NOITE

IkaRo MaxX
Jul 30, 2017 · 2 min read

Atingi o nível de maturidade alcoólica onde já não há espaço para Deus ou para questões eternas

A minha busca se dá no deserto da Grande Noite. A noite sem fim. A Noite de Céline, de Fellini ou de alguém desequilibrado & em rota de fuga

A minha noite é uma coleção de colares de sombras & de feitos gigantescos que ninguém vê. A folia dos mortos com os vivos

Não faço questão de ser santo

Tampouco me esforço para parecer vil ou diabólico

Para se dissipar o peso da nostalgia se faz necessário sacudir dos ossos as impressões digitais do passado, o peso incômodo das tradições, a secularidade morna & os ritos triviais

Varrer dos olhos & dos sentidos a ânsia absoluta & feroz de futuro, com sua projeção idealizada. É noite, vivo & morro sem causa alguma

A noite é a sagração da primavera com pingentes feito de sangue & sonhos irrealizados. Máscaras que caem como céus superados. Torpor de nuvens que se agitam nas veias

Noite que é cigana como os astros que fogem em disparada nas órbitas, sem trilhos num espaço infindo

Saco de pancadas para ócios poéticos ou diabolias sem propósito

Alucinação do ópio & da cachaça, renegando as massas, renegando os batismos

Dança de Shiva com incontáveis braços montando o (M)OM dos lábios de uma vaca alucinada na Índia

Dança da chuva entre tribos iorubás em cânticos xamânicos fervorosos que levam o espírito ao acesso da Visão por trás das sete chaves da floresta

Tambores que carrego em minha respiração, língua & voz enrouquecidas

Pupila dilatada encarando o Sol Negro do universo ao avesso

As fronteiras derrubadas sob as primeiras carícias verdadeiras

Noite em que olhei meu diabo sério, pela primeira vez, no fundo dos olhos. A solenidade era tanta que dançamos sem questões na ponta da língua

“Mata-se com o riso & nós queremos viver.”

Noite que usa meu corpo como um rio de palavras que desce uma avenida povoada de vitrines em que os tolos se olham

Noite que é clandestinidade a olhos vistos

Noite que é o ringue dos sussurros & gemidos, como se compartilhássemos poemas proibidos sob o fétido véu das normas

Noite em que as tensões imprimem nos corpos suas vontades íntimas surpreendidas num momento de reflexão sem pensamentos certos, em fluxo escorregadio, como se batesse numa máquina de escrever sua luxúria & suas fomes

& conjuga enxertos & fractais de silêncios irritados com o excesso de luzes & atira em uma esquina a violenta imprevisibilidade

Carrega seus cadáveres & segredos para onde o sol se esconde

Noite que revoga a decisão suprema dos tigres & das presas, invertendo subitamente suas regras & papéis

Ventiladores calados em estado de espanto em um quarto de motel mofado

Noite em que o congresso de fumaça anunciam outros tipos de incêndio

Noite em que esqueço que estou apenas escrevendo

Corpos que formam indistinto tapete de peles, roncos que formam uma sinfonia de floresta

Escuridão prenhe de iluminação

IkaRo MaxX

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A minha filosofia é o grito.

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