Mu-dança

Para encaixotar o que se vai levar, é preciso revisitar gavetas e ambientes do armário por onde não se costuma passear, buracos negros existentes ao seu redor. São tantos encontros nessa hora…

Aquele objeto perdido que você procurou em todos os lugares e simplesmente apareceu ali exatamente agora. Aquelas cartas alaranjadas pelo tempo que você teima em continuar guardando. Aquele resto de perfume que virou álcool. Aquela merda de comprovante que teria evitado tanta dor de cabeça. Aquelas conchas que vc levou de uma praia e não lembra mais qual delas. Aquele bloco de anotações que sabia tanto de você. As contas do outro apto. Cartões de visitas de pousadas que vc pretendia ir. Bilhetes. Listas e mais listas. Laços de fita de um presente há muito aberto. Chaves que abrem algum lugar, mesmo que vc não saiba mais qual. Fotografias em papel! Desenhos, pessoas, cheiros. Flores secas. Reticências. Tudo devidamente (des)arrumado para ser o paraíso dos ácaros, traças e nostálgicos como eu sei ser.

Desejos de mudança surgindo. Já com muitas epifanias acumuladas que esperam a hora do próximo encaixotar para acontecer.

P.S. — Nos últimos 13 anos me mudei 8 vezes e isso não é modo de falar. Cada mudança era uma bela oportunidade de limpar, zerar, bagunçar ou arrumar a cabeça. Há mais de cinco no mesmo apto, agora prestes a começar uma nova dança.

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