PÓS-IRONIA
Ainda sem despertar, mantenho duramente os olhos fechados. O céu tossindo como se uma virose fosse chover, ou estivesse já chovendo. Uma vez que encontro-me desprovido de pele, ou mesmo de órgãos, não posso sentir ou saber o que se trata. O destino rumina silenciosamente. A impressão é que fui atirado para um limbo antes ou depois do tempo. Como saber?
Talvez o mais próximo de uma certeza é que murcho como se amputasse de mim as vegetações densas & extremas, estivesse sendo garimpado por mãos invisíveis & maníacas, roubando de mim todos os sóis & esquadrinhamentos lunares. Jogam sinuca com a minha sorte. Não me deixam sequer saber qual é a forma do tal tabuleiro ou se dá para dançar ou não em cima da mesa.
Um crime cresce vertiginosamente dentro deste espaço sem espelhos & luzes. Subtraído das fórmulas, os perfumes incendiando ao longe, as pegadas das lágrimas ainda surgem como cinzas de um dia de verão enforcado na doçura dos calendários de cozinha. Desço ao porão da minha alma & estão empalados doze tigres & macacos. Nos dentes, restos de DNA esquecido.
Num quadro — como o de Dorian Gray — jaz a minha última gargalhada. Tusso novamente & sinto meus olhos expandirem como se alisassem um espasmo fino de vida. Brumas de pesadelos irrespiráveis.
Nesta vida nem morrer, nem viver é novidade. A cena está rasgada diante dos olhos. Sempre se vê algo que joga a sombra sobre olhos dizimados. O espectro do arco-íris refletido nos esgotos do soluço que o céu abafa. O céu com suas estrelas pesadas & suas nuvens que desfilam num chão sobre nossas cabeças.
As estrelas que se mocam de nossa ruína & que estão indiferentes às alegrias. Esses pequenos calmantes nesta via congestionada entre as confusões de desejos. Pílulas de filosofias frias.
O mundo pós-ironia.