borra

Igor Valentin
Sep 4, 2018 · 2 min read

De noite, um chover apertado, como um peito estreito quando chora, pingando lagrimas conta-gotas da calha suja e amassada, ele deita em seu lugar preferido da cama. A cama é uma especie de canoa, madeira forte e boa que sustenta o colchão pesado e macio da moldura de seu corpo, embalando-o como uma mãe envolve um pequeno filho em seus braços. Ele navega e se espreguiça, espaçosamente, porém nos limites do coforto necessário, sem excessos, sem espaços vagos, sem sobras. Enão, ele abre os olhos meditativos, sorri pra si mesmo, levanta e encara o corredor escuro da madrugada numa casa vazia. Ele só e a geladeira, vazia. Pega água e a bandeira de gelo, vazia. Mete a mão no último pedaço de pizza atropelado de domingo pra segunda e se pergunta “onde acho meus chinelos…será que deibaixo da cama?”. De volta ao quarto, luz ambar do poste da rua que invade a cena, coloca sua face a refletir a imagem no espelho. Os olhos fermentados e pretos revelam um espírito já cansado e velho. Uma natureza desgastada pelo último inverno, de solidões na metrópole, do abrir e fechar as cancelas, todos os dias, mensalmente, anualmente, na regularidade do serviço digno. Sua responsabilidade, seu abrir e fechar cancelas, receber e dar ticets de supermercado, muitas vidas indo e vindo, famílias inteiras, compras do natal e as dos dias dos pais. Abrir e fechar cancelas, voltas pra casa sem poder sentir a vontade de chorar, engasgado, no sentido da indiferença. A mais idade, aos sessenta e pouco, ele faz o seu café, a cafeteira é antiga e boa. Faz seu café todo dia, coa. A solidão é negra como borra.

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