SINA DE ARTISTA (fragmento)

O artista é aquela criatura incrível feita para sofrer o pão que o diabo amassou: é o esquisito da família, da rua, do condomínio, às vezes distraído ou excessivamente obsessivo com algumas coisas,

aquela pessoa que pode ser extremamente introspectiva ou espalhafatosa em termos de socialização, aquele que é taxado de louco ou que mete medo ou receio em algumas mulheres que se querem passar por “puras” ou “superioras” na escala social,

aquele que é visto com certa aura mítica ao seu redor, aquele que é visto dançando quando não tem música no ar,

aquele que a família olha & diz “acho que ele é um caso clínico”,

aquele que as pessoas às vezes evitam na rua por se embriagar ou às vezes andar maltrapilho…

O artista é aquela criatura dócil & eletrizada, feroz & delicada,

aquele que berra de vez em quando, que canta na escuridão, que ziguezazeia como cachorro no cio quando quer um pouco de amor.

Que mata, morre, que morre de amores & mais amores impossíveis ou mesmo possíveis, mas cujas portas são fechadas na cara apenas por não ter uma “posição social”, um “status”, um “emprego aceitável”, um uso “socialmente útil” do tempo, um alienado que tem uma mística própria, uma busca religiosa própria

— ou que despreza mesmo esse lado em busca de um desenfreado materialismo sensualista, ou um sentido de ética tão extremo que chega a doer,

ou mesmo um sujeito um pouco desconfiado com as etiquetas, com os “corretos” ou os “errados” do grande coro da sabedoria milenar do senso comum,

às vezes alguém que viu, sentiu, sofreu demais… para além do amontoado de séculos chamado História da Espécie Humana.

O artista sofre onde está… se está ativo ou inativo, se tem idéias em demasia & se está seco & esgotado.

O artista sofre em silêncio ou no palco, sob os holofotes.

Não tem papel mais pesado a representar do que a ele mesmo… no seio do seu próprio conflito, no seu caos interior & exterior, alimentado de suas próprias chagas & glórias, buscando saltar para o Impossível.

Os artistas são execrados milenarmente enquanto as massas preferem os santos da Religião ou os mártires políticos.

Porque o artista não fala necessariamente “a língua do povo” ou a “língua do seu século”… ele inventa sua própria língua, quando o faz de modo radical, com sua própria vida, tingindo de suor, sangue, sêmen o seu trajeto de putrefações & renascimentos cotidianos.

Artistas são crucificados pelo olhar distorcido da sociedade há séculos, no entanto, é o artista que traduz melhor o diálogo com as forças do cosmos do que jamais poderia traduzir o cientista, o terapeuta/psicólogo, o educador ou o pastor.

Ele tem um canal direto para o divino, & sabe que o preço a pagar por ele é também viver um pouco dentro de vários infernos.

Maio. 2014