ACONTECEU HÁ UM ANO

Cá estou eu, tendo que me levantar cedo — numa ressaca ruidosa — para fazer feira.

Tomo um banho & ponho uma roupa, mas por dentro me sinto uma cartela de ácido lisérgico esmagada sob uma valsa de búfalos ensandecidos.

Ponho meu headphone para dar aquele UP no espírito. Pego o ônibus & chego no supermercado.

Faço uma seleção relativamente bem sucedida para meu baixo orçamento: verduras, frutas, molhos legais, temperos, enlatados, etc.

No supermercado ando como se fosse um dançarino butôh depois de uma embriaguez de um mês inteiro — ou um ano.

Os óculos escuros disfarçando minha cara de ressacado, talvez.

Na fila, todo mundo me encarando só porque sou um cara solitário que dança.

Danço como se não houvesse amanhã, Ego, política, moral, licença para dirigir, nomes, títulos, status, boas maneiras, pedigree, prêmios acadêmicos, baboseiras de última hora, superfluidades & remédios genéricos.

Danço porque me sinto um átomo livre no campo do desespero humano.

Solto as víboras de minha respiração ao acaso.

Estou lá dançando & chega a minha vez.

A conta? R$ 50,00.

Pego orgulhoso o Ticket Alimentação para pagar &…

— Cartão Inválido.

Tento outra vez.

Mesma mensagem.

Chega um “superior” & diz: “A empresa não se encontra no nosso cadastro.”

Faço uma cara triste & deixo a feira lá… mas, continuo dançando.

No ponto de ônibus — ainda dançando — começo a rir.

É, parece que um urubu pousou mesmo em minha sorte…

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