Desde os primórdios da humanidade, as pessoas desejam desesperadamente por algo que possa resolver as suas dores e angústias. Mas até hoje nada conseguiu resolver isso. Nada.

Se, como vimos antes, precisamos ter fé de que haja uma solução para a vida, é evidente que não há nenhuma solução. Pois se houvesse, com certeza ela já estaria resolvida. Não havendo, continuamos esperando por algo que possa um dia solucioná-la.

A verdade é que nenhuma religião pode lhe prometer a felicidade, como nenhuma ideologia política irá resolver os problemas do mundo, nem existe uma fórmula secreta para conquistar o amor, e nenhum coach jamais poderá lhe garantir o sucesso.

São apenas vendedores se aproveitando de suas necessidades e esperanças.

A vida é assim. As coisas não se encaixam, elas acontecem de maneira inesperada e não conseguimos controlar tudo. Às vezes temos a sorte do mundo favorecer o nosso trabalho duro, e outras vezes temos o azar. Mas queremos acreditar que estamos no controle, porque a verdade talvez seja dura demais.

Choque de gerações

Como eu disse no início do texto, é irônico que a geração que desfruta dos maiores privilégios da história seja aquela que talvez vá assistir o mundo terminar numa catástrofe político-ambiental.

E a razão disso é muito óbvia: nós acreditamos numa noção ingênua de progresso. Pensamos que, apenas porque temos mais tecnologia agora, que nossa racionalidade está mais desenvolvida e somos capazes de resolver todos os problemas assim. Que tudo está sob o controle.

Porém, emocionalmente, continuamos a ser os mesmos macacos pelados de sempre.

No nível emocional, a coisa é menos sofisticada. Buscamos o prazer e queremos evitar a dor. E numa sociedade desenvolvida, com muitos recursos para criar diferentes formas de satisfação (distrações), fomos seduzidos a pensar que o sofrimento é algo do passado.

Nossos ancestrais eram realmente miseráveis. Enfrentavam a fome, o frio, a escravidão, guerras, a morte constantemente. E qual o pior sofrimento que você pode imaginar para sua vida hoje com comida nos supermercados, ar condicionados e aquecedores em casa, e Estados mais ou menos democráticos?

Mesmo com todo sofrimento, nossos antepassados estavam muito mais preparados para serem felizes que nós. Afinal, é disso que se tratam as filosofias antigas, de Platão ao estoicismo. Os pensadores clássicos nos ensinaram como, na adversidade, o ser humano podia encontrar a “felicidade”.

E nós jogamos fora todo o conhecimento antigo e achamos que ser feliz significa agendar uma viagem para as férias, ter um carro do ano, adquirir uma televisão nova, ou sei lá, consumir qualquer coisa que lhe disseram para consumir.

O Efeito Netflix

Eu chamo isso de efeito Netflix. Quando você assina o serviço, você fica admirado com todas as possibilidades de entretenimento que existem na plataforma. Tudo é incrível no começo. Você tem horas de maratona para fazer.

Com o tempo, você vai se cansando e nada mais parece ser tão interessante. Uma temporada nova de sua série preferida ou um filme novo já não lhe empolgam como antes. Logo está pensando que só tem porcaria ali, e não quer ver mais nada, ainda que exista uma infinidade de opções disponíveis.

A sociedade moderna, baseada no consumo, se tornou especialista em nos oferecer novas formas de entretenimento. Mas, dentro dessa diversidade, é como se nada realmente valesse a pena. Existem sempre muitas opções, mas nada irá lhe satisfazer de verdade.

Algo parecido aconteceu comigo quando tirei um ano sabático para viajar pelo velho mundo. As primeiras cidades que eu visitava eram incríveis, tudo era diferente e encantador. Mas depois eu não parava de me perguntar por que tudo na viagem tinha se tornado tão igual e nenhum país ou idioma novo realmente me encantava mais. De repente, era angustiante.

Isso porque compramos a ilusão da modernidade que podemos evitar a dor e viver apenas no prazer. Quando a dor aparece, seja sob a forma de angústia ou incerteza, fazemos de tudo para nos distrair: festa, cinema, sair com amigos, buscar um novo interesse romântico. Achamos que podemos trocar de satisfação como trocamos de canal na televisão, e assim logo estamos imersos na dor de uma vida vazia e superficial. Justamente pela ausência de uma dor que nos conecta com algo mais profundo.

Temos que admitir. Nos tornamos exageradamente otimistas em relação ao mundo. Nutrimos altas expectativas de uma vida de conforto e hedonismo que são facilmente abaladas no primeiro confronto com a dura realidade.

A dor é sua amiga

Quando você começa a meditar — e digo meditar de verdade, não fazer uma prática de mindfulness para dar aquela relaxada depois do trabalho — você começa a enfrentar umas dificuldades chatas. Seu corpo se incomoda com a posição, sua mente quer pensar em coisas mais interessantes. A maioria das pessoas prefere desistir a enfrentar esse desconforto.

Eu acredito que a iluminação espiritual prometida nas meditações espirituais tem menos a ver com uma certa depuração da alma, e mais com o ensinamento pela prática em como lidar com nossas dores e desconfortos.

Pois imagine aquele monge que passa duas horas parado na mesma posição meditando. Desde o formigamento da perna até todas as preocupações que ele tem para pagar as contas do templo. Nada disso é suficiente para fazê-lo sair de sua prática. Ele cria uma grande resiliência para lidar com o desconforto físico e mental.

De maneira análoga, o antídoto para a desesperança não está em encontrar uma nova coisa para colocar a sua esperança. Uma nova distração. Está em consertar a maneira como vemos a vida. Isto é, a nossa relação com a própria dor e o desconforto.

Porque quanto menos tolerantes à dor nós somos, mais buscaremos falsas promessas de felicidade, apenas para falhar novamente e cairmos nessa espiral infinita de decepção e desesperança.

Muitas pessoas podem pensar que aceitar a desesperança é uma maneira pessimista de encarar a vida. Tudo bem se elas pensam assim. Cada um tem o direito de pensar no que quiser, inclusive sobre sua própria esperança.

A única coisa que todos nós precisamos estar cientes é onde depositamos a nossa fé. Pois este é o preço que iremos pagar mais cedo ou mais tarde. Quando acreditamos que algo pode solucionar magicamente nossa angústia, podemos nos decepcionar. Mas se depois disso somos capazes de suportar relativamente bem as incertezas e dores de viver, quer dizer que já não somos tão inocentes assim.

Não espere por nada. Mas faça algo!

Finalmente, de nada adianta não ter esperanças se você for ficar aí sentado, esperando o fim de tudo ou querendo alguém para resolver os seus problemas para você. Isto é continuar tendo esperança em algo sob a máscara de um falso niilismo, seja a esperança num final ou numa ajuda mágica.

Aos desesperançosos, eu diria para que não esperem por nada melhor. Talvez o futuro não seja bom mesmo. Não lhes venderei falsas esperanças.

Mas se querem ver alguma mudança, comecem por vocês mesmos. E façam isso sem esperar que os outros lhe sigam, porque isso pode não funcionar também.

Apenas faça o que você percebe que pode tornar a sua vida melhor. Vai que…


Igor Teo é psicanalista. Formado em Psicologia e Mestre em Psicanálise pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Para mais conteúdo e contato, acesse o seu site.

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Igor Teo

Psychoanalyst. more on www.igorteo.com.br

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