NOITE
Atingi o nível de maturidade alcoólica onde já não há espaço para Deus ou para questões eternas
A minha busca se dá no deserto da Grande Noite. A noite sem fim. A Noite de Céline, de Fellini ou de alguém desequilibrado & em rota de fuga
A minha noite é uma coleção de colares de sombras & de feitos gigantescos que ninguém vê. A folia dos mortos com os vivos
Não faço questão de ser santo
Tampouco me esforço para parecer vil ou diabólico
Para se dissipar o peso da nostalgia se faz necessário sacudir dos ossos as impressões digitais do passado, o peso incômodo das tradições, a secularidade morna & os ritos triviais
Varrer dos olhos & dos sentidos a ânsia absoluta & feroz de futuro, com sua projeção idealizada. É noite, vivo & morro sem causa alguma
A noite é a sagração da primavera com pingentes feito de sangue & sonhos irrealizados. Máscaras que caem como céus superados. Torpor de nuvens que se agitam nas veias
Noite que é cigana como os astros que fogem em disparada nas órbitas, sem trilhos num espaço infindo
Saco de pancadas para ócios poéticos ou diabolias sem propósito
Alucinação do ópio & da cachaça, renegando as massas, renegando os batismos
Dança de Shiva com incontáveis braços montando o (M)OM dos lábios de uma vaca alucinada na Índia
Dança da chuva entre tribos iorubás em cânticos xamânicos fervorosos que levam o espírito ao acesso da Visão por trás das sete chaves da floresta
Tambores que carrego em minha respiração, língua & voz enrouquecidas
Pupila dilatada encarando o Sol Negro do universo ao avesso
As fronteiras derrubadas sob as primeiras carícias verdadeiras
Noite em que olhei meu diabo sério, pela primeira vez, no fundo dos olhos. A solenidade era tanta que dançamos sem questões na ponta da língua
“Mata-se com o riso & nós queremos viver.”
Noite que usa meu corpo como um rio de palavras que desce uma avenida povoada de vitrines em que os tolos se olham
Noite que é clandestinidade a olhos vistos
Noite que é o ringue dos sussurros & gemidos, como se compartilhássemos poemas proibidos sob o fétido véu das normas
Noite em que as tensões imprimem nos corpos suas vontades íntimas surpreendidas num momento de reflexão sem pensamentos certos, em fluxo escorregadio, como se batesse numa máquina de escrever sua luxúria & suas fomes
& conjuga enxertos & fractais de silêncios irritados com o excesso de luzes & atira em uma esquina a violenta imprevisibilidade
Carrega seus cadáveres & segredos para onde o sol se esconde
Noite que revoga a decisão suprema dos tigres & das presas, invertendo subitamente suas regras & papéis
Ventiladores calados em estado de espanto em um quarto de motel mofado
Noite em que o congresso de fumaça anunciam outros tipos de incêndio
Noite em que esqueço que estou apenas escrevendo
Corpos que formam indistinto tapete de peles, roncos que formam uma sinfonia de floresta
Escuridão prenhe de iluminação