O texto Do Que Destrói Nosso Futuro Humano de Eleutério Prado apresenta uma complexa argumentação em dois níveis discursivos: um nível é expresso por meio de uma decantada leitura de Marx que permite ao autor apreender a “mal falada” essência do processo capitalista, o outro nível é manifesto num conjunto de referências pontuais a autores e insights por meios dos quais traz a tona algumas faces não muito consideradas da crise manifesta do capitalismo, pelo menos entre a maioria dos marxistas, a exemplo da evidenciação feita por Brown da incompatibilidade da democracia com o neoliberalismo na sua representação foucaultiana.

O desnível dos dois planos da argumentação é evidente, na base, o texto de Eleutério se alicerça numa sólida estrutura marxista clássica, enquanto na superfície, onde o texto se qualifica, temos uma serie de insights que reflete o tempo presente.

Os argumentos que ancoram o texto no tempo presente são dispostos de forma que o autor dessas linhas teve dificuldade de perceber uma integração, por exemplo, entre a evidenciação i) de Wendy Brown da incompatibilidade da democracia com o neoliberalismo na sua representação foucaultiana, e, ii) a constatação de Luiz Marques que, em seu livro “Capitalismo e colapso ambiental” debita ao capitalismo o deslocamento da equação de “mais excedente = mais segurança”, para a equação “mais excedente = menos segurança” no qual ressoa os insights de U Beck sobre a Sociedade de Risco. Mas, a despeito da falta de integração entre os insights aludidos, a costura feita por Eleutério lhe permite propor uma agenda minimalista para a esquerda contemporânea: Democracia Radical e o Bem Comum.

A Democracia Radical, apenas anunciada no texto, nos permite ousar fazer uma ponte com debate democrático contemporâneo, e, identificar alguns possíveis interlocutores nesse debate, a exemplo dos que, no âmbito da filosofia política, tomam como ponto de partida o legado do Mestre (Maldito) Carl Schmitt, em especial sua critica a “democracia liberal”, por meio da qual cria as condições de possibilidade para que a nova esquerda (pós-marxista), que tem entre seus representantes emblemáticos a Chantal Mouffe, uma aguda leitora de Carl Schmitt, possa fundamentar sua proposta de democracia radical.

Já o “Bem Comum”, também apenas anunciado no texto de Eleutério, imagino que não tem porque ele ser restrito ao âmbito de “mais segurança” (e o texto não insinua isso), invertendo a equação de Luiz Marques. E, mesmo não descartando a segurança como um bem comum entendo que o debate será mais produtivo se agasalhado no âmbito do delineado entre as três Escolas dos Communs: a de Indiana (Elinor Ostrom), a de Harvard (Yonchai Benkler) e a de Turin (Ugo Mattei).

Enfim, Eleutério nos oferece um instigante texto programático ancorado numa micro agenda: coisa rara e, portanto valiosa.