O que eu aprendi com a morte do amor

Os textos deste espaço nascem como escrita pessoal, subjetiva, íntima. É interessante então que se adicione todo tipo de ressalva, aspas e exceções no que aqui for dito. Todo texto é, obviamente, escrito para ser lido por alguém, nem que esse alguém seja o próprio autor do texto. Então, esse texto é pra mim, mas, se por acaso, você, desconhecido ou conhecido, o estiver lendo, espero que essas palavras acrescentem alguma coisa de útil à tua vida. Dito isso, vamos seguir.

Não existe amor. O que existe são amores. Assim como pessoas. Cada amor existe da sua própria maneira, com suas próprias intenções e distorções. Não acredito em amor à primeira vista, mas não acho impróprio o uso da expressão. É uma liberdade no falar sem vigilância. Digo “graças à deus!”, sendo ateu e não enxergo problema algum. Não gosto de fato de certas distinções e especificidades. De rotular pessoas como “colegas” ou “amigos” quando posso jogá-las todas no mesmo balaio e ler na minha mente o nível de intimidade e amizade que atribuo a cada ser do meu círculo social.

Aparentemente, divaguei no parágrafo anterior, mas o que falava também se refere às classificações de amor que a gente escuta da família, dos conhecidos, dos mais velhos. “Ahh, amor é uma palavra muito forte!”. “Amor é você abrir mão de tudo”. “Amor é na alegria e na tristeza, na saúde e na doença”. “Quando é amor, é pra sempre”. “O amor resiste à tudo”. Máximas falhas quando aplicadas à vida.

O amor que não é pra sempre, continua sim sendo amor. O amor que não resiste, pode sim, tempos atrás, ter sido amor. O amor que falha, pode se reconstituir e voltar a ser amor. E o amor também morre.

Talvez o meu eu lírico me empurre demais para o viés sentimental, trágico e dramático das coisas, mas os fins, para mim, ainda continuam sendo difíceis e machucando. Mesmo que esse fim seja tão aclamado como “ver as coisas de uma nova perspectiva, aprender com os erros, encontrar novas oportunidades”. Quando, qualquer amigo, mesmo não tão próximo, termina um relacionamento com alguém que lá atrás dizia amar, isso dói. Chega em mim. E, mais uma vez, é aquela coisa de absorver essa nuvem de sentimentos e caos que nos circunda.

Às vezes, acho que na maioria das vezes, o amor não morre de uma vez. Feito doença silenciosa que acomete sem aviso, vagarosamente, cobrindo o corpo como areia movediça, até faltar o ar, é que o amor passa a não mais existir.

Todas as tentativas de resgatar um passado, de beber novamente no auge afetivo que foi aquele amor, fracassam sequencialmente. Nós podemos continuar tentando, e é normal que continuemos, mas em vão, porque o vão, o nada-existente, já não se preenche mais. Estamos lidando sempre com projeções, projeções do outro em nós mesmos. Representações do outro e do que ele nutre por nós. Às vezes, essas representações estão em perfeita dessincronia com o que chamamos de realidade, daí nossa incompreensão e dificuldade de aceitar.

Relacionamentos humanos são complicados e não só porque todos nós fingimos ser cineastas dirigindo um filme com conflitos e trilha sonora impecável, mas porque, a ponte entre o coração e a língua é frágil e amedrontadora de se atravessar. Por vezes, nossa comunicação (em todos os sentidos) e nossas ações, passam longe de transmitir o caleidoscópio de sentimentos que se revira em nosso interior.

O amor se cria. Ele se baseia em histórias, em ilusões, em infinitas partículas não concretas, em particularidades. E não enxergue mal isso. Quem disse que o não-concreto, o abstrato e o ilusório são ruins? Eles são só estados que nos permitem continuar. O amor é sonho, planos, projeção, presente e futuro. Difícil amar sendo apenas hoje, sem imaginar o beijo, abraço e cheiro vívidos também um dia após.

O mais dolorido do fim do amor é o fim ser uma anunciação de que quem se amou já não está mais lá. Ou pelo menos o holograma de quem se amou, de quem esteve. Tanto física como mentalmente, nós deixamos de existir um pouco, cedemos e encontramos outros espaços. Heráclito entende melhor essa coisa de não nos banharmos no mesmo rio, já que o rio tem outros peixes e pedregulhos e nós temos outros pelos e camadas de pele. Outros pensamentos, sentimentos e visão sobre o rio também.

Às vezes, essas mudanças silenciosas e íntimas são as responsáveis por desviar o caminho para outra direção. Nada grave aconteceu, mas já não se ama mais e não se sabe explicar o porquê. A barrinha dos corações se esvaziou. Os agravos da rotina venceram os sorrisos, o calor e o cheiro do outro que fica na roupa. Os bons momentos de dois anos atrás já são boias que mais afundam do que flutuam. O fim do amor traz também um quê de “se”. E se as coisas tivessem sido diferentes? Ou se eu tivesse feito mais?

O universo, de fato, não funciona como a realidade de Amélie Poulain, até porque, se funcionasse, talvez se convertesse em um clichê tedioso. Porém, é válida a lição de ter olho clínico para os prazeres da vida e extrair deles a substância de real prazer. O amor entre um casal (imagine aqui inúmeras formas de amor), quando passa a ser duradouro, perde muitas vezes o frescor e a empolgação do princípio. Vai-se embora o aditivo da paixão, porque a durabilidade funciona como um engodo da não possibilidade de um fim. Nesse aspecto, muitos dos ínfimos detalhes que serviam como faísca para complexas narrativas amorosas e particulares, simplesmente são ignorados por uma rotina que se instala. “E no escritório em que eu trabalho e fico rico, quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor”, já diria Belchior.

Do alto da minha imaturidade e falta de experiência, acho que o fim do amor sempre vai carregar certas características e que por mais que hajam aconselhamentos, livros, filmes e músicas nos guiando em como devemos nos comportar quando esse momento chega, reagiremos de maneira parecida. Não quer dizer que mesmo havendo um ritual para o fim, não se possa apreender as coisas de uma outra maneira.

O pré-fim, como um limbo ou fila de espera interminável, é o momento crucial da comunicação. Pode ser doloroso que o pré-fim seja estendido por anos, trazendo amargor de fazer uma pessoa que está ali do seu lado, parecer estar a milhas de distância. Que cada um enfrente o medo de sair da acomodação mesmo correndo o risco de perder definitivamente a pessoa-poltrona que tanto lhe acomoda. Que cada um tente garimpar seus sentimentos antes de guiá-los pela ponte do trajeto coração/língua. É importante saber o que realmente se passa para tomar a decisão certa. Um fim com incógnita é especialista em lacerar o peito.

Enfim, chegando ao fim, um tempo de reflexão é importante. É o momento de se colocar algumas coisas no lugar, de arrumar os móveis. De pensar também sobre sua contribuição para o presente destino. É uma etapa que permanece também sendo dolorosa, mas talvez rica para a vida que segue. Acionar o flashback sobre desleixos, sobre aquele ato aparentemente inócuo mas que pode ter marcado o outro por um tempo. Que pode ter somado à subtração.

É o momento de reconhecer e preparar-se para o fato de que ninguém permanece o mesmo. De que a mudança é constante e que ela parte de fatores internos e externos. Novos amigos, novas viagens e destinos, filmes, livros, traumas, podem modificar-nos discretamente ou substancialmente. Essas mudanças não são definidas de antemão como boas ou más. São mudanças, simplesmente mudanças. Um buraco na estrada que faz com que a gente desvie para seguir em frente junto ou uma bifurcação, um caminho novo que nos separa da rota de quem se ama.

Cultive em si uma carga de autossuficiência. Isso não é egocentrismo. É só uma espécie de proteção. Nós não somos plasma ou seres disformes. Nossos sentimentos não vaporizam por aí. Vivemos presos em uma caixa, uma gaiola de carne e osso. Essa caixa é uma barreira para o outro. Nossa percepção é só nossa, então, por mais que a sensação de estar acompanhado exista, muitos de nossos recônditos serão sempre e somente acessíveis por nós mesmos.

Este texto discorre sobre o fim de um estado. Talvez por isso seja tão difícil arrematá-lo. Há tanto para se escrever mesmo com o que já se escreve há séculos sobre o amor romântico. De alguma maneira, o fim é material para alguma outra coisa. O fim pode ser transformado em parte num texto, num desenho, em um poema ou fotografia. É uma maneira de seguir e de deixar o tempo agir. Não tenha medo dos clichês, do início ao fim.