“boas comparações, muitas vezes, vêm com a experiência da estranheza e das ausências”

Dia 31 de agosto de 2016 não foi apenas o dia em que o Brasil ficou sem a Dilma, mas também sem mim. Comparações à parte, pois acho que faço bem menos falta, dado as últimas decisões do governo Temer (diga-se de passagem aquela MP de reforma do ensino), foi no último dia de agosto que parti para uma jornada meio repentina para Pequim.

“Repentina” porque eu tive que decidir em dois dias se eu ia me inscrever para o mestrado em Contemporary China Studies da Renmin University, depois de já ter iniciado um mestrado em Ciências Militares na ECEME, no Rio de Janeiro. Um mês antes de vir, eu ainda não sabia se realmente iria vir (por motivos de bolsa). Passagem comprada de supetão, mudança de retorno pra Porto Alegre e alguns muitos exames médicos depois, cá estou.

Eu vim pra China pela primeira vez em 2013, com o Santander Universidades/UFRGS, no excelente Programa Top China. Todavia, tinha ficado apenas 15 dias em Shanghai e 5 em Pequim. Ainda que eu nunca tenha me sentido mais perdida numa viagem do que em Shanghai, a cidade é facilmente confundível com qualquer metrópole cosmopolita ao redor do mundo. Eu diria que isso se deve pelas concessões e pelo histórico que teve durante o século XIX e XX da dominação das grandes potências na China.

Pequim é mais histórica, é mais suja, é mais governamental (inclusive os novos planos urbanos vão empurrar o que não é governamental para fora do centro da cidade), e é — consequentemente — mais chinesa.

Meu mandarim é uma porcaria (mesmo estudando quase dois anos no Brasil). Cheguei aqui sem conhecer ninguém (meus contatos estavam de férias) e o resultado disso foi ficar uma semana trancada no campus da universidade, com medo de sair e não conseguir voltar, nem me comunicar, nem saber o que estava acontecendo. Eu me considero uma pessoa bastante corajosa para passear e conhecer lugares, mas a China me congelou de ansiedade do que poderia dar errado.

O nível de inglês aqui é bem parecido com o que se encontra no Brasil, eu diria. O número aqui é um chute (da internet) entre 50–150 milhões de pessoas que sabem o idioma (se pensar bem, dá um bom bocado da população brasileira), mas num país de 1,35 bilhões, fica entre 5%-11%. Não muito diferente do Brasil, que teria aproximadamente 3% de pessoas falando inglês fluentemente. A população jovem (18–25 anos) no ensino superior no Brasil era, em 2015, de 58,5% (contra os 32,9% de 2004). Na China, o número ainda é muito pequeno, 35 milhões (cerca de 3%), mas ainda é impressionante para uma nação que existe nos moldes atuais desde 1949 e que era majoritariamente rural.

Não são apenas aí que param as semelhanças, a desigualdade de renda é enorme, e o bolo do crescimento claramente não foi bem dividido com o povo (ainda que exista uma safety net considerável para a população vulnerável). Dizem que isso vai dar uns problemas no futuro pro Partido Comunista. Porém, Pequim é um exemplo do que é viver lado a lado com uma parcela da população podre de rica, com preços absurdos em muitas áreas, regiões que congregam lojas de marca sempre lotadas, bares com uma juventude privilegiada em diversas esquinas.

na área de Sanlitun — o centro dessa coisa toda de marca e consumismo

Todavia, de comparação tosca o mundo já tem um monte e vale essa leitura do trecho escrito por Benedict Anderson em 2016:

“When you start to live in a country whose language you understand barely or not at all, you are obviously not in a good position to think comparatively, because you have little access to the local culture. You feel linguistically deprived, lonely and even isolated, and you hunt around for some fellow nationals to stick with. You cannot avoid making comparisons, but these are likely to be superficial and naive. Then, if you are lucky, you cross the language wall, and find yourself in another world. You are like an explorer, and try to notice and think about everything in a way you would never do at home, where so much is taken for granted. What you will start to notice, if your ears and eyes are open, are the things you can’t see or hear. You will begin to notice what is not there as well as what is there, just as you will become aware of what is unwritten as well as what is written. And this works both for the country you are living in and the one from which you came. Often it starts with words. Indonesian, for example, has a special word, gurih, for the taste of rice (‘deliciously pungent’ according to one dictionary). If you come from England, you are then startled to realise that the taste of rice can’t be described with a designated English word. On the other hand, Indonesian has no word like the English ‘sepia’ for the colour of old photographs. The same is true of concepts. Javanese has a word, longan, for the empty space under a chair or bed, which English does not.
Such a period of struggling with a new language is especially good for training oneself to be seriously comparative, because there is not yet any automatic translation of foreign words into the language in your head. You gradually get to know enough to notice more, and yet you are still an outsider. If you then stay on long enough, things get taken for granted again, as they were back home, and you tend to be much less curious and observant than before — you start to say to yourself: ‘I know Indonesia inside out.’ The point being that good comparisons often come from the experience of strangeness and absences.”

Ou seja, a barreira do idioma ainda não permite que eu compreenda grande parte do que a China oferece ou do seu povo. Todavia, sempre me considerei uma pessoa observadora e se uma coisa é facilmente perceptível é a relação muito intensa dos chineses com os seus celulares. Em Pequim, é raríssimo alguém não estar com o celular grudado no rosto durante a viagem de metrô, seja jogando joguinhos, assistindo vídeos (produção nacional, na grande parte das vezes) e batendo papo no WeChat (a coisa mais revolucionária e o futuro dos aplicativos, anota aí).

Essa questão dos celulares (e eu fico muito no meu, principalmente quando o fuso horário de 11h de diferença permite estar acordada junto com o pessoal no Brasil) e o idioma são barreiras que me parecem intransponíveis no momento. Logo, as poucas e breves relações humanas são guardadas com muito carinho. Eu, que sempre me dei muito bem com a solidão, percebo que na China ela ganhou um significado extra e um peso maior. Com o app do Google Translate e do Pleco eu criei os maiores vínculos.

O resultado é também engraçado: ainda não pedi tele-entrega e comprei nada online (e aqui tudo se compra online), pois como vivo no campus da universidade, o entregador liga pro celular para dizer em qual portão está. Também não peguei táxi de noite sozinha, ainda que barato, tenho medo de ser enganada pelo motorista ou de não conseguir explicar onde estou indo. No Restaurante Universitário, que o método é apontar e o/a funcionário/a coloca na bandeja, é tudo no chute (ainda que pelo menos sem pimenta eu já aprendi a falar na versão tosca: Bù là).

Os pequenos sucessos são apreciados ainda mais: se entender no metrô, carregar o cartão, usar uma máquina (ATM, da biblioteca ou do metrô) sem pedir ajuda, encontrar algo pra comer no cardápio que parece reconhecível (mas 80% do que eu como aqui eu não sei o que é), identificar um ideograma em meio ao mar de coisas impossíveis de ler, saber geograficamente onde eu fui parar.

A primeira refeição ocidental de verdade foi 3 semanas depois que eu cheguei: pão francês, massa com molho pesto e vinho. Ainda que 3 semanas seja pouco pra sentir saudades, a familiaridade no paladar serviu como um abraço daqueles que a gente precisa de vez em quando.