Sobre o Amor de Stendhal, por José Ortega y Gasset

tradução livre do original: IkaRo MaxX

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Os amores comparados de Chateaubriand e de Stendhal constituiriam um tema de alto rendimeno psicológico, que ensinaria algumas coisas aos que falam tão rapidamente de Don Juan. Aqui temos dois homens de gigantesco poder criador. Não se dirá que são dois senhorezinhos chulos — imagem ridícula na que tem sido reduzido Don Juan para certas mentes estreitíssimas e ermas. Porém, estes dois homens dedicaram suas melhores energias a procurar viver sempre apaixonados. Não o conseguiram, certamente. Pelo visto, é assunto difícil para uma alma ilustre cair em frenesi amoroso. Mas o caso é o tentaram dia após dia e que quase sempre conseguiram fazer-se a ilusão de que amavam. Levavam mais a sério seus amores do que suas obras. É curioso que somente os incapazes de fazer grandes obras creem que o devido é o contrário: tomar a sério a ciência, a arte ou a política e desdenhar dos amores como matéria frívola. Eu não entro nem saio: limito-me a fazer constar que os grandes produtores humanos tendem a ser gente muito pouco séria, segundo a idéia pequeno-burguesa desta virtude.

Mas, o interessante do ponto de visto do donjuanismo é a oposição entre Stendhal e Chateaubriand. Dos dois, é Stendhal quem se afadiga mais corajosamente sobre a mulher. Porém, é todo o contrário de um Don Juan. O Don Juan é o outro, ausente sempre, envolto em sua névoa de melancolia e que provavelmente não cortejou nunca a nenhuma mulher.

O erro de maior calibre que cabe cometer quando se trata de definir a figura de Don Juan é fixar-se em homens que passam a vida fazendo amor com as mulheres. No melhor caso levará isto a tropeçar com um tipo inferior e trivial de Don Juan; mas, o mais provável é que por tal rota chegue-se por certo ao tipo mais oposto. Que aconteceria se ao querer definir o poeta nos fixássemos nos maus poetas? Precisamente porque o mal poeta não é poeta, só acharemos nele a ânsia, a correria, os suores e esforços com que aspira vilmente ao que não consegue. O mau poeta substitui a ausente inspiração com o vestuário convencional: juba e gravata. Do mesmo modo esse Don Juan laborioso, que faz cada dia sua jornada de erotismo; esse Don Juan, que “parece” tão claramente Don Juan, é justamente sua negação e seu vazio.

Don Juan não é o homem que faz o amor com as mulheres, mas o homem a quem as mulheres fazem amor. Este, este é o indubitável feito humano sobre o que deviam ter meditado um pouco mais os escritores que ultimamente se propuseram o grave tema do donjuanismo. É um feito que existem homens dos quais se apaixonam com superlativa intensidade e frequência as mulheres. Há aqui matéria de sobra para a reflexão. Em que consiste esse dom estranho? Que mistério vital se esconde por trás desse privilégio? O outro, o moralizar em torno de qualquer figura ridícula de Don Juan que agrada fingir, me parece muito inocente para ser fecundo. É o eterno vício dos predicadores: inventar um maniqueísta estúpido a fim de se gozar ao refutar ao maniqueísta.

Stendhal dedica quarenta anos a bater nas muralhas da feminilidade. Elocubra todo um sistema estratégico com princípios e corolários. Vai e vem, se obstina e desvencilha na tarefa tenazmente. O resultado é nulo. Stendhal não conseguiu ser amado verdadeiramente por nenhuma mulher. Isso não deve surpreender muito. A maior parte dos homens sofre destino semelhante. Até o ponto de que para compensar a desventura criou-se o hábito e a ilusão de aceitar como bom amor certa vaga adesão ou tolerância da mulher que se logra pela força de mil trabalhos. Acontece o mesmo que na ordem estética. A maior parte dos homens morrem sem nunca ter gozado uma autêntica emoção de arte. Porém, se convenceram em aceitar como tais a cocegazinhas que produz uma valsa ou o interesse dramático que uma novela provoca.

Os amores de Stendhal foram pseudo-amores desta linhagem. Abel Bonnard não insiste devidamente sobre isso em sua Vida amorosa de Stendhal, que acabo de ler e me incentiva a escrever estas notas. A advertência é importante, porque explica o erro radical em sua teoria do amor. A base desta é uma experiência falsa.

Stendhal crê — consequente com os feitos de sua experiência — que o amor se “faz” e, ademais, que finda. Ambos os atributos são característicos dos pseudo-amores.

Chateaubriand, ao contrário, se encontra sempre “feito” no amor. Não necessita labutar. A mulher passa a seu lado e subitamente se sente carregada de uma mágica eletricidade. Se entrega desde cedo e totalmente. Por quê? Ah! Esse é o segredo que os tratadistas do donjuanismo deveriam nos revelar. Chateaubriand não é um homem charmoso. Pequeno e curvado. Sempre mal-humorado, displicente, distante. Sua adesão à mulher amante dura oito dias. Porém, aquela mulher que se apaixonou aos vinte anos segue a vida até os oitenta apaixonada pelo “gênio” a quem talvez não voltou a ver. Isto não são imaginações: são feitos documentados.

Um exemplo, entre tantos: a Marquesa de Custine, a “primeira cabeleira” da França. Pertencia a uma das famílias mais nobres e era belíssima. Durante a revolução, quase uma menina, é condenada à guilhotina. Salva-se graças ao amor que desperta num sapateiro, membro do Tribunal. Emigra para a Inglaterra. Quando volta, Chateaubriand acaba de publicar Atala. Conhece o autor e imediatamente brota nela a loucura amorosa. A Chateaubriand, perenemente caprichoso, almeja que madame de Custine compre o castelo de Fervaque, uma antiga residência senhorial onde Enrique IV passou uma noite. A marquesa reúne quanto pode de sua fortuna, ainda não bem reconstruída depois da emigração, e compra o castelo. Mas Chateaubriand não demonstra pressa em visitá-lo. Por fim, no fim do tempo, passa ali uns dias, horas sublimes para aquela mulher apaixonada. Chateaubriand lê um dístico que Enrique IV instalou na chaminé com sua faca de caça:

A dama de Fervaque
Merece vivo ataque

As horas de felicidade transcorrem rapidamente, sem retorno possível. Chateaubriand vai embora para não mais voltar ou um pouco menos: navega até novas ilhas de amor. Passam os meses, os anos. A Marquesa de Custine se aproxima dos setenta. Um dia mostra o castelo a um visitante. Ao chegar este à sala da grande chaminé, diz: “De modo que este é o lugar onde Chateaubriand esteve aos seus pés?” E ela, prontamente, estranhada e como que ofendida: “Ah, não, meu senhor, não: eu aos pés de Chateaubriand!”

Este tipo de amor em que um ser está ligado de uma vez para sempre e de todo a outro ser — espécie de enxerto metafísico — foi desconhecido para Stendhal. Por isso crê que é essencial a um amor sua consumação, quando provavelmente a verdade é e está mais próxima do contrário. Um amor pleno, que nasceu na raiz da pessoa, não pode verdadeiramente morrer. Vai inserido para sempre na alma sensível. As circunstâncias — por exemplo, a distância — poderão impedir sua necessária nutrição, e então esse amor perderá volume, se converterá num punhado sentimental, veia breve de emoção que seguirá surgindo no subsolo da consciência. Mas, não morrerá: sua qualidade sentimental perdura intacta. Nesse fundo radical, a pessoa que amou segue sentindo-se absolutamente ligada à amada. O acaso poderá levá-la daqui para lá no espaço físico e social. Não importa: ela seguirá estando junto a quem ama. Isto é o sintoma supremo do verdadeiro amor: estar ao lado do amado, em contato e proximidade mais profundos do que os espaciais. É um estar vitalmente com o outro. A palavra mais exata, mas demasiado técnica, seria esta: um estar ontologicamente com o amado, fiel ao destino deste, seja o que seja. A mulher que ama ao ladrão, ache-se ela com o corpo onde queira, está com o sentido no cárcere.

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