Por que filmes devem ser vistos no cinema

Não seja aquele cara chato que só quer assistir filmes no cinema “por que sim”. Aqui estão dois argumentos irrefutáveis.



Muito se fala sobre como a maneira de se consumir conteúdo mudou nos últimos 20 anos. TVs, computadores, tablets, e até mesmo celulares são usados como tela para se assistir filmes. Mas por que devemos nos preocupar em assistir filmes no cinema, ao invés de espera-los sair em DVD, Blu-ray, streaming, ou download?

No livro A Narrativa Visual, de Bruce Block, nós, pupilos de cinema, somos educados a usar conceitos que pretendem causar emoções específicas a quem assiste. O espectador que não é atingido pelo artifício que um diretor usa é considerado um espectador que não usufruiu de todos os aspectos emocionais proporcionados pelo filme. Ou, um espectador que não aproveitou tudo o que o filme pretende dar.

Tendo explicado esse aspecto, abro caminho para apresentar dois artifícios cinematográficos que perdem suas qualidades quando a obra é assistida em dispositivos com telas pequenas: o espaço aberto e o continuum de movimento.

Espaço aberto


Telas têm molduras que limitam a quantidade de imagem que o espectador vê. Numa sala se cinema, essa moldura é o fim do pano branco onde é projetada a imagem. Num televisor, é o material que envolve a área onde se coloca o LCD ou LED. Essas molduras criam uma janela bidimensional. Porém, alguns movimentos dentro de uma tomada podem excluir essa moldura.

Por exemplo, se numa tomada vista de cima (pino ou plongée) todos os objetos, inclusive o que determina o ponto de atenção do espectador, estiverem se movimentando no mesmo sentido, os limites da tela se mantém, pois se torna óbvia suas limitações. O espectador está sob controle de todo o quadro. Mas se, por exemplo, o objeto de interesse estiver fixo no centro, e os outros objetos a sua volta estiverem se movendo aleatoriamente e multidirecionalmente dentro da tomada, os limites da tela se tornam imperceptíveis, criando assim o espaço aberto. A visão periférica do olho humano não é suficiente para delimitar a área da tela, já que a atenção se mantém em apenas um ponto dela.

Apesar de fisicamente impossível, ainda assim a Millennium Falcon viaja na velocidade da luz. O rastro de estrelas criado pelo movimento da nave faz com que o a atenção se fixe no caminho à frente, dominando virtualmente as linhas da moldura e expandindo o espaço para fora do quadro.

Numa tela de celular, é impossível criar tal aspecto. Por menor que seja o objeto de interesse na tela, a atenção do espectador ainda está sob toda superfície dela, e não especificamente direcionada a um ponto. Isso acaba desqualificando a imersão pretendida pelo diretor, uma imersão que pode significar diversas coisas dentro da narrativa e que se não atingida, pode atrapalhar no engajamento emocional do espectador.

Continuum de movimento

Grade de Continuum.

Digamos que, numa cena de suspense, o mocinho se encontre no quadrante numero 1 da grade de continuum. Se o vilão se movimentar no quadrante número 7, o ponto de atenção do espectador se deslocará, criando contraste na tomada e, assim, dando intensidade à cena. Se você já jogou aquele jogo de arcade onde você deve martelar os jacarés que saem de diversas tocas ao mesmo tempo, então você está familiarizado com a intensidade criada pela mudança do ponto de atenção dentro de um espaço determinado. Esse é o continuum de movimento.

Enquanto prestamos atenção no banho da mocinha (pervertidos!), o vilão se movimenta em outro quadrante da grade de continuum, criando intensidade numa das cenas mais icônicas do cinema.

Numa tela de celular, a grade de continuum se limita a apenas um grande quadrante, excluindo a ação desse artifício de direção. É possível até que a cena hipotética descrita no parágrafo anterior pareça boba, já que não haverá qualquer emoção causada no espectador que justifique o suspense que tenta ser apresentado.

Apesar de ser quase impossível recriar o ambiente de uma sala de cinema, talvez uma iluminação controlada e apropriada, junto com distâncias limitadas, possa permitir que os aspectos descritos nesse texto sejam honrados ao se assistir um filme em dispositivos como TVs, computadores, tablets e celulares. Porém, levando em consideração que argumentos para se assistir filmes nesses dispositivos sejam baseados apenas em conveniência, tempo, e conforto; é quase sempre aconselhável que filmes se restrinjam a salas de cinema ou ambientes de televisão apropriados.

Obs: obviamente, assistir a um filme num celular é melhor que não assistir a um filme. Então, considere todos esses argumentos se você realmente se importar com a linguagem e a narrativa de um filme a ponto de sair de casa. E, é claro, se você tem condições financeiras para assistir tudo da melhor maneira possível.