ALGUNS ANTIPOEMAS DE NICANOR PARRA

tradução livre de IkaRo MaxX

AUTO-RETRATO

Considerai, meninos,
este sobretudo de frade mendicante:
Sou professor de um liceu escuro,
perdi minha voz dando aulas.
(Depois de tudo ou nada
faço quarenta horas semanais).
O que os diz minha cara esbofetada?
É verdade que é lastimoso me olhar!
E o que os sugerem estes sapatos de cura
que envelheceram sem arte ou parte.

Em matéria de olhos, a três metros
não reconheço nem a minha própria mãe.
O que me acontece? — Nada!
Eu os arruinei dando aulas:
A má iluminação, o sol,
A miserável lua venenosa.
E tudo para que?
Para ganhar o pão imperdoável
duro como a face do burguês
e com cheiro e gosto de sangue.
Para quê temos nascido homens
se nos dão uma morte animalesca?

Pelo excesso de trabalho, às vezes
vejo formas estranhas no ar,
ouço corridas loucas,
Risadas, conversas criminosas.
Observai estas mãos
e estas bochechas brancas de cadáver,
estes escassos cabelos que me restam.
Estas negras rugas infernais!
Mas eu era tal como vocês,
jovem, cheio de belos ideais
sonhei fundindo o cobre
& limando as caras do diamante:
Aqui me têm hoje
por trás deste birô desconfortável
brutalizado pela cantilena
das quinhentas horas semanais.

***

EPITÁFIO

De estatura mediana,
com uma voz nem fina nem grossa,
filho primogênito de professor primário
E de uma costureira de pequenas lojas;
Fraco de nascimento
ainda que devoto da boa comida;
de bochechas esquálidas
e de muito abundantes orelhas;
com seu rosto quadrado
e que os olhos apenas se abrem
e um nariz de boxeador mulato
Embaixo, a boca de ídolo azteca
- tudo isso banhado
por uma luz entre pérfida e irônica-
Nem muito inteligente nem de todo tolo
Fui o que fui: uma mistura
de vinagre e óleo de cozinha
uma salsicha de anjo e animal.

***

ODE AOS POMBOS

Que divertidos são
estes pombos que zombam todos
com seus pequenas penas coloridas
e suas enormes barrigas redondas.
Passam da sala de jantar para a cozinha
como folhas de outono espalhadas
e no jardim se instalam a comer
moscas, de tudo um pouco,
picotam as pedras amarelas
ou ficam nas costas do touro:
mais ridículas são que uma espingarda
ou que uma rosa cheia de piolhos.
Seus estudados vôos, no entanto,
hipnotizam mancos e aleijados
que creem ver nelas
a explicação deste mundo e do outro.
Embora não deve se confiar porque têm
o olfato de raposa,
a inteligência fria do réptil
e a larga experiência do papagaio.
Mais hipnóticas são que o professor
e que o abade que cai acima do peso.
Mas ao menor descuido se abalam
como bombeiros loucos,
entram no edifício pela janela
e se apoderam da caixa de dinheiro.

Veja se alguma vez
realmente nos reunimos
e nos colocamos firmes
como galinhas que defendem seus pintinhos.

***

RECORDAÇÕES DA JUVENTUDE

O certo é que ia de um lado a outro,
às vezes me chocava com as árvores,
chocava com os mendigos,
abria o passo através de um bosque de cadeiras e mesas,
com a alma em um fio olhava cair as grandes folhas.
Mas era tudo inútil,
Cada vez me afundava mais e mais em uma espécie de geléia;
As pessoas se riam de minhas explosões,
Os indivíduos se agitavam em suas poltronas como algas movidas pelas ondas
e as mulheres me dirigiam olhares de ódio
trazendo-me, fazendo-me perder,
fazendo-me rir e chorar contra minha vontade.

De tudo isto resultou um sentimento de asco,
resultou uma tempestade de frases incoerentes,
ameaças, insultos, juramentos que não vinham ao caso,
resultaram em extenuantes movimentos de quadril,
aquelas danças fúnebres
que me deixavam sem respiração
e que me impediam de levantar a cabeça por dias
durante noites.

Eu ia de um lado a outro, é verdade,
minha alma flutuava nas ruas
pedindo socorro, pedindo um pouco de ternura;
com uma folha de papel e um lápis eu entrava nos cemitérios
disposto a não me deixar iludir.
Dava voltas e voltas em torno do mesmo assunto,
observava de perto as coisas
ou em um ataque de raiva me arrancava os cabelos.

Dessa maneira fiz minha iniciação nas salas de aula,
como um ferido à bala me arrastei pelos ateneus,
cruzei o limiar de casas particulares,
com o fio da língua tratei de comunicar-me com os espectadores:
Eles liam o jornal
ou desapareciam atrás de um táxi.

Onde ir, então!
A essas horas o comércio estava fechado;
eu pensava em um pedaço de cebola visto durante a janta
e no abismo que nos separa dos outros abismos.

***

OS VÍCIOS DO MUNDO MODERNO

Os delinquentes modernos
estão autorizados a concorrer diariamente
a parques e jardins.
Armados de poderosos óculos e de relógios de bolso
entram com sacos nos quiosques favorecidos pela morte
e instalam seus laboratórios entre as roseiras em flor.
Dali controlam a fotógrafos e mendigos que deambulam pelos arredores
procurando levantar um pequeno templo à miséria
e se se apresenta a oportunidade chegam a possuir um engraxate melancólico.
A polícia aterrorizada foge destes monstros
em direção ao centro da cidade
de onde estalam grandes incêndios de fim de ano
e um valentão encapuzado põe as mãos em cima de suas mães de caridade.

Os vícios do mundo moderno:
o automóvel e o cinema sonoro,
as discriminações raciais,
o extermínio dos peles vermelhas,
os truques da alta classe branca,
a catástrofe dos anciãos,
o comércio clandestino de mulheres brancas realizado por sodomitas internacionais,
o auto-hype e a gula,
das Pompas Fúnebres,
os amigos pessoais de sua excelência,
a exaltação do folclore à categoria do espírito,
o abuso dos estupefacientes e da filosofia,
o amolecimento dos homens favorecidos pela fortuna,
o auto-erotismo e a crueldade sexual,
a exaltação do onírico e do subconsciente à custa do bom senso,
a confiança exagerada em soros e vacinas,
a deificação do falo,
a política internacional de pernas abertas patrocinada pela imprensa reacionária,
o afã desmedido por poder e lucro,
a corrida do ouro,
a fatídica dança dos dólares,
a especulação e o aborto,
a destruição dos ídolos.
o superdesenvolvimento da dieta e da psicologia pedagógica 
o vício na dança, cigarros e jogos de azar,
as gotas de sangue geralmente encontradas entre as folhas dos recém-casados,
a loucura do mar,
a agorafobia e a claustrofobia,
a desintegração do átomo,
o humorismo sangrento da teoria da relatividade,
o delírio de retorno ao útero,
o culto do exótico,
os acidentes aeronáuticos,
as cremações, expurgos em massa, a retenção de passaportes,
Tudo isto porque sim,
porque produz vertigem,
A interpretação dos sonhos
e a propagação da radiomania.

Como fica demonstrado, o mundo moderno se compõe de flores artificiais
que se cultivam em uns sinos de vidro parecidos à morte,
está formado por estrelas de cinema,
e de pugilistas sangrentos que lutam à luz da lua,
se compõem de homens rouxinóis que controlam a vida econômica dos países
mediante alguns mecanismos fáceis de explicar;
Eles vestem geralmente preto como os precursores do outono
e se alimentam de raízes e ervas silvestres.
Entretanto os sábios, comido pelos ratos,
apodrecem nos porões das catedrais,
e as almas nobres são perseguidas implacavelmente pela polícia.

O mundo moderno é uma grande cloaca:
os restaurantes de luxo estão atestados de cadáveres digestivos
e de pássaros que voam perigosamente em escassa altura.
Isto não é tudo: os hospitais estão cheios de impostores,
sem mencionar aos herdeiros do espírito que estabelecem suas colônias no ano dos recém operados.

Os industriais modernos sofrem às vezes o efeito da atmosfera envenenada,
junto às máquinas de tecer geralmente caem enfermos do espantoso mal do sonho
que os transforma ao longe em uma espécie de anjos.
Negam a existência do mundo físico
e se vangloriam de serem filhos pobres do sepulcro.
No entanto, o mundo tem sido sempre assim.
A verdade, como a beleza, não se cria nem se perde
e a poesia reside nas coisas ou é simplesmente um espelhismo do espírito.
Reconheço que um terremoto bem concebido
pode acabar em poucos segundos com uma cidade rica em tradições
e que um minucioso bombardeio aéreo
derruba árvores, cavalos, tronos, música.
Mas o que importa de tudo isto
se enquanto a maior bailarina do mundo
morre pobre e abandonada em uma pequena aldeia no sul da França
a primavera devolve ao homem uma parte das flores desaparecidas.

Tratemos de ser felizes, recomendo, chupando a miserável costela humana.
Extraiamos dela o líquido renovador,
cada qual de acordo com suas inclinações pessoais.
Aferremo-nos a esta ruína divina!
Ofegantes e tremebundos
chupemos estes lábios que nos enlouquecem:
a sorte está lançada.
Aspiremos este perfume enervante e destruidor
e vivamos um dia mais a vida dos eleitos:
de suas axilas extrai o homem a cera necessária para forjar o rosto de seus ídolos.
E do sexo da mulher a palha e o barro de seus templos.
Por tudo isso
deixo crescer um piolho em minha gravata
e sorrio para os imbecis que descem das árvores.

***

ADVERTÊNCIA AO LEITOR

O autor não responde às moléstias que possam ocasionar seus escritos:
ainda que goste.
O leitor terá que se dar sempre por satisfeito.
Sabelius, que além de teólogo foi um humorista consumado,
depois de ter reduzido a poeira o dogma da Santíssima Trindade
responde por acaso à sua heresia?
E se chegou a responder, como o fez!
De que forma descabelada!
Rebaixando-se a que cúmulo de contradições!

Segundo os doutores da lei este livro não deveria ser publicado:
A palavra ‘arco-íris’ não aparece em nenhuma parte dele,
menos ainda a palavra ‘dor’,
a palavra ‘torcuato’.
Cadeiras e mesas se figuram em massa,
Ataúdes, artigos de escritório!
O que me enche de orgulho
Porque, a meu ver, o céu está caindo aos pedaços.

Os mortais que leram o Tractatus de Wittgenstein
podem bater-se com pedras no peito
porque é uma obra difícil de alcançar:
Mas o Círculo de Viena se dissolvou há anos,
seus membros se dispersaram sem deixar vestígios
e eu decidi declarar guerra aos cavalieri da lua.

Minha poesia pode perfeitamente não conduzir a nenhuma parte:
“As risadas deste livro são falsas!”, argumentaram meus detratores
“Suas lágrimas, artificiais!”
“Em vez de suspirar, nestas páginas se bosteja”
“Se debate como uma criança de colo”
“O autor se dá a entender a espirros”
Conforme: os convido a queimar vossas naves,
como os fenícios pretendo fazer meu próprio alfabeto.
“Para que molestar o público, então?”, perguntam-se os amigos leitores:
“Se o próprio autor começa por desprestigiar seus escritos,
o que poderá se esperar deles!”
Cuidado, eu não desprestigio nada
Ou, melhor dito, eu exalto meu ponto de vista,
me vanglorio de minhas limitações
coloco nas nuvens minhas criações.

Os pássaros de Aristófanes
enterravam em suas próprias cabeças
os cadáveres de seus pais.
(cada pássaro era um verdadeiro cemitério voante)
Em meu modo de ver
chegou a hora de modernizar esta cerimônia
e eu enterro minhas penas na cabeça dos senhores leitores!

***

PERGUNTAS NA HORA DO CHÁ

Este senhor desbotado parece
a figura de um museu de cera;
Olhe através das cortinas podres:
o que vale mais, ouro ou beleza?
vale mais o arroio que se move
ou a chépica fixa na beira?
Ao longe se ouve um sino
que abre uma ferida mais, ou a fecha:
É mais real a água da fonte
ou menina olhando para ela?
Não se sabe, as pessoas passam
a construir castelos na areia.
É superior o vaso transparente
à mão do homem que o cria?
Respira-se uma atmosfera cansada
de cinza, de fumaça, de tristeza:
o que se viu uma vez já não volta
a ver igual, dizem as folhas secas.
Hora do chá, torradas, margarina.
Tudo embrulhado em uma névoa.

***

NOTAS DE VIAGEM

Eu me mantive distante de meu posto durante anos
dediquei-me a viajar, a trocar impressões com meus interlocutores
dediquei-me a dormir;
Mas as cenas vividas em épocas anteriores se faziam presentes em minha memória.
Durante a festa eu pensava em coisas absurdas:
Pensava em umas alfaces vistas no dia anterior
ao passar na frente da cozinha,
pensava um sem-número de coisas fantásticas relacionadas com minha família;
Entretanto o barco já havia entrado no rio
abria passos através de um banco de medusas.
Aquelas cenas fotográficas afetavam meu espírito,
me obrigavam a me fechar em meu camarote;
comia à força, me rebelava contra mim mesmo,
constituía um perigo permanente a bordo
posto que em qualquer momento poderia sair com um contrassenso.

***

É ESQUECIMENTO

Juro que não me recordo nem seu nome
Mas morrerei chamando-a Maria,
não por simples capricho de poeta:
por seu aspecto de praça de província.
Tempos aqueles, eu um espantalho,
ela uma jovem pálida e sombria.
Ao voltar uma tarde do Liceu
soube de sua morte imerecida,
notícia que me causou tal desengano
que derramei uma lágrima ao ouvi-la.
Uma lágrima, sim, quem o creria!
E isso por ser uma pessoa de energia.
Se hei de conceder crédito ao dito
pela gente que mo trouxe a notícia
deve ser, sem vacilar um ponto,
que morreu com meu nome nas pupilas,
feito que me surpreende, porque nunca
foi para mim outra coisa além de amiga.
Nunca tive com ela mais do que simples
relações de estrita cortesia,
nada mais que palavras e palavras
e uma ou outra menção de andorinhas.
A conheci em meu povoado (de meu povoado
só restam um punhado de cinzas),
mas jamais vi nela outro destino
que o de uma jovem triste e pensativa.
Tanto foi assim que até cheguei a tratá-la
com o celeste nome de Maria,
circunstância que prova claramente
a exatidão central de minha doutrina.
Pode ser que uma vez a tenha beijado,
Quem é que não beija as suas amigas!
Mas tenha presente que o fiz
sem dar-me conta bem do que fazia.
Não negarei, isso sim, que gostava
de sua imaterial e vaga companhia
que era como o espírito sereno
que às flores domésticas anima.
Eu não posso ocultar de nenhum modo
a importância que teve seu sorriso
nem desvirtuar o favorável influxo
que até nas mesmas pedras exercia.
Agreguemos, ainda, que da noite
foram seus olhos fonte fidedigna.
Mas, apesar de tudo, é necessário
que compreendam que já não a queria
senão com esse vago sentimento
com que a um paciente enfermo se designa.
No entanto sucede, porém,
o que a esta data ainda me maravilha,
esse inaudito e singular exemplo
de morrer com meu nome nas pupilas,
ela, múltipla rosa imaculada,
ela que era uma lâmpada legítima.
Tem razão, muita razão, a gente
que se passe noite de dia queixando-se
de que o mundo traidor em que vivemos 
vale menos que roda parada:
Muito mais honrável é uma tumba,
vale mais uma folha esmorecida,
Nada é verdade, aqui nada perdura,
nem a cor do cristal com que se olha.
Hoje é um dia azul de primavera,
Creio que morrerei de poesia,
dessa famosa jovem melancólica
não recordo nem o nome que tinha.
Só sei que passou por este mundo
como uma pomba fugitiva:
a esqueci sem querê-lo, lentamente,
como todas as coisas da vida.

***

O PEREGRINO

Atenção, senhoras e senhores, um momento de atenção:
Voltem um instante a cabeça até este lado da república,
esqueçam por uma noite vossos assuntos pessoais,
o prazer e a dor podem aguardar à porta:
uma voz se ouve deste lado da república.
Atenção, senhoras e senhores, um momento de atenção!

Uma alma que estava engarrafada durante anos
em uma espécie de abismo sexual e intelectual
alimentando-se escassamente pelo nariz
deseja se fazer escutar por vocês.
Desejo que se me informe sobre algumas matérias,
necessito de um pouco de luz, o jardim se cobre de moscas,
encontro-me em um desastroso estado mental,
raciocino à minha maneira;
enquanto digo estas coisas vejo uma bicicleta apoiada em um muro,
vejo uma ponte
e um automóvel que desaparece entre os edifícios.

Vocês se penam, é certo, vocês andam a pé pelos jardins,
debaixo da pele de vocês tem outra pele,
vocês possuem um sétimo sentido
que os permite entrar e sair automaticamente.
Mas eu sou um menino que chama a sua mãe por trás das rochas,
sou um peregrino que faz saltar as pedras na altura de seu nariz,
uma árvore que pede a gritos que se cubra de folhas.

***

SOLILÓQUIO DO INDIVÍDUO

Eu sou o Indivíduo.
Primeiro vivi em uma rocha
(ali gravei algumas figuras).
Logo busquei um lugar mais apropriado.
Eu sou o Indivíduo.
Primeiro tive que me procurar alimentos,
buscar peixes, pássaros, catar lenha,
(Já me preocuparia com os demais assuntos).
Fazer uma fogueira,
lenha, lenha, onde encontrar um pouco de lenha,
um pouco de lenha para fazer uma fogueira,
Eu sou o Indivíduo.
Ao mesmo tempo me perguntei,
Fui a um abismo cheio de ar;
Respondeu-me uma voz:
Eu sou o Indivíduo.
Depois tratei de mudar-me para outra rocha,
Ali também gravei figuras,
Gravei um rio, búfalos,
gravei uma serpente
Eu sou o Indivíduo.
Mas não. Entediei-me das coisas que fazia,
O fogo me incomodava,
queria ver mais,
Eu sou o Indivíduo.
Desci a um vale regado por um rio,
Ali encontrei o que necessitava,
Encontrei um povo selvagem,
Uma tribo,
Eu sou o Indivíduo.
Vi que ali se faziam algumas coisas,
Figuras gravavam nas rochas,
faziam fogo, também faziam fogo!
Eu sou o Indivíduo.
Perguntaram-me de onde eu vinha.
Contestei que sim, que não tinha planos determinados,
Contestei que não, que dali em diante.
Bem.
Tomei então um pedaço de pedra que encontrei em um rio
e comecei a trabalhar com ela,
comecei a poli-la,
dela fiz uma parte de minha própria vida.
Mas isto é demasiado largo.
Cortei umas árvores para navegar,
buscava peixes,
buscava diferentes coisas,
(Eu sou o Indivíduo).
Até que comecei a me entediar novamente.
As tempestades entediam,
Os trovões, os relâmpagos,
Eu sou o Indivíduo.
Bem. Pus-me a pensar um pouco,
perguntas estúpidas vinham na cabeça.
Falsos problemas.
Então comecei a vagar pelos bosques.
Cheguei a uma árvore e a outra árvore;
cheguei a uma fonte,
a uma fossa em que se via alguns ratos:
Aqui venho eu, disse então,
Vistes por aqui uma tribo,
um povo selvagem que faz fogo?
Deste modo me desloquei até o oeste
acompanhado por outros seres
ou bem melhor sozinho.
Para ver há que crer, me diziam,
Eu sou o Indivíduo.
Formas vinham na escuridão,
Nuvens talvez,
Talvez vinham nuvens, vinham relâmpagos,
A isto tudo já haviam passado vários dias,
Eu me sentia morrer;
Inventei umas máquinas,
construí relógios,
armas, veículos,
Eu sou o Indivíduo.
Apenas tinha tempo para enterrar meus mortos,
Apenas tinha tempo para semear,
Eu sou o Indivíduo.
Anos mais tarde concebi umas coisas,
umas formas,
cruzei as fronteiras
e permaneci fixo em uma espécie de nicho,
em uma barca que navegou quarenta dias,
quarenta noites,
Eu sou o Indivíduo.
Logo vieram umas secas,
vieram umas guerras,
Tipos de cor entraram no vale,
mas eu devia seguir adiante,
devia produzir.
Produzi ciência, verdades imutáveis,
produzi estátuas,
Dei a luz a livros de milhares de páginas,
me inchou a cara,
construí um fonógrafo,
a máquina de costurar,
começaram a aparecer os primeiros automóveis,
Eu sou o Indivíduo.
Alguém segregava planetas,
Árvores segregava!
Mas eu segregava ferramentas,
móveis, artigos de escritório,
Eu sou o Indivíduo.
Construíram-se também cidades
Rotas
Instituições religiosas saíram de moda,
Buscavam fortuna, buscavam felicidade,
Eu sou o Indivíduo.
Depois me dediquei melhor a viajar,
a praticar, a praticar idiomas
Idiomas
Eu sou o Indivíduo.
Olhei por uma fechadura.
Si, olhei, que digo, olhei.
Para sair da dúvida olhei,
por trás das cortinas,
Eu sou o Indivíduo.
Bem.
Melhor é talvez voltar a esse vale,
a essa rocha que me serviu de casa,
e comece a gravar de novo,
de trás pra frente gravar
o mundo ao avesso.
Mas não: a vida não tem sentido.

***

HÁ UM DIA FELIZ

A recorrer me dediquei esta tarde
às solitárias ruas de minha aldeia
acompanhado pelo bom crepúsculo
que é o único amigo que me resta.
Todo está como então, o outono
e sua difusa lâmpada de névoa,
só que o tempo invadiu tudo
com sua pálido manto de tristeza.
Nunca pensei, creia-me, um instante
voltar a ver esta querida terra,
mas agora que voltei não compreendo
como pude distanciar-me de sua porta.
Nada mudou, nem suas casas brancas
nem seus velhos portões de madeira.
Tudo está em seu lugar; as andorinhas
na torre mais alta da igreja;
o caracol no jardim, e o musgo
nas úmidas mãos das pedras.
Não se pode duvidar, este é o reino
do céu azul e das folhas secas
onde toda a cada coisa tem
sua singular e plácida lenda:
até na própria sombra reconheço
o olhar celeste de minha avó.
Estes foram os feitos memoráveis
que presenciou minha primeira juventude,
o córrego na esquina da praça
e a umidade nas muralhas velhas.
Boa coisa, meu Deus, nunca se sabe
apreciar a felicidade verdadeira,
quando a imaginamos mais distante
é justamente quando está mais próxima.
Ai de mim, ai de mim, algo me diz
que a vida não é mais do que uma quimera;
uma ilusão, um sonho sem margens,
uma pequena nuvem passageira.
Vamos por partes, não sei bem o que digo,
A emoção me sobe à cabeça.
Como já era hora de silêncio
quando empreendi minha singular empresam
uma após a outra, em onda silenciosa,
ao estábulo voltavam as ovelhas.
As saldei pessoalmente a todas
e quando estive frente ao bosque
que alimenta o ruído do vilarejo
com sua inefável música secreta
recordei o mar e enumerei as folhas
em homenagem a minhas irmãs mortas.
Perfeitamente bem. Segui minha viagem
como quem da vida nada espera.
Passei frente à roda do moinho,
detive-me diante de uma tenda:
o cheiro do café sempre é o mesmo,
sempre a mesma lua sobre minha cabeça,;
Entre o rio de então e o rio de agora
não distinguo diferença alguma.
O reconheço bem, está é a árvore
que meu pai plantou em frente à porta
(Ilustre pai que em seus bons tempos
fora melhor do que uma janela aberta).
Eu me atrevo a afirmar que sua conduta
era uma transcrição fiel da Idade Média
Quando o cachorro dormia docemente
sob o ângulo reto de uma estrela.
A estas alturas sinto que me envolve
o delicado perfume das violetas
que minha amorosa mãe cultivava
para curar a tosse e a tristeza.
Quanto tempo passou desde então
não poderia dizê-lo com certeza;
Tudo está igual, seguramente,
o vinho e o rouxinol em cima da mesa,
meus irmãos menores a este hora
devem voltar da escola:
só que o tempo borrou tudo
como uma branca tempestade de areia!

***

A VÍBORA

Durante longos anos estive condenado a adorar a uma mulher desprezível
sacrificar-me por ela, sofrer humilhações e provocações sem conta,
trabalhar dia e noite para alimentá-la e vesti-la,
levar a cabo alguns delitos, cometer algumas faltas,
à luz da lua realizar pequenos roubos,
falsificar documentos comprometedores,
sob pena de cair em descrédito ante seus fascinantes olhos.
Em horas de compreensão costumávamos frequentar parques
e nos fotografar juntos conduzindo um barco a motor
ou íamos a um café dançante
onde nos entregávamos a uma dança selvagem
que se prolongava até altas horas da madrugada.

Por longos anos vivi prisioneiro do encanto daquela mulher
que geralmente se apresentava na minha oficina completamente nua
executando as contorções mais difíceis de imaginar
com o propósito de incorporar minha pobre alma à sua órbita
e, sobretudo, para me extorquir até o último centavo.
Proibia-me estritamente que me relacionasse com minha família.
Meus amigos eram separados de mim mediante libelos infames
que a víbora fazia publicar em um diário de sua propriedade.
Apaixonada até o delírio não me dava um instante de trégua,
exigindo-me peremptoriamente que beijasse sua boca
e que respondesse sem atraso suas néscias perguntas
várias delas referentes à eternidade e à vida futura
temas que produziam em mim um lamentável estado de ânimo,
zumbido nos ouvidos, náuseas entrecortadas, desvanecimentos prematuros
que ela sabia aproveitar com esse espírito prático que a caracterizava
para vestir-se sem perda de tempo
e abandonar meu departamento deixando-me com um palmo de narizes.

Esta situação se prolongou por mais de cinco anos.
Por temporadas vivíamos juntos em uma pela redonda
que pagávamos dividindo em um bairro de luxo perto do cemitério.
(Algumas noites tivemos que interromper nossa lua de mel
para fazer frente aos ratos que se colavam na janela).
Levava a víbora um minucioso livro de contas
no qual anotava até o mínimo centavo que eu lhe pedia de empréstimo;
Não me permitia usar a escova de dentes que eu mesmo a havia presenteado
e me acusava de haver arruinado sua juventude:
lançando chamas pelos olhos me citava a comparecer diante de um juiz
e pagar-lhe dentro de um prazo prudente parte da dívida
pois ele necessitava desse dinheiro para continuar seus estudos
então teve que sair à rua e viver da caridade pública,
dormir em bancos de praças,
onde foi encontrada muitas vezes pela polícia
entre as primeiras horas do outono.
Felizmente aquele estado de coisas não passou mais à frente,
porque certa vez em que me encontrava também
pousando frente a uma câmera fotográfica
umas deliciosas mãos femininas me vedaram a vista de imediato
ao mesmo tempo em que uma voz amada me perguntava quem era eu.
Tu era meu amor, respondi com serenidade.
Anjo meu, disse ela nervosamente,
permite que me sente em teu colo mais uma vez!
Então pude me perceber que ela se apresentava agora provista de uma pequena tanga.
Foi um encontro memorável, ainda que cheio de notas discordantes:
Comprei-me um terreno, não muito longe do matadouro, exclamou,
Ali penso em construir uma espécie de pirâmide
na qual podemos passar os últimos dias de nossa vida.
Já terminei meus estudos, que recebi de advogado,
disponho de um bom capital;
Dediquemo-nos a um negócio produtivo, os dois, meu amor, acrescentou,
distantes do mundo construamos nosso ninho.
Basta de sandices, repliquei, teus planos me inspiram desconfiança,
pensa que de um momento a outro minha mulher verdadeira
pode deixar a nos na mais abjeta pobreza.
Meus filhos já estão crescidos, o tempo passou,
sinto-me profundamente esgotado, deixe-me descansar um momento,
Traga-me um pouco de água, mulher,
Consiga-me algo para comer em alguma parte,
Estou morto de fome,
não posso trabalhar mais para você,
está tudo acabado entre nós.